Quando se vai morar no campo...

... com certeza uma coisa já se desenrolou em sua vida: a iniquidade dos grandes centros urbanos. A lei do mais forte sempre prevalece. E quando me refiro ao mais forte, quero entender que a obviedade me acompanha neste raciocínio: é a aceleração dos motores que se tornam mais e mais enervantes além de poluir um ar já tão contaminado; a grosseria geral contundente que antecede o desentendimento entre as pessoas; a desavergonhada furada de fila com o silêncio acovardado dos presentes; a falta de educação disseminada no contato entre os menos pacientes; o avanço descarado do sinal quase atropelando pedestres desprevenidos; as investidas de cães sem focinheira com anuência vacilante dos seus tutores; a ausência de nenhum respeito por aqueles que já estão na (mal)dita “melhor idade”; as fechadas no trânsito, tentando abreviar em dez segundos a chegada ao destino; a saída de casa municiado de cuidados e precauções contra assaltos; as ruas amanhecendo sem que as pessoas se cruzem com um simples bom-dia; carregar qualquer sacola num aperto férreo se resguardando de um puxão delinquente; ônibus lotados com gente espremida e sacudida; trânsito congestionado, engarrafado, truncado com buzinas explodindo movidas pela impaciência já que tudo fica parado como se todos ali estivessem felizes com a imobilidade; a impossibilidade de usar seu celular em pleno espaço público; guardas de trânsito nas esquinas já pertencem aos livros de história...
Em resumo, a falta de civilidade geral numa cidade é inaceitável porém constante.
E a cada dia uma nova surpresa. Agora são as bicicletas motorizadas, sem placa e condutores sem capacetes e ainda por cima em cima das calçadas! Ou patinetes que desviam de transeuntes como num jogo de videogame. Uma briga de trânsito tem grandes possibilidades de acabar com uma arma de fogo. O melhor é engolir em seco e deixar passar. Motos na contra-mão ...”ah, é só um quarteirão”...
Sair de casa numa cidade grande é uma aventura. Nem sempre uma aventura prazerosa. Não temos o controle do que pode vir a acontecer, o cenário pode ser de frustração. Nossos limites estão sempre sendo testados. Não se pode vacilar. O risco é imprevisível.
Mas claro que há certo exagero nisto tudo, apesar de ser a realidade escancarada.
Chega um dia entretanto, após anos de enfrentamento, que tomamos a decisão de ir para local mais sossegado e imperturbado pelas adversidades e contratempos das cidades cinzas. Sim, existe uma saída!
Depois de carreira estabelecida chega a hora de entender que respirar gases poluentes não tem sentido. Ingerir produto que passa por uma fábrica para ser processado e industrializado como alimento é irracional. Um despautério ficar sem escutar o silêncio. Uma aberração estar sempre estressado ou correndo atrás de não se atrasar ou de sair antes da hora do rush para desfrutar algum tempinho de laser.
O campo traz este conforto que possibilita uma vida mais verdadeira e sobretudo satisfatória. O encontro com a natureza traz um retorno a uma vivência que, mesmo sem nunca antes tê-la experimentado, está impregnada em nosso arquétipo.
No nosso imaginário temos padrões que servem como referência, ou tendo vindo de histórias familiares, de filmes/novelas da TV, livros, ou qualquer outra memória que repousa em nosso inconsciente como experiência vivida na infância numas férias inesquecíveis.
O dia leva cada minuto das 24 horas. O amanhecer começa no canto dos pássaros e com o sol oblíquo raspando a noite que se esvai. O relógio na parede com seu tic-tac até perde sentido. Havendo oportunidade, o leite matinal vem da vaca e não da caixinha. Não tenho curral mas tenho vizinho que tem e me fornece toda a semana alguns litros. Verduras e legumes da horta sem agrotóxicos. Frutas do pomar e água pura de mina.
Buzinas? Freadas? Ronco dos motores? Só o da roçadeira que vez por outra tem que aplainar o gramado. O silêncio esquecido nos inunda com sua quietude e serenidade. Sair à rua – se a cidade escolhidas for pequena – é um exercício de civilidade. Sorrisos, bom-dia pra cá, bom-dia pra lá. Chegando na venda encontra o queijo de minas frescal que acabou de chegar. Cafezinho no balcão acompanhado deuma broa e um papo sobre o frio da noite anterior. Crianças correm na rua sem pânicodas mães. Bicicletas estacionadas como se automóveis fossem e lá ficam sem a cobiça de algum espertalhão. Paz, muita paz.
Evidentemente que se exagerei no turbilhão enervante da cidade grande, também compenso agora com a placidez da vida no campo. Nem tudo é exatamente assim, mas pode ter certeza que seu espírito fica mais leve. Sua saúde lhe trará uma vida mais longeva. Noites são plenas, dormidas com sono reparador. A harmonia prevalece e o sorriso fica íntimo de seus lábios.
Luiz Inglês
Setembro 2026
Estou ouvindo a playlist Natureza e meio ambiente.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.
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