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A Aura da Vida



Referindo-me novamente ao fato de que Proust não seria Proust se tivesse acesso a computadores, e em especial, ao fato de Proust ser fiel á particularidade e sua unicidade, ou seja, a não repetibilidade, no tempo, do momento vivido e não seriável, lembrei-me também de Walter Benjamin.


Benjamin chamou de aura a singularidade irrepetível de uma obra ou experiência: o seu “aqui e agora”, a complexidade de presença que depende de um contexto concreto, de uma distância respeitosa; quase sagrada. Com a reprodutibilidade técnica – fotografia, cinema, impressão em massa – essa aura se dilui. A obra deixa de ser encontro único e torna-se série: imagens multiplicadas, acessíveis em qualquer lugar, indiferentes ao tempo e ao corpo daquele que as vê.


A inteligência artificial radicaliza essa lógica. Não se trata mais apenas de reproduzir obras existentes, mas de recombinar estilos, frases, imagens, vozes extraídas de um imenso arquivo de dados. Ela produz, pela estatística, textos e imagens que não têm origem num corpo singular, mas numa massa de exemplos. O resultado é uma espécie de “autoria distribuída”: nenhuma obra é totalmente de alguém, mas tampouco é de ninguém. Diante de tal resultado, o que chamávamos de autoria “pura” e indivisa, pode passar a soar como ficção romântica. Isso nos remete novamente à afirmação de McLuhan, “O meio é a mensagem”. Pois ao invés de ser um simples canal, a IA, enquanto meio, molda a forma do que é dito e, mais profundamente, o tipo de sujeito capaz de dizê-lo.


Proust escrevia à mão, corrigia em provas tipográficas, tinha um regime de escrita marcado pela lentidão da introspeção extrema, pela solidão, pela companhia obstinada do papel, da tinta, do cansaço da mão e do isolamento de seu quarto. Sua convivência íntima com um meio resistente, que não oferecia atalhos, não só contribuiu para seu mergulho em si mesmo, como para o ritmo subjetivo de um estilo de frases longas com digressão circular, e para sua atenção infinita às nuanças da memória. Por fim e mais fundamentalmente, sua a doença, forçando-o a um eterno confronto com a morte, essa verdade última do destino de todos ao mesmo tempo que “esquecida” por todos no quotidiano, não lhe dava escolha que não fosse uma absoluta autenticidade.


Se, para ele, a unicidade do momento vivido não volta no tempo, não é seriável, ela, enquanto “aura” ou dimensão sagrada, retorna como essência, isto é, como momento atemporal, através da memória involuntária. Esta, ao contrário da memória do intelecto, que é proposital e que, segundo Proust, nada tem do passado, é despertada por sensações fortuitas: O gosto que sentiu da madeleine molhada no chá, o desequilíbrio de seu corpo nas pedras irregulares de uma rua, o som do tilintar de um talher. Tais sensações foram gatilhos que não evocam uma lembrança abstrata, como a que resulta da memoria intelectual e proposital, mas, com sua espessura sensorial, devolvem, de súbito, a presença inteira de um momento vivido, libertando-o da cronologia do tempo e trazendo ao autor a experiencia de eternidade.


Na linguagem de Benjamin, isso corresponderia à aura da experiência reencontrando‑se a si mesma numa dimensão atemporal. Por outro lado, a memoria intelectual seria como a repetição ou copia sem alma do passado, assim como acontece com o passado reproduzido em um álbum de fotografias o qual, em vez de trazer de volta a vivência do que reproduz, traz um simulacro.

Transplantemos esse Proust para o computador – e, mais ainda, para a escrita assistida por IA. O meio deixa de ser apenas suporte e se torna coautor: sugere frases, corrige estilos, antecipa palavras, oferece sinônimos, faz ligações de temas. O gesto de escrever já não é mais o corpo solitário lutando com a frase, mas um diálogo contínuo com uma máquina treinada em milhões de textos. A autoria torna-se estruturalmente compartilhada, mesmo que isso não apareça na capa do livro.


Ao perguntar “o que Proust faria num computador?”, tendemos a imaginar um acréscimo de potência, como se o mesmo Proust ganhasse apenas uma ferramenta mais ágil. Mas, considerando Benjamin e McLuhan, percebemos que não é o mesmo Proust: é outro sujeito, reconfigurado por outro meio. A mensagem muda porque o meio fabricou outro tipo de consciência e de corpo que escreve. Um escritor para quem a experiência é inseparável da materialidade – do volume, do lugar, da hora, do estado do corpo – não atravessaria incólume um meio que tende a homogeneizar superfícies, tempos e gestos.


E, no entanto, algo resiste. Mesmo em um diálogo mediado por IA, há uma aura da experiência: o encontro específico entre um determinado escritor, seu corpo e seu tempo de vida, no texto cocriado. O que escrevem juntos e o modo como isso se inscreve na vida desse escritor – o dia em que ele escreve, o lugar em que lê, o estado de espírito em que a escrita o encontra – permanece irrepetível.


Se a autoria pura acaba; a singularidade da experiência, como que a aura da vida, ou, na linguagem proustiana, a essência (e Deus seja louvado) permanece.



Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


 

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1 comentário


David Gertner
David Gertner
há 2 dias

Leio o texto menos como um “a favor” ou “contra” a IA e mais como um convite à cautela. A IA não é apenas ferramenta, é meio — e o meio transforma quem escreve. Talvez Proust com IA não deixasse de ser autor, mas se tornasse outro autor. Ainda assim, a singularidade da experiência vivida parece resistir, mesmo quando a autoria já não é pura.

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