A tão decantada paz

Falo tanto da paz no campo que me sinto impelido a tratar do assunto com um pouco mais de significado. Evidentemente que as coisas não são inteiramente do jeito que divulgamos. Sempre tentamos retirar algo de positivo, de uma experiência, e o sentimento que fica dentro do nosso espírito, é o que vale. Existem problemas de se viver no campo? Sim, claro, como há problemas em simplesmente existir em qualquer espaço.
Me lembro que, durante a pandemia do Covid-19, fui qualificado como sortudo por morar na roça e não sofrer tanto as consequências dos sustos e medos que acompanhavam a maioria das pessoas. Este conceito (de sortudo) me pegou de um jeito torto. Sei que amigas e amigos estavam extravasando seus temores diante das notícias assustadoras que recebíamos diariamente e sabiam que onde eu moro não se estava usando máscaras, por exemplo.
Entendi o porquê da alcunha de “sortudo”. Eu e meus vizinhos nos encontrávamos sem máscara para conversar e nos distrair, já que estávamos ilhados no nosso vale, impedidos voluntariamente de sair. Nada mais nos restava a fazer a não ser padecer da grande preocupação com aqueles que passavam por tantas mazelas, cujas patologias eram assustadoras.
Uma vez por semana alguém ia à cidade fazer as compras – de máscara – e atendia a todos os vizinhos. E assim passamos alguns meses inesquecíveis em encontros para trocar ideias, jogar cartas e saber das novidades.
Mas, sortudo? Uma pinoia!
Quando optei por vir morar no campo, sabia que estaria abrindo mão de muitas coisas. Deixei de ir à praia, de frequentar restaurantes, de ir ao teatro ou cinema, de ver exposições de arte, de prestigiar amigos em lançamentos de seus livros e de tantos outros encontros e prazeres.
Ninguém se lembrava de mim, então. Os afazeres e interesses de todos ocupavam o tempo e a mente dos amigos e amigas. Eu era o parceiro estressado que se afastou e foi morar no mato. Se deliciavam quando vinham passar um feriadão ou fim de semana na roça mas não abriam mão da rotina de uma grande cidade, onde pulsavam os acontecimentos mundanos e irrompiam as novidades citadinas. “Como você pode viver assim, neste silêncio?” ouvi muito...
Porém, não caí de paraquedas aqui na roça. Foi muito bem pensado, planejado e executado, este meu movimento de desligamento do planeta cinza. Já cansado – de certa forma – do burburinho, do rebuliço e do agito de uma metrópole, decidi usufruir, nesta última etapa de minha passagem, de uma paz que minha idade tanto valoriza. Mesmo sabendo que rosas são lindas e perfumadas, mas tem espinhos ou que o mel é doce mas a abelha pica dolorido, sei que a paz conquistada tem seu preço. É uma decisão.
“A paz você a escolhe. E ela acontece pelo que você ignora, pelo que você deixa pelo caminho, pelo que deixa de alimentar com sua energia. Essa é a virada, o turning point”.
São palavras do filósofo Lee Jun-fan ou, como é mais conhecido, o mestre ninja sino-americano Bruce Lee. As artes marciais eram exemplos práticos da autoexpressão da filosofia que apregoava. Fica explícito que ao fazer uma escolha algo sempre é deixado de lado. Ao vir morar no campo em busca da paz, tive que abrir mão de muitos conteúdos, ações e realizações como também de motivações, causas e questões. Não foi fácil, mas com determinação abri minha mente para o novo que estava abraçando e sendo abraçado.
Mas dizer que fui “sortudo”? Só lembraram de mim quando minha decisão ficou clara como o juízo acertado. Hoje vivo outra realidade. Durmo um sono reparador em noites escuras e silenciosas. Me alimento com comida de verdade e não com produtos industrializados, ultraprocessados de sabor sintético.
Bebo água pura da fonte. Leio bastante, escrevo idem. Recebo amigas e amigos locais e também sou convidado sempre sem pressa, em estradas tranquilas sem congestionamento. Na cidade é um luxo, sou conhecido pelo nome e muitas vezes sou cumprimentado por pessoa que nao tenho a menor idéia de quem sejam.
Cruzo com o prefeito, com os vereadores às vezes mais de uma vez. Compro sem dinheiro, pago no fim do mês.
Apesar do diminuto tamanho, a cidade tem uma academia e Pilates, os quais frequento.
E a vida segue sem sustos.
A paz almejada foi conquistada.
Nota do editor: o escritor Luiz Inglês vive em Bananal, em São Paulo.
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