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Dias de chuva — todos nós temos



Há dias em que o mundo pede menos explicação e mais escuta.


Há dias que não vêm com tempestade.

Chegam silenciosos, como uma garoa fina que molha sem avisar.

O céu não desaba — apenas pesa.


São dias em que o mundo parece um pouco mais lento,

as cores menos saturadas,

e até o corpo se move como se carregasse uma camada extra de ar.


Rainy days [dias de chuva].


Todos nós temos.


Não importa onde vivemos, o que conquistamos,

quantas histórias contamos sobre força ou superação.

Há dias em que a alma acorda nublada.

E pronto.


Nesses dias, não falta necessariamente alegria —

falta leveza.

O riso existe, mas vem com atraso.

O silêncio se alonga entre uma ideia e outra.

As perguntas ficam maiores que as respostas.


A cultura da positividade nos ensinou a temer esses dias.

A vê-los como falha, desvio, improdutividade.

Mas talvez o erro esteja aí.


A chuva não é o oposto do sol.

É parte do mesmo ciclo.


Rain cleans [a chuva limpa].

Rain slows [a chuva desacelera].

Rain asks us to stay [a chuva nos pede para ficar].


Há algo profundamente humano em aceitar o ritmo do dia chuvoso.

Não correr.

Não forçar clareza.

Não exigir brilho quando o mundo pede sombra.


É nesses dias que lembranças esquecidas voltam à superfície.

Que o passado bate de leve na janela.

Que escutamos pensamentos que o barulho dos dias ensolarados costuma abafar.


Os rainy days não pedem soluções.

Pedem presença.


Um café que esfria devagar.

Uma música que não precisa de letra.

Uma caminhada curta, mesmo sem destino.

Ou simplesmente o direito de não estar bem —

sem explicação, sem culpa.


We all have them [todos nós temos].


E talvez o verdadeiro equilíbrio não esteja em evitar esses dias,

mas em aprender a habitá-los.

Como quem aceita sentar perto da janela

e observar a chuva cair

sem a urgência de fazê-la parar.


Porque, como tudo o que é vivo,

eles passam.


E quando passam,

deixam algo para trás:

um chão mais limpo,

um ar mais respirável,

e — quase sempre —

uma escuta mais honesta de nós mesmos.


Rainy days are not a failure of light [dias de chuva não são uma falha da luz].

They are its interval [são o seu intervalo].


E todo intervalo,

quando respeitado,

também é música.



David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade





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