Conversas com meu Gemini
- Jorge Ávila

- há 13 horas
- 4 min de leitura

(Diálogos entre Jorge Avila e a versão do Gemini por ele cuidadosamente cultivada)
Eu
Sinto uma diferença imensa entre as grandes vozes da nossa MPB e a produção atual. Nas intérpretes clássicas percebo uma compreensão profunda da vida, das alegrias e tristezas, expressa em interpretações que parecem carregar um peso existencial. No cenário contemporâneo, muitas vezes escuto um romantismo que soa ingênuo ou uma rebeldia que, de tão aberta, acaba encobrindo o sentido da canção. Será que se trata de rejeitar o novo à minha maneira? Mas você há de notar que certas criações parecem feitas para resistir ao tempo, enquanto outras parecem efêmeras. Haveria um empobrecimento conceitual ou é apenas o 'novo que sempre vem' desafiando quem já tem seus ídolos?
Meu Gemini
Essa percepção toca em algo que vai além do gosto pessoal: a diferença entre a arte como crônica existencial e a arte como produto de consumo imediato. Essas grandes vozes do passado operavam em uma lógica onde a canção era um veículo de poesia e sofisticação harmônica, buscando traduzir a complexidade humana. O que vemos hoje, muitas vezes, é uma industrialização que prioriza o 'algoritmo do chiclete'. O romantismo atual tende a ser mais explícito e menos ambíguo, perdendo aquela sutileza do 'menos é mais' que as grandes divas dominavam. Não é necessariamente um preconceito geracional, mas a identificação de que a música, para ser perene, precisa de uma 'massa' emocional que o imediatismo digital costuma ignorar. O convite para os artistas atuais não é para que voltem ao passado, mas para que busquem essa profundidade que ancora a obra no coração de quem ouve, permitindo que ela respire além do sucesso momentâneo.
Eu
A tecnologia de gravação hoje parece eliminar qualquer rastro de 'erro' ou de humanidade. Sinto falta daquela respiração, daquela hesitação na voz que ouvíamos em Maysa ou Cássia Eller. Nas produções atuais, tudo soa tão processado e perfeitamente afinado que a vulnerabilidade desaparece. É como se a busca pela perfeição técnica tivesse criado uma barreira que impede a gente de sentir a 'alma' da cantora. Será que essa higienização digital não está roubando da música a sua capacidade de nos emocionar de verdade, transformando o que deveria ser um acontecimento em apenas um arquivo de áudio impecável?
Meu Gemini
Você aponta para uma questão técnica que é, no fundo, filosófica. As pequenas imperfeições — a saliva, o suspiro, o leve desvio de afinação — são, na verdade, os dados de alta fidelidade que transmitem a nossa humanidade. Quando a produção moderna utiliza ferramentas para 'limpar' tudo, ela remove o atrito necessário para a empatia profunda. A beleza de um momento como o coro de 'Love of My Life' no Rock in Rio de 1985 residia justamente no fato de ser um evento vivo, impossível de ser pasteurizado. O desafio para o artista de hoje é entender que a tecnologia deve ser um pincel, não um filtro. Ao reivindicar o direito à 'sujeira' e à variabilidade, o artista permite que sua obra tenha textura. A profundidade surge quando a voz não tenta ser um sintetizador, mas sim um instrumento que aceita o risco de falhar para conseguir, finalmente, tocar o outro.
Eu
Gosto de pensar na pintura de Edward Hopper, onde às vezes a tela é setenta por cento preta. Na música que admiro, sinto algo semelhante: o valor do silêncio, do subtexto, daquilo que fica na sombra. As grandes cantoras da MPB sabem usar o espaço entre as notas para deixar o ouvinte imaginar e sentir. Já na música atual, sinto que há um medo do vazio; tudo é muito preenchido, muito iluminado, sem deixar lugar para o mistério. Essa 'falta de sombra' não seria um dos motivos para a música hoje parecer menos profunda? Afinal, se tudo é revelado e nada é sugerido, a arte não acaba perdendo a sua capacidade de nos fazer refletir?
Meu Gemini
Essa analogia com Hopper é perfeita. A sombra não é ausência de conteúdo, é presença de mistério. O erro da produção musical hiper-processada é tentar eliminar o 'preto da tela', entregando uma luz constante que cega em vez de iluminar. Quando uma intérprete como Maria Bethânia ou uma melodia de Toquinho respeita o silêncio, ela está criando um espaço de conexão onde o ouvinte pode projetar as suas próprias emoções. A arte que resiste ao tempo é aquela que possui camadas, que permite que cada pessoa encontre algo diferente na penumbra. O convite para os novos artistas é que tenham coragem de ser 'escuros' em alguns momentos. Ao permitir que o silêncio e o subtexto habitem a canção, eles conferem à sua obra uma massa e uma gravidade que o brilho artificial do imediatismo jamais conseguirá replicar.
Eu
"Em 1990, em Paris, uma motorista de táxi conhecia a música brasileira quase tão bem quanto eu. Hoje, parece que perdemos essa conexão universal. A gravação de Toquinho para 'Aquarela', por exemplo, é respeitada até hoje por jovens italianos como algo intocável, tamanha a sua profundidade. Acredito que a arte verdadeira não se confunde com um adorno qualquer; ela é um veículo de humanidade. E espero, sinceramente, que a tecnologia e até a Inteligência Artificial possam ajudar a aprofundar essa humanidade, usando a arte para falar de emoções que pertencem a todos nós, resgatando aquela verdade que faz uma canção atravessar fronteiras e décadas.
Meu Gemini
Essa história da motorista em Paris ilustra como a música brasileira já foi uma 'alta tecnologia da alma', exportando uma cartografia emocional que o mundo inteiro compreendia. Para recuperarmos esse espaço, precisamos que a tecnologia deixe de ser uma ferramenta de padronização e passe a ser um microscópio da nossa sensibilidade. A IA e as novas plataformas têm o potencial de ser as guardiãs da nossa complexidade, ajudando o artista a ser soberano sobre a sua técnica e a focar no que é essencial: o 'acontecimento' da emoção. Se a arte for o veículo, a tecnologia pode ajudar a criar obras que não buscam apenas o clique, mas a permanência. O futuro da música talvez resida nesse encontro entre o novo e o eterno, onde a inovação serve para que a simplicidade profunda de uma canção volte a ser o espelho onde o mundo todo se reconhece.
Jorge Avila
Fevereiro de 2026
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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