Quando um País Acorda
- David Gertner

- 13 de fev.
- 3 min de leitura

Imagine um país que acorda de um sono profundo.
Não é um despertar brusco, desses provocados por sirenes ou sustos. É um abrir de olhos lento, como quem passa a mão no rosto e, pela primeira vez em muito tempo, percebe que estava dormindo demais.
No início, há estranhamento. A luz incomoda. O silêncio pesa. O país tenta lembrar em que momento adormeceu — se foi por cansaço, por medo, por acomodação ou por acreditar que alguém cuidaria do amanhã em seu lugar. Talvez tenha sido tudo isso junto.
Ao acordar, ele percebe que o tempo passou. Promessas envelheceram. Palavras perderam sentido. Verdades foram trocadas por slogans repetidos até soarem naturais. O país nota que se acostumou a pouco, que aprendeu a rir do que deveria indignar e a chamar de normal o que nunca foi.
Mas o despertar traz algo raro: lucidez.
Aos poucos, as pessoas começam a se olhar de novo. Não como inimigos permanentes, não como caricaturas morais, mas como vizinhos cansados da mesma noite longa. O debate deixa de ser grito. A discordância reaprende a ser diálogo. O desacordo não vira mais sentença de exclusão.
Nesse país que acorda, ideias voltam a valer mais do que rótulos. A competência começa a pesar mais do que a retórica. O futuro deixa de ser uma ameaça abstrata e passa a ser uma responsabilidade compartilhada. Não há milagres — apenas trabalho, escuta, escolhas difíceis e um certo desconforto necessário.
A educação deixa de ser promessa e vira prioridade real. A ciência não precisa gritar para ser ouvida. A cultura volta a ser espaço de reflexão, não de guerra. O país entende que crescer não é apenas produzir mais, mas incluir melhor; não é apenas acumular, mas distribuir com justiça; não é apenas vencer, mas não deixar tantos para trás.
Há erros, claro. Um país acordado não se torna perfeito. Mas ele aprende algo essencial: errar não exige mentir depois. Corrigir não é sinal de fraqueza. Mudar de ideia não é traição — é maturidade.
Nesse país desperto, a memória deixa de ser seletiva. O passado é encarado sem mitos convenientes nem amnésias estratégicas. Não para culpar eternamente, mas para não repetir. O futuro, por sua vez, deixa de ser um discurso vazio e passa a ser um projeto.
Talvez o mais bonito seja isto: o país acordado redescobre o valor do cuidado. Cuidar das pessoas, das instituições, da linguagem, do espaço público. Cuidar do que é comum — porque finalmente entende que o que é de todos também é seu.
Imaginar um país assim não é ingenuidade. É um exercício de lucidez criativa. Toda transformação começa quando alguém ousa imaginar que o sono não é destino, que a noite não é permanente, que despertar é possível.
E talvez — só talvez — esse país não esteja tão distante quanto parece. Talvez ele já esteja abrindo os olhos. Talvez esteja apenas esperando que mais gente acorde junto.
David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Seu livro mais recente, IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, explora o diálogo entre humanos e inteligência artificial como espelho ético, criativo e existencial. Publicado pela Amazon.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
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