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O Novo Tabuleiro da Música Digital: Editoras Musicais Faturam US$ 7,3 Bilhões nos Estados Unidos

Atualizado: 11 de jun.

O mercado global de música digital registrou dois movimentos emblemáticos que alteram profundamente a governança dos direitos autorais, o repasse de receitas e a transparência nas plataformas de streaming.


Em Nova York, a National Music Publishers' Association (NMPA) revelou que o faturamento de edição musical nos Estados Unidos atingiu a marca histórica de US$ 7,3 bilhões em 2025. O anúncio veio acompanhado de acordos inéditos de licenciamento com as empresas de inteligência artificial generativa Udio e KLAY.


Deezer Abre Guerra contra Fraudes de IA no Streaming


Quase simultaneamente, na Europa, a Deezer disparou um contra-ataque tecnológico ao lançar uma ferramenta pública capaz de escanear playlists de serviços concorrentes para detectar faixas geradas por IA. Os desdobramentos desses fatos expõem a nova engenharia econômica do setor: a transição do combate jurídico para a regulação comercial na IA e a reação política contra a perda de margem no streaming tradicional.


O Paradoxo de 2025: Recorde de Faturamento e a Guerra dos "Bundles"

O avanço nas receitas de edição musical consolida uma década de crescimento ininterrupto no mercado norte-americano. Pelo quarto ano consecutivo, o setor editorial expandiu em ritmo mais veloz do que o mercado de música gravada (fonogramas). Desse montante, os direitos de execução pública responderam por mais da metade do bolo, seguidos por sincronização e direitos mecânicos.


No entanto, este desempenho recorde ocorreu na esteira de um forte embate financeiro em torno dos chamados bundles (pacotes de serviços integrados). Grandes corporações, como Spotify e Amazon, reclassificaram suas assinaturas premium para incluir audiolivros ou outros benefícios digitais no mesmo plano de pagamento.


Pela legislação de direitos autorais dos Estados Unidos, os serviços que oferecem pacotes mistos ganham o direito de reduzir a base de cálculo dos royalties devidos à música, sob o argumento de que uma parcela do valor pago pelo assinante financia o outro produto acoplado. Esta manobra contábil reduziu o repasse de royalties mecânicos a compositores em cerca de 30%, gerando perdas estimadas pela NMPA em quase US$ 500 milhões.


O Mercado Oculto de Trilhas: Audiobooks e Podcasts no Ecossistema

A consolidação de audiobooks e podcasts dentro desses pacotes de assinatura acendeu outro debate econômico: a remuneração das músicas de fundo, vinhetas e efeitos sonoros que compõem essas produções faladas. Diferente das músicas comerciais distribuídas no streaming, essas faixas não recebem royalties por reprodução pessoal (play). A imensa maioria desse nicho adota dois modelos de mercado específicos:


  • Contratos de Buyout (Livrarias de Produção): Produtoras e editoras de livros compram os direitos definitivos de bibliotecas musicais por meio de uma taxa única de licença (flat fee). O compositor original abre mão de direitos residuais futuros, permitindo o uso perpétuo do áudio sem contagem de cliques.

  • Invasão das Trilhas Sintéticas: Para eliminar custos de licenciamento, o mercado de audiobooks tornou-se um dos maiores consumidores de trilhas geradas inteiramente por inteligência artificial. Como as legislações globais vigentes não reconhecem direitos autorais para criações feitas exclusivamente por máquinas, as editoras utilizam algoritmos para gerar fundos musicais customizados em segundos, neutralizando os intermediários humanos.


A Virada de Chave no Licenciamento e a Exceção da Suno

Para conter o avanço desenfreado do treinamento não autorizado de algoritmos sobre catálogos protegidos, a NMPA mudou de estratégia, trocando os processos judiciais pela imposição de um novo modelo comercial de licenciamento prévio. No entanto, o setor avançou em duas frentes distintas: a da conciliação e a do litígio.


  • Udio: A plataforma de IA generativa, que antes enfrentava litígios bilionários movidos pela indústria fonográfica, fechou um acordo de licenciamento com as editoras associadas à NMPA. O modelo adota uma paridade histórica: as composições (obras) passam a ter o mesmo peso financeiro que as gravações (fonogramas) no treinamento dos modelos de linguagem musical, estabelecendo uma divisão de receitas em base 50/50.


  • KLAY: Posicionando-se na contramão da prática comum do Vale do Silício de "pedir perdão em vez de permissão", a startup de tecnologia firmou contratos com as principais editoras e as três grandes majors mundiais (Sony, Universal e Warner) antes mesmo de estrear sua plataforma no mercado, operando exclusivamente com dados autorizados.


  • O Caso Suno (Em Litígio): Enquanto a Udio buscou o acordo, a Suno permanece como a principal resistência jurídica do setor de tecnologia. Processada pelas grandes gravadoras e editoras em um tribunal federal de Boston por uso massivo e não autorizado de gravações protegidas, a empresa adotou uma postura combativa.

    A defesa da Suno admite abertamente que treinou seus modelos com dados publicamente disponíveis na internet — o que inclui grandes catálogos comerciais —, mas argumenta que o processo de cópia digital para aprendizado de máquina constitui uso aceitável (fair use) sob a lei dos EUA. A disputa judicial segue em fase de produção de provas e debates técnicos sobre a originalidade dos outputs, servindo como o principal termômetro jurídico para definir se a apropriação de dados para treinamento sem licença prévia será considerada pirataria industrial ou evolução tecnológica.


A Auditoria das Playlists e o Combate ao Lixo Eletrônico

Se nos bastidores institucionais a inteligência artificial começa a ser integrada ao modelo de licenciamento, na ponta do consumo o streaming tenta frear a saturação do ecossistema. A Deezer revelou que cerca de 75 mil faixas puramente sintéticas são injetadas diariamente nos servidores globais, correspondendo a quase metade dos lançamentos diários na rede.


O problema crítico é financeiro: estimativas de mercado apontam que até 85% do tráfego voltado a essas faixas envolve manipulação de algoritmos e fazendas de cliques organizadas para desviar os royalties que deveriam remunerar músicos reais.


Como resposta de posicionamento de marca e defesa de mercado, a Deezer lançou um detector online gratuito que permite aos usuários de plataformas concorrentes — como Spotify e Apple Music — escanear suas contas e identificar faixas criadas por robôs em suas bibliotecas. No ecossistema próprio, a plataforma francesa remove esses conteúdos puramente sintéticos das listas de recomendação e seleções editoriais, protegendo o fundo de royalties da diluição provocada por robôs.


O Papel da Certificação no Novo Cenário

Essa reconfiguração sistêmica demonstra que o mercado musical futuro exigirá precisão cirúrgica na governança e na identificação de direitos. Nesse contexto, o ecossistema tecnológico CertCon (composto pelas camadas Certifica Som e Conecta Som) atua diretamente na blindagem e estruturação de metadados de obras independentes, garantindo que a autoria humana esteja perfeitamente catalogada e pronta para os novos modelos de negócios de licenciamento ético e divisão paritária de royalties de IA.


A médio prazo, a proliferação da música sintética tende a valorizar catálogos que possuam rastreabilidade total de sua origem. À medida que o mercado pune a opacidade dos algoritmos e adota filtros rigorosos de identificação, a clareza documental dos metadados deixa de ser uma burocracia técnica e assume o papel de principal ativo de proteção econômica dos criadores.

Escute Canção da Presença de Sempre, de Mario Lago, com Chamom. Repertório ®CertCon


 

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