Por Quem Eu Voto!

Ronaldo Mota
Para quem eu voto importa pouco. A esta altura da vida, isso quase não faz diferença para mim. Poderia, inclusive, aproveitar a isenção que a lei me dá e nem comparecer às urnas. Mesmo assim, voto. Não tanto por mim. Minha vida é tranquila, a maior parte das questões já está resolvida. Financeiramente, nunca serei rico, nem é isso que busco, e é pouco provável que um dia eu passe por dificuldades. Tenho uma filha única, que mora fora do país há mais de dez anos e que recusa qualquer ajuda em dinheiro, embora aceite todo o resto.
Por isso, no dia 4 de outubro, um domingo, vou me levantar cedo para votar. Voto pensando muito mais naqueles tantos meninos pobres, todos parecidos entre si, sem camisa, andando em grupos, quase sempre, mas nem sempre, brincalhões. Os futuros deles, muito provavelmente, não reservam as oportunidades que eu tive. Eles ainda não têm idade para votar, mas sei que, sem uma escola pública básica de qualidade, resta a eles o subemprego ou a marginalidade. Sem educação, definitivamente, não há futuro promissor. Tendo educação básica de qualidade, o resto, definitivamente, se resolve. Voto, principalmente, por eles, para que tenham acesso ao que merecem apenas pela graça de terem nascido brasileiros.
Voto também pela minha mãe, ainda viva aos 97 anos, ainda que ela não vá votar, vivendo bem em uma clínica de repouso em São Carlos, no interior de São Paulo. Mesmo bem, ela às vezes amanhece triste com o que acontece no Líbano, terra de seus parentes, sobre os quais nem sabe se ainda estão vivos. Voto para que todos os idosos tenham as mesmas garantias que ela, merecidamente e por esforço próprio, hoje desfruta. Voto também pelos meus tataravós mineiros, do lado paterno, descendentes diretos do Barão de Cocais e de Tiradentes, que simbolizam a premonição de um projeto de país soberano, um país que decide seu próprio destino e não é colônia de ninguém.
Voto pelos pescadores de Cacha-Pregos, na Bahia, que emprestavam suas casas nos fins de semana para que pudéssemos aproveitar aquele paraíso. Voto pela Lia de Itamaracá, em Pernambuco, ainda viva e ativa, que tentou me ensinar a dançar ciranda, embora minha falta de ritmo continue sendo um problema. Voto pelo amigo pantaneiro que me ensinou, no Pantanal mais profundo, a viver em paz com a natureza e a não temer os jacarés. Ele me dizia que perigosos são os homens.
Voto igualmente pelos meus amigos mais abastados em recursos, para que possam, honestamente, viver a vida que quiserem, onde quiserem, sem precisar dar satisfações a ninguém. É justo, considerando que eles pagam seus impostos em dia e têm consciência de que vivemos em um dos países mais desiguais do planeta. Pode até haver outras nações tão desiguais quanto o Brasil, mas nenhuma delas tem as riquezas e as possibilidades que o nosso país tem. E é isso que torna essa desigualdade ainda mais injustificável.
Por tudo isso, fica claro que o que menos importa é em quem eu voto, ou em quem cada um, legitimamente, vota. O mais importante, acho, é entender por que, e por quem, afinal, todos nós votamos.
E qualquer que seja a decisão de cada um, ela dispensa explicações e é tão justificável quanto qualquer outra. As minhas razões não são melhores do que as de ninguém. Isso também faz parte da essência da democracia.
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