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Goethe e o Céu Estrelado


  

Antes de peitar a tecnocracia para pagar uma mera conta de telefone online, eu estava imersa na fascinante leitura do livro de Rudolf Otto sobre o “Mysterium Tremendum et Fascinans”, bem na parte em que ele fala sobre Goethe e sua capacidade de divination, a qual concerne o reconhecimento do numinous através de signs.


  Esses signs podem estar em pessoas, eventos, coisas e, para Goethe, especialmente em animais.  Otto observa que essa ‘divination’ de Goethe  não percebe o numinous como os profetas, em quem o mistério não-racional do sagrado é sentido no seu valor mais profundo, como santidade.


Para ele, Goethe tinha uma genuína capacidade de divination, mas fica no nível do daemonic, (que nada tem a ver com demoníaco) que antecede a religião. Daemon vem do grego e significa espírito, sem conotação moral.

   

Para Otto, Goethe não soube expandir essa divination of the daemonic `a própria e elevada concepção que tinha do divino. Seja o que for, achei fascinante me deparar através de Goethe, com o tipo de visão que reconhece o mistério dos animais; a sua dimensão espiritual. Enquanto a Ciência os vê em termos biológicos, ou utilitários, esse mistério e totalmente ignorado.  O que manda no nosso mundo é o uso, o “pra que serve”, trate-se de um pato, de um boi, ou do que for.  

A capacidade de divination se restringe aqueles que recebem impressões do transcendente, e seus julgamentos não-racionais têm a ver com os julgamentos do puro sentimento contemplativo.


Um dos signs do numinous, por exemplo, é a sensação que temos, ao contemplar o céu estrelado, de que o universo tem um proposito último.

  

Através de um livro, podemos mergulhar num mundo de beleza. Dimensões da realidade transcendente podem então nos livrar do nosso mundo profano da contabilidade do dinheiro, da finitude, e de toda a vulgaridade.

  

Com essa inspiração depois de algumas horas de leitura, fui pro computador pagar a tal conta. Sei lá por que cargas d’agua, essa conta, em que consta o meu telefone e o de minha filha Olivia, foi posta no nome dela pelo seu próprio pai, mesmo ele sabendo que quem iria pagá-la sou eu. O resultado é que Olivia nunca abre envelopes dirigidos a ela, ignora contas, e adia o que pode. Mas o envelope que vem com a conta tem o número dessa conta e a quantia que se deve pagar.

  

Eu, que já tinha recebido mensagens digitais no meu telefone, alertando que o pagamento estava atrasado, procurei o nome da companhia online, preenchi o site com o telefone de Olivia, e esperei que eles encontrassem o resto.  Na mesma hora, pediram uma senha. Claro que eu não tinha, e Olivia nunca precisou de senha para pagar a conta. Pra resumir a estória das minhas tentativas online, que levaram uma hora, vou contar a parte mais louca, quando pedi “pinico” e decidi ligar pra companhia pra pagar a conta pelo telefone. Claro que fui primeiramente atendida por uma gravação: aperte 1 pra “isso”, 2 “praquilo”, 3 pra sei lá mais o que, 4 pra falar com um agente, e por mais 10 dólares, pagar sua conta nesta ligação. Optei pelo 4, já decidida a acabar com aquela chatice o mais rápido possível. Mas nem isso!

 

  Me atendeu uma voz de mulher que fazia longas pausas, me obrigando a perguntar mil vezes “Are you there?”, e no seu sotaque caricatural de uma língua que não pude definir, repetir outras mil vezes “What?”. Quando perguntei quanto devia pagar, ela me respondeu que não tinha permissão para revelar, mas que eu podia lhe dar a informação do meu cartão de crédito. “Quer dizer que receber pagamento, você pode, mas dizer pra quanto, você não pode? E eu, sem saber nem o que estou pagando e sem direito a nenhuma resposta, sou como um ladrão ‘implorando’ pra pagar uma conta? Será que pode me dizer ao menos se o meu número de telefone ou o meu nome está nessa conta? O aviso de atraso foi mandado pra mim afinal! Mas quando fui pagar online, quiseram me mandar um código mas disseram que não reconheciam o meu numero!” E ela repetiu: “Não tenho autorização para especificar contas”. Consegui entender isso depois de perguntar mais mil vezes “What?” e “Are you still there”?

  

Irritada do jeito como estava, resolvi ser irônica. Afinal, as ligações são gravadas e fosse quem fosse naquela companhia, poderia ouvir e perceber o absurdo. Perguntei: “Você tem autorização pra me dizer se em meu lugar, você mudaria desse Verizon pro AT&T?”

  

O AT&T é seu competidor. Silencio, por alguns momentos. E depois de uns sons que não decifrei, ela balbuciou, me parece, que gostava do Verizon. “Muito obrigada, mas não vou pagar pelo telefone o que nem sei quanto é e nem pra quem!” e desliguei. Pouco depois, ela própria voltou a ligar, dizendo que estava esperando que eu pagasse a conta. Desliguei de novo.

  

Chris estava lá fora fazendo jardinagem. Explicou que não tinha sentido eles não poderem dizer o total de uma conta no nome de outrem, pois nenhum estranho iria querer pagá-la.

  

A burrice da era digital é surrealista. Depois daquela, os sinais do numinous, o céu estrelado, e Goethe já tinham ficado em outra existência.

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