O tripudiar da Inocência em Santa Catarina
- Eleonora Duvivier

- há 5 dias
- 6 min de leitura

Há imbecis que tentam minimizar o assassinato de Orelha- o cachorro comunitário que vivia em umas das praias de Florianópolis- ao verem os protestos de tantos países online, e um deles disse: “Toda essa onda só por um cachorro velho e sem dono? Só pode ser coisa de petista!”
Esses indivíduos revelam os seus valores podres logo nessa pergunta. Por isso, respondi a um deles:
“Vê-se que você só acredita na posse, na matéria, e no dinheiro. Valores morais, que são abstratos e invisíveis, não te significam nada. Quero ver se quando ficar velho e sem dono, vai pensar assim. Já que está culpando o PT vá então chorar na cadeia com o Bolsonaro.”
Pra começar, um cachorro não e só um cachorro. Há uma gama infinita de beleza e bondade que vive nele: Disponibilidade absoluta, Confiança, Inocência imaculada, Amor incondicional, Ingenuidade, Amizade infinita, Pureza, Alegria, Inteligência, Devoção, precisa de mais? Ainda por cima um cachorro comunitário, amigo de todos e acreditando em todos.
O assassinato, tortura, sadismo e zombaria desse cachorro tem mil ramificações. Pois a pusilanimidade da tortura feita no animal não foi resultado de nenhuma causa de assassinato que geralmente são comuns entre pobres esfomeados, desfavorecidos, ou pessoas doentiamente apaixonadas. Não foi crime ou agressão nem por necessidade, nem por impulso.
Ao contrário, a origem daquele horror foi diabólica porque se originou no deboche pelas qualidades mais puras e sagradas. Deboche e sadismo. E superficialidade de querer ser show online. Na Record, plataforma americana a que 500 desgraçados assistiram aquela baixeza ao vivo. Mediocridade é foda. De mãos dadas com a maldade vira sacrilégio.
Com o devido respeito, Marcel Proust, eu nunca concordei com a tua diferenciação entre sadismo e maldade. Você viu o mal como indiferença ao sofrimento alheio, e o sadismo como espécie de arte do mal. Querido, isso é jogo de palavras, no mínimo nascido da tua vergonha culpada em relação `a tua mãe. Permite-me dizer que indiferença é falta de sensibilidade. Se nasce com essa falta. Sadismo, por outro lado, é escolha. Por isso, não se culpa um burro por lhe faltar inteligência, mas se culpa um inteligente por não optar por agir com inteligência.
A traição da boa fé e da alegria ingênua daquele cachorrinho foi o envenenamento da Inocência, o escarrar na pureza, o escarnio do Coração, e o deboche ao sagrado. As maldades que lhe fizeram foram sentidas por Deus. Hoje, acredito que como disse Miguel de Unamuno, Deus sofre com a gente. Se não, não seria o “Deus Vivo”. O filosofo espanhol afirma que tudo que é vivo sofre, e o amor é compaixão.
Voltando a Proust, a indiferença ao sofrimento é o que somos forçados a sentir todo dia pra poder sobreviver -não que isso seja justificação- ao pensar nas vacas que são sacrificadas pra ir pro nosso bucho, ou até mesmo nas vitimas das guerras de lugares distantes. Lamenta-se um pouco e nossa dia a dia continua, ao invés de dar origem a uma total greve mundial.
O mal é banalizado ao virar noticiários que mudam a toda hora, somem do computador ou, quando em jornais, são jogados fora. Desse modo, podemos tocar o nosso dia. Indiferença ao sofrimento é a carapaça da sobrevivência. Mas gozar no mal, isso sim é a repugnância do diabo.
Não há o que explique. Cito então, a coragem de Bruna Lombardi ao dizer que ALMA NÃO MUDA. Isto é, mal ou bem estão na índole atemporal de cada um, na alma. No que não muda porque não é sujeito `as circunstâncias; no que não tem desculpa.
Tendo sido mal-educados e protegidos pelos pais ricos e calhordas não explica e nem justifica os horrores praticados por seus filhos adolescentes assassinos, que até empalaram o pobre cachorro, enfiando-lhe uma vara no cu pra sair por sua boca. Detalhe macabro: Isso tudo combinado para ser exibido na tal plataforma americana.
O Orelha teve fé na humanidade e confiou nela incondicionalmente. Foi, por isso, vítima do dinheiro. Do vil metal que enche os bolsos dos pais sem vergonha dos assassinos, do seu tio pastor, da polícia corrupta de Florianópolis, e sabe lá mais quem. Foram eles que ameaçaram o porteiro com uma arma de fogo, pois o cara já estava cheio de presenciar o vandalismo daqueles crápulas filhos dos sem vergonha. Estava cansado da alma podre daqueles “riquinhos”.
O cachorro mártir, com a sua fé, alegria ingênua, e confiança santa, além de ser ele tão querido, representou tudo que precisamos nesta época louca em que ninguém se entende, todos competem e procuram se destruir. E depois do seu martírio passou a representar todos os inocentes traídos, os corações pisoteados, as vitimas da covardia, e a bondade torturada. Ainda se pergunta se isso é so um cachorro? Ou coisa de petista? Isso, bem ao contrario, toca o fundo do coração humano e mostra a verdade da profanação do divino.
A traição da inocência é a covardia mais sórdida, a maior dor. Vi essa dor nos lindos olhos do meu cachorro, que faz o que quer de mim. Mas no dia em que lhe dei um leve chute pra mudar sua direção e impedir que fosse atropelado ao tentar caçar um automóvel, e ele, que pequenino, sem entender que não podia fazer aquilo, me mandou um olhar de tamanha tristeza por não esperar um chutezinho de mim, sua “mãe” amorosa e permissiva, que eu nunca mais esqueci. Mas eu o salvei, e Deus me perdoe se ele só viu naquilo traição.
Quanto aqueles caras, ao desdenhar o que existe de mais sagrado no cachorro e ainda o massacrar, debocharam de Deus. Viraram anátema. Eles e toda a turma deles, família, tio pastor, amigos, todos. Dizia Hélio Pellegrino que o diabo é burro. E é mesmo. Será que a maldade vem da mais aguda burrice? Do filtro mais entupido entre aqueles imbecis e a vida deles? Por isso talvez, temos o ditado: Quem é burro peça a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.
As reações das pessoas que exigem justiça são variadas. Alguns são mais presos aos limites da psicologia, do que “explica”. Mas NADA explica a maldade, nem a sombra, nem o inconsciente, nem o cacete a quatro, pois nada a relativiza. Por isso, Coronel Slade (Al Pacino) no filme “Perfume de Mulher” diz ao diretor corrupto do colégio de seu afilhado: I’ve been Around, I’ve seen boys younger than these (os estudantes) without legs and arms torn off. But there is nothing worse than the sight of na amputated spirit.” ( Já andei por aí e vi rapazes mais jovens do que estes sem braços ou pernas. Mas não há nada pior do a imagem de um espirito amputado.”
Mas alma não muda, já estava vendida quando se deixa amputar. E se não muda, eu acredito que possa mesmo estar em pecado mortal, coisa em que eu não acreditava antes. Diante daquele massacre filho do deboche da inocência e do prazer sexual no mal, vejo mesmo que acredito.
Querem me achar careta? Achem, e foda-se. Mas perguntem ao presidente Obama o que
significa ser homem se não a capacidade de dar a mão a quem não pode se aguentar, defender quem não pode se defender, e reclamar por quem não pode falar.
Ouvi aqui que Trump revogou os visas americanos daquela escória de criminosos e seus pais. Tenho medo de acreditar no que pode ser too good to be true. Se Trump fez isso, um ponto pra ele. Pois aquela corja já morreu e não sabe: a vida pra eles, e a deles próprios, não é mais do que a putrefação do seu respirar, existir e agir.
Escarraram na Ingenuidade, atraiçoaram a Fé, e profanaram a pureza, os filhos da puta: os burros que nem sabiam estar sendo enrabados pelo Diabo enquanto faziam aquilo. Nasceram de alma vendida; pisoteando o coração e escarnecendo o divino. Dante saberia colocá-los no ápice do fogo Eterno, e com todos os detalhes.
Podres ambulantes! Mortos vivos, que ainda andam por aí se escondendo sob a proteção corrupta dos pais. Pensam que os pais gostam deles, que idiotas. Gente dessa laia não gosta de ninguém, só da imagem que dão, daquilo que os filhos representam de mais repugnante na degeneração de uma sociedade corrupta, a qual, esses pais imbecis, também enrabados pelo diabo, veem como vitória.
Quando assisti o vídeo do cara furioso, contando a respeito do empalamento do Orelha, chorando e xingando sem limites, me reconheci nele. Assim estou eu: Xingo durante o dia, louvo Deus durante `a tarde, e choro pela noite.
Com o nojo, perdi o medo de o mundo se acabar. Com a dor, me desapeguei dele. E com o desprezo, posso refugá-lo. Mas tudo tem um lado bom, porque Deus é grande. Meu desapego ao mundo me trouxe absoluta certeza do divino. E agora, falo com ele:
Pai Eterno, eu sinto muito. Muito mesmo. Que tua glória seja refeita.
Jesus, autoridade da delicadeza, choro pelo Orelha. Da um beijo nele por mim. Choro por você também, pela tua amada bondade ter de lidar com tudo isso, e pela minha própria vergonha da raça humana.
São Francisco, recebe o teu irmãozinho! Brinca com ele na praia do céu!
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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