SURPREENDENTES
- Redação

- há 30 minutos
- 5 min de leitura
As festas na família eram cada vez maiores. Eles eram longevos, prolíficos e festeiros.
A multidão reunida para os 105 anos da matriarca juntava cinco gerações, e a sexta já estava encaminhada. Duas trinetas estavam grávidas, e a “produção” chegou a considerar a possibilidade de esperar os nascimentos para fazer a festa completa, mas alguém ponderou que Vovó Mia fazia 105, o que era um grande evento por si só e que, naquela idade, talvez não fosse uma boa ideia adiar qualquer coisa. Fariam duas festas.

A tia Eleonor tinha vindo de Minas especialmente para coordenar a cozinha. Seus 95 anos não eram um empecilho. Já não carregava os panelões e tinha um exército de netos e sobrinhos para essa função, mas fazia a lista de compras e passava horas vistoriando pessoalmente cada receita, desde a hora em que os ingredientes saíam das bolsas de feiras, mercados, açougues e peixarias. Cuidava até da intensidade do fogo nos dois grandes fogões industriais e não dava sossego para quem estivesse na cozinha, ainda que fosse de passagem.
– Cuidado no corte desse pimentão, Joaninha. Tá ficando grosso isso!!– Esse alho tá mal picado!!– Quem comprou essa farinha ruim? Manda trocar pela que eu pedi!!
O regime quase militar da cozinha era justificado pelo tamanho da festa, mas sempre gerava arrependimento nos voluntários. E a tia Eleonor fazia um longo discurso quando reunia a equipe pela primeira vez. A principal informação era que ela não admitia revezamento nas atividades. Quem começasse uma tarefa tinha que levá-la até o final. Detestava a falta de uniformidade que acontecia quando trocavam o cortador da couve, por exemplo.
O churrasqueiro-chefe era o primo Tobias. Gaúcho por adoção, foi para o Rio Grande do Sul estudar aos 18 anos e só vem duas ou três vezes por ano desde aquela época. Os 92 dele foram comemorados no ano passado. Com ele na churrasqueira, claro. O forte sotaque que ele ganhou nesses anos é a moldura perfeita para as reclamações que ele faz por causa da dificuldade de encontrar os cortes que usa no Sul.
– Não tem costelão aqui!!– Bah! Sem vazio não tem churrasco!!
Apesar da chiadeira, o churrasco sempre saía. E ele, surpreendentemente, ocupava só mais uma pessoa, o Zezinho, sobrinho catarinense dele, que já tinha 85, mas era forte como um garoto.
O tio Genaro, que detestava o nome italiano herdado de um vizinho do pai, era o irmão mais velho da Vovó Mia. Já tinha 107 anos. Era solteiro, o que foi sempre objeto de desconfiança na família. A carreira de médico era seu álibi permanente:
– Fiz plantões noturnos a vida inteira! Nenhuma mulher aguentaria isso!
A prima Elvira, do alto de seus 100 anos, contestava, afirmando que tinha se insinuado muito para ele. Ele, por sua vez, afirmava que nunca se casaria com uma prima. Morria de medo da consanguinidade e dos possíveis efeitos nocivos na descendência.
Havia, no entanto, quem desconfiasse das razões do tio Genaro. Os que tinham menos de 80, praticamente sem exceção, acreditavam que o tio nunca tivera coragem de assumir a sexualidade. A família religiosa tradicional, apesar de ser historicamente de esquerda, era um empecilho para voos mais altos no campo moral.
Os homens mais velhos, no que parecia um misto de inveja e brincadeira, apostavam que ele tinha namoradinhas de aluguel e que destinava parte do orçamento à prostituição.
Ao certo, ninguém sabia. Respeitavam as escolhas do tio e, salvo a manifestação da prima Elvira, falavam muito pouco sobre o assunto, apesar de pensarem muito no caso.
Vovó Mia tinha sido levada por uma pequena comissão, formada por uma filha, uma neta, um bisneto e uma trineta, para o seu “dia de princesa” no salão de um hotel próximo. Houve algum ruído na composição da comissão, especialmente pela inclusão do bisneto. Mas a informação de que ele era um renomado esteticista em sua cidade foi decisiva. Tinha abandonado a carreira de comissário de bordo para abrir um pequeno salão. E tinha trazido o namorado para a festa, o que era uma situação inédita na história do clã. Vovó Mia tinha carinho especial pelo bisneto “voador”, como ela o chamava. Fez sua primeira viagem de avião aos 97 anos com ele a bordo e foi tratada como uma rainha, apesar de só lhe servirem água e amendoins.
A festa estava toda estruturada, crianças brincavam, adolescentes olhavam o celular, quando alguém veio esbaforido, correndo, atropelando as palavras, para anunciar a chegada do tio Jeff, que tinha adotado esse nome desde que se mudara para Nova Iorque, na década de 60, para tocar jazz, exímio pianista que era. Tinha mais de 100 também, mas não revelava a idade. Os mais velhos não sabiam exatamente e já não tinham memória para fazer contas. Os mais jovens não ouviam jazz e não acompanhavam a carreira dele. Gente com menos de 60 anos sequer tinha ouvido falar de seu nome.
Chegou trazendo um piano elétrico e a mulher americana, provavelmente uns 50 anos mais jovem que ele, o que imediatamente despertou a curiosidade geral e a formação de grupinhos de fofoca.
– Chega!! Você pirou!!– Como assim? Tô só fazendo o meu trabalho.– Isso não faz sentido! Você pensa que aqui é Hollywood?
O Edgar fechou a cara e o computador e foi embora. Desistiu!
Era o terceiro texto que ele submetia na oficina de roteiro.
A sinopse básica, o briefing, pedia uma história que se concentrasse numa família não convencional.
A família paulista de cegos domadores de elefantes e a família paraibana de mercenários de guerra LGBTQIA+ também tinham sido rejeitadas por falta de orçamento e algum “excesso criativo”.
Para ele, tudo o mais era convencional.
Coitado do Edgar.
Rio de Janeiro, agosto de 2026.
Estou ouvindo a playlist Rio de Janeiro em música, prosa e verso.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras, downloads e licenciamento na Cedro Rosa Digital.
CRIATIVOS, Pensar, Fazer! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
Chamada
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.
Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)
Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.
Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com (com o assunto: QUERO RADAR)
Leia outros artigos de Leo Viana no portal CRIATIVOS!
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


















Comentários