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A arte de viver sem pressa: as lições de um psicanalista e de um homem da roça sobre o fim


 

 

​​Reencontrei um grande amigo, psicanalista, num almoço em casa de uma outra amiga. Ele está indo para seus 93 anos de vida. E por coincidência eu havia recebido por e-mail um convite para comemorar  mais uma passagem de seus anos, que, com muita ironia, diz ...“continuo insistindo em fazer aniversários”.


​​Atende pacientes até hoje, continua lúcido e atento a tudo o que acontece ao seu redor, ao nosso redor e ao redor do planeta. Outro dia fui a um lançamento de mais um livro. O homem não para.

​​Neste almoço conversamos muito. Com um cálice de vinho tinto na mão, papo vai, papo vem, acabamos falando sobre a morte. E ele me trouxe uma interpretação sui generis, já que foi deveras peculiar vindo de um nonagenário. 


Me disse ele que o conceito geral é que vivamos como se fôssemos morrer amanhã. E por esta razão devemos procurar fazer tudo aquilo que gostaríamos de ter feito em nossas vidas. Com uma morte anunciada para o dia seguinte, a atenção desta metáfora seria não desperdiçar o pouco tempo que hipoteticamente nos resta, sobretudo se formos mais velhos.


​​Este amigo, no alto de seu quase um século de existência, trouxe uma nova  reflexão que me fez pensar bastante. Na verdade, me disse ele, devemos viver como se morte não houvesse. Pensar no futuro, no amanhã, como mais um dia para a realização de sonhos, de conquistas almejadas e de encontros com resultados tão ansiados. Nenhuma pressão, nenhum medo, apenas foco.


​​Ao mesmo tempo, ao voltar para a roça onde moro, onde o tempo tem outro tempo, lembrei-me de conversas mis que tive com Seu Caetano, hoje já falecido, mas que tinha então, também, noventa e tantos anos. Seu Caetano morava lá na propriedade. Era analfabeto e nunca viu o mar. Viveu até os oitenta numa casa de taipa, sem luz e sem banheiro. Quando comprei minha propriedade ele já estava por lá e por lá ficou, já que não o quis fora. Contratei-o, então. Construí para ele uma pequena casa de alvenaria com banheiro com água quente e com energia elétrica. Como eu trabalhava em SP, Caetano ficou cuidando da terra.


​​O curioso é que sem conhecer nada, sem ter cultura – a não ser a adquirida na própria natureza – sem nunca ter lido um jornal, nem ter visto televisão (não havia TV em sua casa e ele não queria pois não sabia mexer nos controles), apenas um radinho era seu companheiro, mas ele tinha um sentido interno de ética e de compreensão da alma humana como ninguém.


​​O conhecimento da essência e do âmago da natureza lhe trouxe uma perspicácia e uma sensibilidade incomum. Sentia no ar, quando o céu ainda estava azul de anil e sem nuvens, que uma tempestade estava a caminho. “O cheiro do vento” me dizia ele. Olhava a mata ao longe e me mostrava uma árvore no meio de centenas de outras, que eu não distinguia e me informava que o angelim estava no ponto para se colher um ramo para que ele confeccionasse um bom bastão.


E lá ia ele, cedo de manhã, dentro da mata para à tarde voltar com um belo pedaço de pau na mão, para um belo cabo de enxada. Via a vida numa continuidade como se não houvesse final. Fazia planos, dormia cedo para acordar com a primeira luz do sol e começar sua labuta diária.


Sua rotina era sempre estar fazendo algo que lhe desse continuidade numa ação programada. A roçada era para plantio. O plantio era para a colheita. A colheita era para alimentar.  Não sabia da morte e não ligava para ela. Apenas vivia.


​​Sem dúvida esta é a razão pela qual Seu Caetano me veio à mente depois de minha conversa com meu amigo psicanalista. Um, extremamente culto, filósofo, profundo conhecedor da alma humana. Adquiriu seu conhecimento através de sua sensibilidade e de estudos profundos. O outro, basicamente ignorante, analfabeto, sem conhecimento de cultura estabelecida alguma, mas com a mesma sensibilidade. 


Ambos com idêntica idealização de como tratar a rotina do dia a dia sem viver o espectro do medo da morte. A morte não é empecilho para nada, nem moeda de troca para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa na vida. Ambos por caminhos diferentes dividiram os mesmos conceitos e chegaram lá por aprendizados e vivências heterogêneas.


​​Os dois com a mesma crença na vida e sua continuidade no amanhã.

 

Luiz Inglês

Julho 2026


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