A Arte de Votar

Em seu artigo de 1º de outubro de 2026, às vésperas das eleições presidenciais, Cora Rónai aponta que a disputa será entre “o intragável e o catastrófico”. Por que isso ocorre no Brasil? Por que essa fulanização de um processo que deveria ser encarado como a escolha, pela sociedade, de um caminho capaz de arregimentar as forças sociais em benefício de um projeto de desenvolvimento nacional?
É preciso voltarmos um passo atrás e falarmos um pouco do Fordismo.
O Fordismo se inicia com a linha de produção em massa que barateou o produto mágico do início do século XX — o automóvel — e que revolucionaria tudo: o modo de vida das famílias, a maneira de habitar e até a forma como as cidades se estruturavam.
Henry Ford, com sua linha de produção e seu carro barato — que poderia ser adquirido pelos próprios operários de sua fábrica —, criou inicialmente um movimento de consumo de massa. Esse consumo evoluiu para uma sociedade baseada em valores como status, aparência e distinção, alimentada pela possibilidade de consumir cada vez mais, decorrente do aumento da produtividade do trabalho.
O Fordismo, quando combinado com o Keynesianismo e com uma maior participação do Estado — ampliando sua dimensão regulatória, dando certa previsibilidade ao futuro e valorizando o planejamento e outros instrumentos —, tornou-se um dos grandes motores, inicialmente da sociedade americana e, depois, de boa parte do mundo.
Esse modelo, a partir dos anos 1970, com o aumento do custo do petróleo e a crescente vulnerabilidade às tensões internacionais, inclusive as decorrentes da disputa entre diferentes centros de poder durante a Guerra Fria, passou a conviver com um mundo muito mais instável.
Os mecanismos regulatórios e mesmo instituições multinacionais, como o FMI e o Banco Mundial, já não eram suficientes para dar a tônica do desenvolvimento mundial.
Nesse contexto de enfraquecimento da civilização da energia barata, começaram a ganhar força temas como sustentabilidade, aquecimento global, mudanças climáticas e outros efeitos decorrentes das externalidades negativas desse modelo de Fordismo ampliado.
Foi um modelo que produziu grandes avanços em indicadores como expectativa de vida e educação, mas não resolveu problemas como a extrema desigualdade social ou a situação das mulheres. Apesar de terem ingressado amplamente no mercado de trabalho nos países mais desenvolvidos, elas continuam prejudicadas na maioria das sociedades.
A sociedade atual experimenta o início do que poderá ser um novo Fordismo, desta vez comandado pela disseminação da Inteligência Artificial.
Já não se trata simplesmente da digitalização e da automação como ferramentas. Estamos diante de uma evolução desses mecanismos artificiais no próprio direcionamento das decisões — decisões que vêm sendo cada vez mais delegadas pelos seres humanos: o que fazer, quando fazer, o que consumir.
A discussão, em escala mundial, sobre o acesso de crianças e adolescentes a essas tecnologias mostra a dimensão do problema. A Inteligência Artificial passa a ser vista como uma ferramenta extremamente poderosa de influência sobre mentalidades individuais e, por extensão, potencialmente sobre mentalidades coletivas.
Até a imagem do antigo “botão vermelho”, que o presidente dos Estados Unidos ou da Rússia apertaria para comandar uma resposta a um ataque nuclear, deixou de representar apenas uma decisão humana relativamente rápida. Em um cenário no qual sistemas automatizados identificassem a trajetória de dezenas ou centenas de mísseis intercontinentais viajando a velocidades enormes, a resposta talvez precisasse ser comandada por computadores, porque poderia não haver sequer tempo suficiente para consultar uma mente humana.
É nesse mundo que se debatem temas como a regulação das redes sociais e os limites a serem impostos — ou não — ao progresso da Inteligência Artificial. Alguns dos líderes desse setor já discutem formas de desacelerar esse desenvolvimento, de maneira a permitir que a mentalidade e as instituições humanas consigam se aproximar do estágio alcançado pela tecnologia e da nova sociedade que ela está ajudando a criar.
Que sociedade é essa?
É uma sociedade marcada pela imprevisibilidade do futuro, pela precariedade de muitas decisões, pela valorização do empreendedorismo e do individualismo e pelo enfraquecimento da ideia tradicional de carreira. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a necessidade de novas redes de proteção social.
Ao longo de séculos do processo civilizatório, o trabalho foi um dos grandes demarcadores de uma visão de futuro: o sustento da família, a criação dos filhos e a conquista de garantias individuais. Se a remuneração do trabalho perder progressivamente esse papel e parcelas crescentes da população passarem a depender predominantemente de benefícios concedidos pelo Estado, em um sistema administrado por estruturas cada vez mais automatizadas e por grupos que controlam o poder, o futuro poderá se apresentar de maneira extremamente preocupante.
O Fordismo estaria, assim, sendo substituído por uma espécie de “artificialismo” na estruturação dos valores da sociedade.
Nesse contexto, o ato de votar deveria adquirir uma dimensão diferente daquela que aparentemente vem orientando as intenções dos eleitores brasileiros, tantas vezes sujeitas ao último fato ou ao último escândalo do momento.
Votar não deveria significar apenas escolher entre personalidades, rejeições ou paixões circunstanciais. Deveria significar escolher pessoas capazes de compreender a sociedade que está surgindo e de orientar suas transformações segundo determinados valores fundamentais.
O voto deveria privilegiar candidatos que tenham experiência de vida, capacidade de compreender as grandes transformações do nosso tempo e um compromisso histórico radical com a humanização dos processos produtivos e sociais, com o respeito à diversidade e, sobretudo, com a preservação inegociável do ambiente democrático.
Essa talvez seja, nos tempos que se aproximam, a verdadeira arte de votar.
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