IMPROVÁVEIS
- Leo Viana

- 18 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de jan.

Na primeira vez, juntou dinheiro loucamente, pagou coyote, quase afundou no Rio Grande, atravessou o deserto e conseguiu, por seis meses, lavar inúmeros banheiros, fritar umas batatas e encerar carros na Califórnia. Preso e deportado, chegou sem dinheiro nenhum e não conseguiu nem voltar para Corumbá — divisa de Mato Grosso do Sul com a Bolívia —, de onde tinha saído.
Na segunda vez, agora com o passaporte boliviano a que tinha direito pela origem da mãe, do outro lado da fronteira, chegou ao México e atravessou em Tijuana, dentro do estofado de um carro grande. Na volta, quatro meses depois, passou um quinto mês numa prisão gelada e comendo muito mal antes da deportação. Agora, vive a dar testemunhos em igrejas pentecostais sobre sua santa vontade de tentar de novo. Sempre há quem diga amém, apesar da desconfiança da maioria.
A Sophie, cuja aparência quase entregava o nome, era refinada e culta na medida certa — sem exageros que soassem elitistas ou artificiais. Educação brasileira, mas de inspiração francesa. Pequena e magra, às vezes lembrava, sim, um bibelô. Mas a cultura e a desenvoltura da Sophie iam muito além das aparências.
Dizem que, quando foi assaltada pela primeira vez — e ela era vítima recorrente, possivelmente pela compleição frágil —, convenceu o ladrão não só a desistir do roubo, como a ajudá-la com as bolsas do supermercado até entrar em um carro de aplicativo. Por liberalidade, deu a ele uma nota de vinte reais.
Sophie foi criada pela avó, professora primária experiente no trato com a infância. Não podia ter sido melhor. Na escola bilíngue, por trás da fragilidade aparente, formou-se uma mente brilhante, com um poder de convencimento que desafiava a lógica previsível. Isso muito antes que avalanches de livros de autoajuda soterrassem as prateleiras das livrarias, vendendo padrões de persuasão e mindset.
Havia quem a classificasse como uma pequena gênia do crime que habitava um corpo frágil. As inimigas juravam que era ela a mentora das loucuras que os meninos faziam, como colocar pó de giz no ventilador de teto após a aula de educação física ou o balde de lixo sobre a porta da sala, imediatamente antes da entrada do professor ou da professora.
Ninguém denunciava porque a Sophie — aquele docinho de menina — também garantia as boas notas de grande parte da turma, oferecendo revisões perfeitas das matérias e se dispondo, ela mesma, a tirar dúvidas sobre qualquer tema e para qualquer interessado da turma, fosse amigo — ela era efetivamente mais próxima dos meninos — ou inimiga.
O Clóvis sofria bullying o tempo todo porque, no subúrbio onde morava, havia os blocos de bate-bola, que usavam aquelas fantasias quentes e exuberantes. Sem juízo de valor aqui se eram mais quentes ou mais exuberantes. Fica a critério de quem lê. E os bate-bolas também são chamados de Clóvis.
Enquanto alguns eram Clóvis apenas no Carnaval, o Clóvis era condenado a sê-lo o ano inteiro.
Revoltado com seu carma, o Clóvis decidiu, ele mesmo, criar um apelido para evitar que seu nome continuasse a ser o motivo de chacota de sempre. Desconhecia, o Clóvis, o fato de que um apelido no subúrbio é coisa muito séria.
Ninguém se torna um Cabeção, Escova, Zé com Fome, Ventania, Picolé, Chico Bento ou Salsicha por vontade própria. É preciso reação ou identificação física. Se o nominado não gostar, se revoltar com o apelido e ameaçar brigar, pega fácil. Ou, por exemplo, um Cabelo de Milho ou um Fuinha será sempre identificado à primeira vista.
O Clóvis tentou. A um eventual novo vizinho que chegasse, apresentava-se como Karatê, porque conhecia os rudimentos da arte marcial oriental. Mas, assim que algum vizinho antigo descobria, rapidamente revelava o nome, gerava uma onda de gargalhadas, e o Clóvis voltava a ser só um nome num contexto engraçado.
A Mirtes queria ser menino. Mas a história não é simples. Ela não queria fazer transição de gênero nem se interessava sexualmente por meninas. Antes de ter qualquer interesse sexual, ela já queria ser menino.
Gostava — e percebeu isso muito cedo — das vantagens competitivas que os meninos tinham. Eles podiam usar cueca, mais confortável que as calcinhas dela; jogar bola; ficar até tarde na rua; falar palavrão; fazer besteiras em geral sem a dura repressão do “bom mocismo”. Cruzar e descruzar as pernas quando quisesse. Sentar de pernas abertas. Um sonho.
Ainda mais numa sociedade machista e distante das atuais liberdades individuais consagradas até na Constituição da República. Ela só queria liberdade. E a liberdade, no tempo da Mirtes, era masculina.
Cresceu e se encontrou com a liberdade que desejava; os costumes foram se adaptando. A Mirtes tem cinquenta anos e um casamento que já dura metade da sua vida.
O Thales, marido dela, se encantou pela menina que tentava, quase em desespero, se libertar dos estereótipos de “menina para casar” da baixa classe média católica. Ele, menino pobre criado severamente, que ascendeu pela educação e pelo esporte, sonhava com gente de fora da sua bolha. Queria conhecer uma mulher libertária.
A vida conspirou: encontraram-se num cinema, solitários com suas angústias. Olharam-se, aproximaram-se, conversaram e, numa absurda improbabilidade, entenderam-se. Jogam bola juntos. Viajam juntos, aventuram-se.
Ela é uma cinquentona sem modos, que fala palavrão, discute política, futebol e virou jornalista por paixão pela descoberta. Os filhos já precisaram defender a mãe das más-línguas. O Thales ri a cada nova história. Sente que participou de uma libertação.
Os filhos, um casal, aprenderam a se livrar de pretendentes indesejáveis chamando a mãe para conhecer os pais dos supostos pretendentes. Avisam que não estão querendo engrenar o relacionamento, e a mãe faz o resto, escandalizando famílias caretas. Mas com conteúdo!
Fala outras línguas, conhece muito os assuntos da atualidade, não economiza palavrões para nomear Trump e a extrema direita do mundo todo — inclusive e principalmente do Brasil.
E não deixou de ser menina.
Eles foram apresentados. E voltarão.
Rio de Janeiro, janeiro de 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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Já estou ansiosa pela volta das improváveis.