“O Testemunho”. Quando a ficção circula pelos corredores sombrios de uma realidade
- Lais Amaral Jr.

- 15 de abr.
- 6 min de leitura

Berlim, janeiro de 1898. Sob a aparência de ordem e progresso científico, o Império Alemão abriga tensões profundas, fanatismo latente e uma elite disposta a ultrapassar qualquer limite ético em nome do poder. É nesse cenário - cuja semelhança com algo conhecido nos assusta -, que se desenvolve O Testemunho, romance do professor e historiador formado pela PUC-SP, Santiago Delgado. Uma análise das raízes ideológicas e sociais que antecederam uma das maiores tragédias do século XX.
Narrada em tom confessional, a obra acompanha Wilhelm von Richthofen, um jovem às vésperas de sua formatura em um colégio militar. Com um futuro aparentemente traçado para honrar o pai, um coronel do exército, Wilhelm vê sua trajetória desmoronar ao se envolver em uma intriga escolar contra o rival Alois Schneider, herdeiro de uma família influente. O que começa como um ato impensado o conduz a uma rede de segredos que ultrapassa disputas juvenis e alcança os porões mais sombrios do Estado.
Ao lado de Helga Schneider, irmã gêmea do rival, Wilhelm descobre arquivos sigilosos e indícios de um projeto eugênico clandestino conduzido por membros da alta sociedade. A revelação mais devastadora envolve uma pessoa da sua própria família, ligada a experimentos secretos com judeus e grupos marginalizados, praticados sob o discurso da supremacia.
Em meio ao terror, ambientado mais de três décadas antes da ascensão de Hitler, a aliança entre Wilhelm e Helga se transforma em um vínculo amoroso intenso. Juntos, eles passam a reunir provas para denunciar o esquema, enfrentando perseguições, traições familiares e dilemas morais que colocam em xeque lealdade, identidade e sobrevivência. A história evidencia como elementos ideológicos do nazismo já estavam presentes no tecido social da Alemanha, ainda que não levados, naquele momento, às últimas consequências.
O Testemunho é, acima de tudo, uma narrativa sobre escolhas extremas: até onde ir pela verdade? O que vale mais: a pátria, a família ou a consciência? Assim, Santiago Delgado propõe uma reflexão incômoda ao leitor contemporâneo e questiona como decisões do passado continuam a reverberar na construção do futuro.
Ficha Técnica
Título do livro: O Testemunho
Autor: Santiago Delgado
Editora: Viseu
ISBN/ASIN: 978-6525455334
Páginas: 208
Onde comprar: Amazon
Instagram: @sdelgado_2000

CRIATIVOS - Santiago Delgado, o escritor já existia antes de ‘O Testemunho’?
SANTIAGO DELGADO - Acredito que o escritor sempre esteve dentro de mim, bastava um empurrão inicial para começar a escrever histórias. A verdade, é que sempre gostei de escrever. Seja diário, produção literária ou até mesmo livros – ramo este que descobri de 2022 até os dias de hoje. Porém, é importante deixar claro que foi tudo uma construção (que ainda está em andamento) da minha forma de escrita. Sendo bastante sincero, outra coisa que fomentou a minha descoberta enquanto escritor, foram as oficinas de produção de texto no meu colégio. Eu apenas peguei algo que já existia e comecei a aprimorar.
CRIATIVOS - Você pode dizer que teve algum, ou alguns escritores, como referência?
SANTIAGO DELGADO - Diria que a principal referência que utilizei para escrever o meu primeiro livro, foram justamente as histórias em quadrinhos de Frank Miller – Sin City. A atmosfera densa e sombria da Berlim de 1898 foi inspirada não somente pelo termo “A paz em um barril de pólvora” (que é a tensão pré-Primeira Guerra Mundial), como também por estas histórias. Outras referências, incluem: “O médico e o monstro” (na parte da ciência enquanto arma), “O diário de Anne Frank” (que por mais que seja uma história real, me inspirou na parte de questões relacionadas ao antissemitismo abordado), também nas minhas leituras de Arthur Conan Doyle e mesmo Agatha Christie, em alguma medida.
CRIATIVOS - Qual foi a grande motivação para escrever e publicar esse seu primeiro romance?
SANTIAGO DELGADO - A princípio, escrevi uma história como forma de desabafo pessoal. Queria escrever algo durante a Pandemia para colocar para fora as minhas angústias acerca do mundo, mas fui aos poucos aprimorando o texto, cujo resultado é este. Estou satisfeito com o resultado? Posso dizer que sim, apesar de reconhecer que o livro poderia ser melhor em alguns aspectos. Mas a motivação para publicar a história, veio do meu melhor amigo (um abraço, Theo) que disse: “Essa história que você escreveu deveria ser publicada”.
Confesso que fiquei com muito medo de publicar e ainda tenho dificuldades para elaboração do marketing (que vou planejar com calma no próximo livro), mas posso dizer que venho me esforçando para destravar estas outras etapas.
CRIATIVOS - O que você está lendo atualmente, por prazer, não por estudo ou trabalho?
SANTIAGO DELGADO - Atualmente, estou lendo alguns livros em paralelo e vou atrás de um em específico para produzir O Testemunho – Parte II. Minhas atuais leituras consistem em: “A Primeira Guerra Mundial”, de Margareth Mcmillan, o livro de Eclesiastes (para um futuro projeto e para aconselhamento espiritual também), “Darth Plagueis”, de James Luceno (da coleção Star Wars legends) e um livro que conta a História da Igreja Católica através dos Papas (de São Pedro até Leão XIV). O livro que vou atrás para a Parte II do meu primeiro livro, “Nada de Novo no Front”, muitos conhecem pelo filme, mas quero ler para ter mais detalhes e poder me inspirar de alguma forma na escrita.
CRIATIVOS - Você tem um método definido para escrever um texto longo?
SANTIAGO DELGADO - Não tenho um método definido. Para dizer a verdade, eu crio personagens, procuro aprofundar as características deles com base em diversos tipos de personalidades que já tive contato ou que são analisados pela psicanálise contemporânea e desenvolvo histórias de forma bastante natural. Por incrível que pareça, não utilizo nenhum método além de criatividade e, algumas vezes, inspiração em eventos que já me aconteceram ou que eu já vi acontecerem diante de mim ou muito próximo a mim. E, sinceramente, fiquei impressionado com a habilidade que tenho. Em tempos futuros, posso e vou tentar desenvolver isso ainda mais.
CRIATIVOS - Como historiador, você identifica na sociedade contemporânea, semelhanças com o embrião que deu no 3º Reich? Tudo se repete?
SANTIAGO DELGADO - Existem claras semelhanças daqueles tempos com o que se vive hoje. Não vou me alongar muito, mas a estrutura da retórica nazista, é: Nostalgia por um determinado ponto do passado, corporativismo e ultranacionalismo. O que temos aqui no Brasil? Nostalgia pelo regime militar de 1964, justificativa sistemática das desigualdades sociais (que é corporativismo puro) e uma exaltação bem abstrata do Brasil, enquanto as riquezas do país são entregues para o exterior (como foi o caso da Petrobrás). Neste sentido, sim, tudo se repete com outra roupagem. E veja, não estou chamando todo mundo que votou no Bolsonaro de nazista. Mas, convenhamos: todo neonazista vota no Bolsonaro. Cabe a nós, enquanto professores de História e historiadores, dialogar com os que não podem se informar direito (que são muitos) e dizer de forma pedagógica: olha, não é bem assim que funciona. Esse caminho, no longo prazo vai trazer A, B, C e D de consequência por motivos E, F, G, H. Penso que esta deve ser a abordagem, que evidentemente, varia de meio para meio, mas deve ser feita.
CRIATIVOS - Você acredita que a arte, no seu caso específico a literatura, é importante para ajudar na tomada de consciência de uma geração? Cabe também à expressão artística ajudar a descortinar o mundo real para as pessoas?
SANTIAGO DELGADO - Acredito que sim. Arte é inicialmente uma expressão cultural de um determinado grupo (ou de uma nação inteira). E convenhamos: o Brasil vem se destacando muito no meio artístico internacional ultimamente com “O agente secreto” e o filme “Ainda estou aqui”. A arte é uma forma de conscientizar as pessoas do que acontece no país e no mundo também. Muitas vezes, um filme, um livro, um quadro, uma música etc., fazem as pessoas refletirem acerca do meio que elas vivem. E, acima de tudo, a arte faz com que possamos refletir acerca do passado também. É o caso do ‘’Ainda estou aqui’’. Esse filme, em específico, faz a gente pensar nos problemas da Ditadura e até mesmo pesquisar e refletir sobre. Trazem questionamentos como: O que o regime queria esconder? Por que tantas pessoas lutaram contra ele? Qual era a natureza do período de 1964 – 85? E se pesquisarmos mais à fundo, veremos que o Exército até hoje não deixa abrir diversos arquivos de 1968 – 1974 (os anos de chumbo). Ora, se o governo militar era honesto, então por que o Exército não deixa os arquivos para pesquisa? Penso que são estas questões que devemos ter em mente quando se fala de arte relacionada com assuntos históricos.
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