A poesia que transforma fragilidade em asas
- Lais Amaral Jr

- 29 de abr.
- 5 min de leitura

Em Origami com asas – sobrevivo às dobras do tempo, Debbie Villela reúne memórias, perdas e afetos em versos sobre resiliência. A vida dobra, às vezes com delicadeza, às vezes com força. ‘Entre vincos invisíveis, o tempo modela as recordações, sentimentos e caminhos, como um papel que aprende a existir nas mais diversas formas’. A autora parte dessa metáfora para apresentar um mosaico sobre a capacidade humana de atravessar transformações e perdas sem perder a essência.
Nas páginas deste livro, surgem reflexões que transitam entre o íntimo e o universal. A escritora imprime lembranças de infância, episódios cotidianos, observações sobre o comportamento humano e suas maneiras de se manter resiliente. Os textos assumem o gesto de olhar o mundo com sutileza, encontrando beleza em cenas simples: o sabor de uma bala cor-de-rosa da infância, o silêncio de uma casa vazia ou o movimento das pessoas nas ruas de uma grande cidade.
Debbie Villela, é advogada e publicitária, e sempre manteve uma relação profunda com a escrita. Busca a felicidade e a partilha por meio da palavra e da poesia. Essa afinidade se materializa em textos que alternam lirismo e vivências pessoais, em uma composição repleta de significados. Em seus versos, cada imagem parece tocar algo familiar, despertando reconhecimento — como se abrisse uma pequena janela para a vida de quem lê, revelando fragmentos de sentimentos compartilhados.
Personagens ampliam o universo emocional da publicação. Entre eles, surge Valentina, jovem que busca compreender o próprio coração enquanto enfrenta ilusões amorosas e o desejo de liberdade. A trajetória dessa mulher ecoa um dos temas centrais: a travessia das fragilidades humanas e o aprendizado que nasce delas.
Origami com asas é um retrato da existência marcada por perdas, reencontros, memórias e reinvenções. Como na arte moldada em papel, cada dobra deixa marca, e a marca altera a forma — e, ainda assim, a folha permanece inteira, pronta para descobrir novas possibilidades de ascensão.
Ficha Técnica:
Título do livro: Origami com asas – sobrevivo às dobras do tempo
Autora: Debbie Villela
Editora: Drops Editora
Páginas: 150 páginas
ISBN/ASIN: 978-65-989495-0-1
Onde comprar: Drops Editora
CRIATIVOS - Algumas definições classificam a escrita poética como um filtro, que identifica e traduz certos mundos para o leitor, para o cotidiano ao redor. Você se reconhece como alguém a confeccionar "filtros"?
DEBBIE VILLELA - Eu me reconheço, de fato, como quem costura filtros, embora não no sentido de ocultar o mundo, apenas ajusto o olhar para que ele suporte o que presencia. A poesia, na minha leitura, é uma lente que revela em vez de corrigir. Escrevo para mostrar aquilo que já está ali, mas que a correria, o temor ou o desgaste tendem a apagar. Se há um filtro, ele é de presença: eu contenho o ruído para que o essencial consiga respirar.
CRIATIVOS - E você como sua própria musa, diga, se dobraduras que marcaram sua existência, tem papel relevante na sua obra?
DEBBIE VILLELA - Sou minha própria musa na medida em que me escuto com seriedade. As dobraduras da minha vida – perdas, recomeços, silêncios e pequenas alegrias quase invisíveis – são exatamente o material da minha escrita. Nada chega ao papel intacto: tudo é dobrado, refeito e atravessado por mim. São minhas mãos, o papel dentro delas, o meu gesto. Cada dobra, antes, cada vinco, deixa uma marca. No fim, o poema vira esse objeto que carrega as cicatrizes de quem o tocou.
CRIATIVOS - Na sua maneira de ver, a poesia é mais uma lanterna a projetar luz para descortinar a beleza ou uma ferramenta vital na busca do sentido das coisas, da vida?
DEBBIE VILLELA - Para mim, a poesia é lanterna e ferramenta ao mesmo tempo. Ela ilumina, sim, mas não como um espetáculo. Ilumina como quem acende uma luz pequena num quarto escuro e decide ficar ali, olhando com calma. E, ao mesmo tempo, é uma ferramenta de escavação. Eu escrevo para entender, para nomear e para reorganizar o caos. A beleza aparece, mas quase sempre como consequência de um processo de coragem.
CRIATIVOS - O convívio entre a advogada, a publicitária e a poeta/escritora é harmonioso? Alguém interfere na vida ou no trabalho de alguém?
DEBBIE VILLELA - Elas convivem em mim como vizinhas que aprenderam a se respeitar. A advogada me deu estrutura, senso de limite e rigor. A publicitária me ensinou a olhar para o outro e a pensar na comunicação como uma ponte. E a poeta… a poeta desmonta tudo quando é preciso. Nem sempre é harmonioso, mas é profundamente necessário. Quando uma tenta dominar, as outras puxam de volta. É um equilíbrio vivo, em constante negociação.
CRIATIVOS - Sua relação de vida com a escrita vem de longe. Você destacaria alguma influência no mundo literário ou mesmo no mundo das artes em geral?
DEBBIE VILLELA - Minha relação com a escrita vem de um lugar bem íntimo, até anterior à ideia de influência. Claro que eu fui atravessada por leituras, por imagens, por vozes, mas o que mais me marca são experiências que me fizeram escrever para não me perder dentro delas. Se existe influência, ela está menos ligada a nomes e mais a estados: o silêncio de uma casa, a espera de uma notícia, o peso de um dia comum.
CRIATIVOS - Na sua opinião, a arte, mesmo que considerada uma expressão individual, única e legítima do artista, pode contribuir para uma coletividade melhor?
DEBBIE VILLELA - Acredito profundamente que a arte, mesmo sendo algo individual, reverbera no coletivo. Quando alguém se reconhece em um verso, alguma coisa se reorganiza por dentro. E quando muitas pessoas passam a se reconhecer, a forma como elas habita o mundo muda. A arte não resolve tudo, mas provoca um deslocamento. E, às vezes, esse pequeno deslocamento já é o começo de outra realidade.
CRIATIVOS - O que você está lendo atualmente?
DEBBIE VILLELA - Tenho lido autores que me devolvem para mim mesma. Leituras que não me distraem, mas me chamam para dentro. Volto com frequência aos livros que já li, como quem revisita um lugar antigo e percebe que, ainda assim, alguma coisa mudou, por isso, estou relendo João Cabral de Melo Neto. A editora Alfaguara lançou um belo volume com sua poesia completa. Mais do que procurar novidade, tenho buscado profundidade: leituras que me façam ficar, não apenas passar. Estou relendo “Madame Bovary”, de Flaubert, porque tenho me interessado muitíssimo pela ficção que conta uma boa história e tece críticas, ao mesmo tempo, nos fazendo ponderar. Me encanta pensar em como podemos trazer as histórias – as grandes, as pequenas – para junto de nós. Além disso, carrego meu “Ensaio sobre a cegueira” para onde quer que eu vá, porque Saramago é um mestre, é capaz de transformar o assunto mais denso e opressivo em escrita que desorganiza, só para organizar novamente, como quem nos desmonta por dentro para provar que ainda há forma possível no caos.
CRIATIVOS - Fale sobre o que seja de seu interesse exteriorizar e as perguntas não conseguiram estimular.
DEBBIE VILLELA - Talvez o que eu mais queria dizer, além de qualquer pergunta, é que escrever foi a forma que encontrei de continuar. Em muitos momentos, parecia que tudo estava escapando: o tempo, as relações, até o sentido. A escrita me deu uma espécie de chão. Não um chão firme e definitivo, mas um chão possível. E, para mim, isso já é muito.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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