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Avós, Acarajés e o Novo Ano

Atualizado: 5 de jan.



No primeiro dia do Ano da Graça de 2026, vi na rede social uma publicação em que a pessoa dizia: "amo meus netos". Na foto, duas crianças sorridentes e a autora do post, uma bela mulher, bem vestida e maquiada. Mais para Chapeuzinho Vermelho que para Vovozinha do conto de fadas. Nos comentários, o elogio de um fã: "sempre linda com seus olhos agateados", seja lá o que isto signifique.


Nos meus tempos de infância, avós eram sinônimo de pele enrugada, andar pausado, respiração contida. Claro que nem todo mundo seguia tal estereótipo.


Não conheci meu avô paterno, chamava-se Florberto Laurentino, nem o materno, Pedro Pinto. Parece que naquela época os homens das classes populares não costumavam passar dos 50.

A mãe de minha mãe, Ernestina, sofria de um mal cardíaco que fazia com que ficasse mais tempo em hospitais do que em casa.


Reza a lenda que ela teria fugido algumas vezes para me ver, eu ainda bebê. As únicas lembranças que tenho dela são os olhos, claros e resignados, e a pergunta atravessada: "A Mãe Tina foi pra onde?" "Virou estrela" – minha mãe respondeu. De fato, olhei pela janela do quarto e naquele céu pálido de fim de tarde vi brilhar um novo astro.

Com quem eu mais convivi, até certo tempo, foi a Vó Isabel, mãe do meu pai, baiana de tabuleiro, frequentadora e depois iniciada no Candomblé pelo terreiro de Mãe Raimunda, em Barra de Guaratiba, se não me falha a memória.


Dona Isabel ou Isabé, como muitos a conheciam, contrariava grande parte do que se esperaria de uma avó daqueles tempos. Por essa e outras, sofreu injustiças e discriminações. De vez em quando, aparecia com um "amigo". Aí a fofoca corria solta na família. Dizia ser descendente direta de indígenas do litoral baiano, por parte de mãe e de africanos e espanhóis, por parte de pai.

Seu nome foi dado em homenagem à princesa que assinou a lei de abolição da escravatura, que infelizmente não foi seguida por outras que garantissem terra, educação e crédito para os ex-escravizados.


Vó Isabé era boa de cozinha, esperta, botava tabuleiro perto de escolas ou feiras. Ali vendia cuscuz, cocadas, balas de coco. Também paçoca, acarajés e abarás.


Aos domingos de verão, partia para a Praia de Ramos – de águas límpidas, quem diria? – montava sua banquinha e vendia rodelas de abacaxi gelado. Para garantir o sucesso da empreitada, usava como base a casa de uma amiga, na verdade um barraco equilibrado sobre palafitas, ao qual se chegava por pontes improvisadas de tábuas. A primeira vez que lá estive, fiquei horrorizado. Diante de meus protestos, ela respondeu com aquele típico sotaque baiano:

"George, mofio, é o que sobrou prá nós. Vamo trabaiá que Oxalá ajuda".



Feliz 2025. E que a IA não nos substitua, ao menos por enquanto.

Jorge Cardozo


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.


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2 comentários


Sonali Maria
Sonali Maria
04 de jan.

Bom 2026 Jorge! Com a força ancestral de avós e acarajés!

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Silni Lima
Silni Lima
03 de jan.

Maravilhoso!

Lembrei das minhas avós, que foram três, e dos meus avôs. Saudades! Ótimas lembranças, mesmo as dolorosas.

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