DISSONÂNCIAS
- Leo Viana

- 30 de nov.
- 4 min de leitura

- Preciso não dormir, até se consumar o tempo da gente...
A voz rouca da Elizeth Cardoso e o violão preciso, dolente e genial do Raphael Rabello talvez não fossem a trilha sonora ideal para um momento como aquele, mas era a que embalava a última viagem no Uber do Ataíde, que tinha conseguido um passageiro para as proximidades de sua casa, num golpe de sorte no qual ele ainda tinha dificuldade de acreditar.
Chegava a se beliscar. A viagem da Lapa a Mangaratiba era enorme e salvaria o dia, que tinha sido pura dor de cabeça, tiros n’água, alarmes falsos, canoas furadas e outras figuras de linguagem. Não era de se comover com música, preferia o silêncio, mas sabia que não podia mesmo dormir, e Chico Buarque parecia ter feito aquele verso para ele. E a melodia de Cristóvão Bastos era perfeita para o verso.
- Batidas na porta da frente, é o tempo...
O Jovino não entendia direito o que a Nana Caymmi cantava e que o Aldir Blanc tinha escrito sobre a música do Cristóvão Bastos, mas dominava o caminhão, que se movia a quase 100 por hora numa estrada reta do Paraná, carregando soja na escuridão da noite para entrar na fila do Porto de Paranaguá ao amanhecer. Corria agora para poder descer a serra devagarinho. Ele, que nunca foi de ouvir música, só lembrava de outra coisa com batidas de porta: um comercial antigo das Casas Pernambucanas. Quem batia era o frio. Agora é o tempo. Para raciocínios simples como o do Jovino, tempo e frio não batem na porta. Mas a música é bonita...
- Covarde sei que me podem chamar...
Epa! Para o Claudemir, chamar de covarde é ofensa grave! Se alguém fizesse isso com ele, correria o sério risco de perder alguns dentes da frente. Enquanto fazia o seu serviço de segurança noturno, auxiliado por dois rottweilers enormes e pouco simpáticos, protegido por uma .45 com silenciador e pela aparência de lutador peso pesado, com músculos hipertrofiados, ouvia, sem prestar nenhuma atenção, o samba de Ataulfo Alves e Mário Lago, na gravação bem antiga do primeiro. O chiado atrapalhava um pouco a audição, mas música nunca seduziu os seus ouvidos. Para piorar, o cara dizia que podia ser chamado de covarde! Isso nunca! Tinha fama de mau, mas dizia que covarde ele não era. Isso não!!
- Sempre só, eu vivo procurando alguém que sofra como eu também...
A voz de Nelson Cavaquinho, rascante como uma cachaça barata, na parceria com Guilherme de Brito, incomodava demais o Alair. Mais ainda porque ele não admitia essa coisa de cantar tristeza. Não gostava de música, mas tinha ouvido uma, uma vez, há muito tempo, que dizia que “a alegria é a melhor coisa que existe”. Concordava muito com esse verso do Vinícius de Moraes, apesar de considerá-lo nada mais que um bêbado promíscuo. Achava que a maioria das outras músicas falava de tristeza. A mesma canção, aliás, num outro trecho, dizia que “é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não”. Isso era uma loucura para ele. Na tristeza, o que se deve fazer é chorar, ele pensava alto.
- O mar, quando quebra na praia é bonito, é bonito...
O vozeirão de Dorival, o patriarca dos Caymmi, irrompeu com tudo da velha vitrola da casa do Aristeu, na qual ele nunca tinha colocado a mão. O pai, ouvinte atento de todos os tipos de música e especialmente cultor da música brasileira do século XX, identificou cedo no filho uma aversão ao seu maior prazer. O moleque detestava música. A insensibilidade do filho às melodias fez a tristeza do velho Arnaldo. A primeira providência foi impedir que o garoto se aproximasse da vitrola. Tinha medo que ele fizesse mal ao seu aparelho amado ou aos discos, cultuados como pequenos deuses redondos e achatados. A criança cresceu distante de música e poesia, insensível a esses respiros da alma. Agora, adulto, achava absolutamente estranho o verso de Caymmi. Até achava bonito o mar quebrando na praia, apesar da monotonia da cena repetida milhares de vezes ao dia. Que sentido fazia cantar aquilo? Para ele, nenhum.
- O que trago dentro de mim preciso revelar...
Dona Ivonne Lara, cantando essa parceria dela com Délcio Carvalho, já fez muita gente ir às lágrimas de emoção, alegria que transborda, felicidade que não cabe em si. Mas não mexia com qualquer sentimento da Selma. Criada para ser vitoriosa no mercado financeiro e ostentar riqueza, não era de emoção. Era de razão pura, e sua razão não comportava poesia. Isso era distração, perfumaria desnecessária para a vida. Quem perde tempo ouvindo canções não chega a lugar nenhum, afirmava. E menos ainda se revela o que tem dentro de si, como diz esse verso que agora ressoava. Gente fraca é que gosta de subterfúgios sentimentais, ela repetia, cheia de certezas e dinheiro.
Insensíveis todos, mas são meus personagens, e tenho o poder de eliminá-los a qualquer momento, como, aliás, farei agora.
Daqui, dessas mal traçadas linhas, não vão a lugar nenhum. E que bom seria se alguns personagens da vida real, que andam por aí, em live action, fossem passíveis dessa neutralização literária.
Talvez o bom gosto predominasse sobre o caráter que grassa, hediondo, sobre grande parte da humanidade.
Não tem jeito.
Mas é um ótimo exercício.
Rio de Janeiro, novembro de 2025.
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