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Férias de Si Mesmo

 

 

Acho adequado agora que estamos chegando aos feriados de Natal e Ano Bom, considerar as duas declarações de Aldous Huxley que, de toda a leitura maravilhosa que fiz dele no passado, ficaram comigo para sempre.


   Aliás, eu ouvi a primeira num Youtube em que Huxley estava sob LSD e, em tom de bem-aventurança, disse pra sua mulher, “Todos nós precisamos de férias de nós mesmos.” Sob o efeito da droga, era o que ele estaria sentindo.


   A outra declaração vem de seu livro imbatível, As Portas da Percepção, sobre a experiencia que teve com mescalina.  Huxley era profundamente místico, e ao descrever a realidade a que o alucinógeno lhe deu acesso, ele fala das cores mais fortes e pulsantes nas flores, do significado que viu nas dobras do tecido de sua calça; do que lhe apareceu carregado de ser e de sentido. Em suas palavras, ganhou, através da mescalina, “uma visão sacramental da realidade”.


   Não é difícil perceber que a experência de estar de férias de si mesmo e a de ter uma visão sacramental da realidade são intimamente ligadas. Já que o nosso ego é a nossa própria prisão na ideia que fazemos de nós e que pensamos corresponder ao que verdadeiramente somos, ideia em geral ligada ao que os outros esperam que sejamos, as férias de si mesmo são as férias desse isolamento egóico, de suas cobranças e objetivos. Fácil dizer e difícil alcançar. Mas, uma vez libertos, a realidade nos aparece eternamente nova como se cada coisa e cada evento, ao invés de serem somente um resultado do que os precedeu, ou efeitos do que os causou, são revelados em si e por si. A dimensão sacramental diz respeito ao que não nasce do tempo, mas diretamente das mãos de Deus. Do eterno.


   As plantas visionárias e as substâncias que delas são sintetizadas, como o LSD, nos fazem ultrapassar as portas da nossa percepção, a qual vem através do ego, que por sua vez é uma ferramenta para a sobrevivência. Em outras palavras, a nossa visão do mundo é pragmática, pois que gira em torno da dicotomia entre o que é bom e o que é ruim para nós. A visão contemplativa, por outro lado, nos mostra a realidade independentemente da sobrevivência; do nosso uso e benefício.


   Huxley tirou o título de seu livro diretamente de William Blake, que na sua obra The Marriage of Heaven and Hell, escreveu: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo nos apareceria como é, Infinito. Mas o homem se encerrou em si mesmo e vê tudo através das estreitas fendas de sua caverna.”


   Huxley chamou essa realidade mais abrangente e infinita de “mente geral” (mind at large). Para ele, o cérebro e o sistema nervoso têm uma função redutiva, filtrando a maior parte dela e só deixando chegar à nossa consciência o que serve para nos manter vivos, como a necessidade de evitar o perigo, encontrar comida etc.


Assim sendo, ele ligou a metáfora “portas da percepção” à sua ideia de uma válvula em nosso cérebro, que quando parcialmente aberta pelos psicodélicos, deixa a realidade maior irromper, numa visão intensa e frequentemente mística. É então que nossas prioridades como ganhar dinheiro, status, ou cumprir com objetivos práticos perdem o sentido. Mas para Huxley, os psicodélicos são somente o atalho para uma “graça gratuita”. Além deles, o escritor considera outros métodos, como a meditação, a contemplação estética, o jejum e práticas místicas tradicionais.


   Na mesma linha da válvula redutora de Huxley, Proust pensava que a verdadeira viajem de descoberta não significa buscar lugares novos, mas ver com olhos novos. Estimo que nesses feriados, possamos conseguir, com olhos novos, nos redescobrir em merecidas férias de nós mesmos.

 

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