O Mistério de Estar Vivo: As Metáforas da Existência e o Desafio de Definir a Vida
- David Gertner

- há 11 minutos
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Talvez existam tantas maneiras de explicar a vida porque nenhuma delas, sozinha, consegue conter o mistério de estar vivo.
Por David Gertner, Ph.D.
Outro dia me ocorreu uma pergunta que certamente não tem nada de original: afinal, o que é a vida?
Resolvi procurar.
Não demorou muito para descobrir que, se alguém quiser encontrar uma definição para a vida, encontrará incontáveis respostas. Se procurar metáforas, encontrará ainda mais. A vida já foi comparada a uma viagem, uma estrada, um rio, um palco, um sonho, um livro, uma batalha, um jogo, um labirinto. Shakespeare imaginou o mundo como um palco e nós como atores que entram e saem de cena. A conhecida imagem associada a Heráclito fala de um rio no qual não entramos duas vezes, porque tudo passa e se transforma — inclusive nós.
Continuei procurando, talvez na esperança de encontrar a metáfora certa. Foi então que percebi que provavelmente ela não existe.
Se a vida é uma viagem, qual é o destino? E por que nos preocupamos tanto em chegar, quando quase tudo o que importa acontece durante o caminho? Se é um livro, somos autores, personagens ou leitores de uma história cujo final desconhecemos? Se é um palco, quanto do personagem escolhemos representar e quanto nos foi atribuído pelos outros? Se é um rio, o que permanece enquanto tudo passa? E, se é um jogo, por que ninguém nos explicou as regras antes de começarmos a jogar?
Talvez o problema esteja justamente em procurar uma única metáfora. A vida muda demais ao longo da própria vida para permanecer dentro da mesma imagem. Comecei, então, a imaginar outras.
Talvez a vida seja uma casa em permanente construção. Começamos com poucos cômodos e, aos poucos, acrescentamos outros. Abrimos janelas, levantamos paredes, mudamos os móveis de lugar. Algumas pessoas entram e permanecem tanto tempo que acabam fazendo parte da arquitetura. Outras passam rapidamente, mas deixam alguma coisa sobre uma mesa. E há aquelas que partem deixando um quarto vazio que ninguém consegue ocupar da mesma maneira. Com o tempo, descobrimos também que algumas paredes construídas para nos proteger acabaram nos impedindo de ver o lado de fora. Derrubamos algumas, reforçamos outras e seguimos reformando a casa sem jamais ter recebido a planta original.
Mas talvez essa casa seja também um museu sem catálogo. Guardamos nela rostos, vozes, cheiros, lugares, alegrias, constrangimentos e perdas. Algumas lembranças permanecem nas salas principais, iluminadas e frequentemente visitadas. Outras são levadas para depósitos que acreditamos esquecidos, até que uma música toca, uma fotografia aparece numa gaveta ou alguém pronuncia um nome. De repente, uma porta que não sabíamos que ainda existia se abre. Entramos novamente numa sala fechada há décadas e descobrimos que o passado não desapareceu. Estava apenas esperando que alguma coisa girasse a maçaneta.
E talvez, enquanto percorremos esses cômodos, estejamos tentando montar um enorme quebra-cabeça cuja imagem da caixa nos foi escondida. Recebemos as peças sem saber exatamente o que estamos construindo. Tentamos encaixá-las. Algumas parecem pertencer ao lugar errado; outras desaparecem. Há peças que passamos anos tentando colocar onde não cabem, até percebermos que talvez nunca tenham pertencido ali. De vez em quando, conseguimos nos afastar o suficiente para enxergar parte do desenho e compreender por que certas peças precisaram estar onde estão. Outras continuam sem fazer sentido. Talvez continuem assim para sempre.
Há, porém, uma metáfora que me parece ainda mais inquietante: a vida como uma conversa interrompida.
Encontramos pessoas sem saber quanto tempo permanecerão conosco. Conversamos, discordamos, rimos, fazemos planos e adiamos perguntas. Deixamos agradecimentos para depois, pedidos de desculpas para uma ocasião melhor, abraços para a próxima visita. Dizemos “até logo” com uma confiança no futuro que o futuro jamais nos prometeu. E, algumas vezes, descobrimos tarde demais que aquela conversa terminou. Restam frases que gostaríamos de completar, perguntas que não fizemos e palavras que deveríamos ter dito quando ainda havia alguém do outro lado para ouvi-las.
Talvez seja por isso que outra imagem me pareça possível: a vida como tradução. Passamos boa parte da existência tentando traduzir para os outros aquilo que sentimos, pensamos, desejamos e tememos. Mas nenhuma tradução é perfeita. Entre aquilo que somos e aquilo que conseguimos dizer sempre existe alguma coisa que se perde. Talvez amar alguém seja também encontrar uma pessoa disposta a continuar lendo apesar das imperfeições da tradução.
Depois de procurar tantas metáforas, comecei a desconfiar de que todas estavam certas — e todas estavam erradas. Nenhuma consegue explicar a vida inteira porque nenhuma vida permanece a mesma por tempo suficiente para caber numa única imagem.
Há momentos em que somos viajantes e outros em que procuramos a saída de um labirinto. Construímos a casa e depois tentamos compreender os quartos que construímos. Somos atores quando representamos, autores quando escolhemos e personagens quando acontecimentos que não controlamos mudam o rumo da história. Somos rio enquanto mudamos, museu quando recordamos, quebra-cabeça quando tentamos compreender e conversa enquanto ainda há alguém do outro lado.
Comecei procurando uma metáfora que explicasse a vida.
Não encontrei.
Encontrei muitas.
Talvez porque a vida seja grande demais para caber dentro de uma única imagem. Ou talvez porque as metáforas nunca tenham sido inventadas para explicar a vida. Talvez existam apenas para nos oferecer imagens quando as palavras não bastam e para nos ajudar a atravessar aquilo que não conseguimos compreender.
Até que, em algum momento, talvez seja melhor parar de procurar uma metáfora para a vida.
E simplesmente vivê-la.
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com
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