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BOM GAROTO

há 2 horas
6 min de leitura

O Andrezinho é ótimo. Acompanhei o crescimento dele. Desde quando o garoto era pequeno, agarrado à saia da mãe, vizinha de longa data. Estudioso, focado nas coisas que escolhe fazer.


Às vezes, um pouco autocentrado demais. Teimoso, gosta de ouvir opiniões, mas não necessariamente altera a que ele já tem. Desde cedo. Faz uma espécie de comparativo, mas geralmente mantém a ideia que já tinha formulado antes.


Dia desses, me deu para ler um texto que ele escreveu. Meio verborrágico, exagerado. Segundo ele, era um conjunto de reflexões elaboradas no calor da eleição. Eu também estava baqueado pelo resultado, mas li com atenção. Não concordo com tudo, fiz umas anotações e devolvi para ele. Acho que ele não vai alterar nada, mas espero que ao menos leia. Abaixo, reproduzo apenas o texto dele. Não acho que as minhas considerações sejam importantes, apesar de serem minhas.

* * *

De tempos em tempos, a humanidade faz aflorar o pior de si.

Nem é preciso buscar as guerras por domínio territorial da Antiguidade, que também eram por comida, água e terras agricultáveis; ninguém sabia se comunicar em outra língua e não havia ministério das relações exteriores, ONU e outras modernidades. Alexandre, os generais romanos, Átila. Esses caras talvez possam até ser absolvidos pela história. Eram maus, não resta dúvida, mas a maldade no florescimento da humanidade talvez fosse só ignorância e falta de capacidade de negociação. Alguns grandes guerreiros, como o Aníbal, foram principalmente reativos. Depois, Genghis Khan, que guerreou muito para unificar o seu povo e expandir o comércio, mas, para isso, semeou mortes e descendentes em quantidades industriais.


Séculos depois — e não dá para falar de todas as guerras e maldades no intervalo —, a insanidade ganhou contornos fortemente comerciais quando a Europa atravessou o Atlântico, expandiu seus domínios, mas, sem ter mão de obra suficiente, sequestrou e escravizou negros da África para fazer o trabalho sujo. Milhões de homens, mulheres e crianças foram retirados de seus países, transportados como mercadorias e submetidos às piores condições com naturalidade por parte dos senhores europeus, em nome da construção de riquezas que até hoje são visíveis nos países colonizadores. No embalo, ainda houve o quase extermínio dos povos originários e a escravização também deles. Populações inteiras foram dizimadas ou submetidas sem qualquer remorso. O racismo persiste até hoje.


Novo salto histórico e Napoleão queria conquistar toda a Europa. Quase conseguiu, deixando um rastro de sangue por onde passou.


Quando o século XX chegou, trouxe junto a destruição em massa. A confusão territorialista e comercial (pangermanismo, pan-eslavismo, brigas por mercados e matérias-primas da África, vingança francesa contra a Alemanha pela perda da Alsácia), que deu na Primeira Guerra Mundial, pode até não ser considerada simplesmente uma manifestação da ignomínia humana, apesar de também ter sido, mas acabou preparando o terreno para o espetáculo de horror que foi a Segunda Guerra Mundial.


O rancor acumulado pela Alemanha, a ascensão do nazismo depois da crise com a derrota de 1914–18, o projeto expansionista italiano, a aliança de Mussolini com Hitler e a encrenca do Pacífico decorrente do projeto expansionista japonês foram as justificativas para a maior carnificina da história, que teve no Holocausto um novo parâmetro para o horror. Sem minimizar o que os japoneses fizeram na China e em outros pontos do Pacífico, nem os bombardeios posteriores dos americanos em cidades alemãs e as bombas em Hiroshima e Nagasaki.


A banalização da maldade foi entendida e descrita por Hannah Arendt no julgamento de Eichmann. Gente aparentemente comum é capaz de atrocidades. O que surpreendeu na época parece ter virado regra, quase manual…


E tome apartheid, segregação oficial nos Estados Unidos, povos expatriados, como os curdos.

A espiral de horror, que parecia ter terminado em 1945, foi encoberta pela Guerra Fria, mas voltou com tudo na Coreia, no Vietnã, nas ditaduras da América Latina, nas lutas pela libertação da África, nas lutas étnicas na África e nos Bálcãs. E voltou a ganhar força no Oriente Médio, a partir das provocações externas ou da ação direta das potências militares, até dar no que se vê hoje e na sanha belicosa ou genocida de Putin, Trump ou, principalmente, Netanyahu.

O resumo é assumidamente pequeno, impreciso e malfeito, mas tem a finalidade de ilustrar como a humanidade não é confiável.


Do geral para o específico, pessoas aparentemente normais, em um país aparentemente normal, com a economia se arrumando, parque produtivo de alto nível tanto na indústria quanto na extração mineral e na agricultura, se organizam para reviver tempos de maldade objetiva, baseada em critérios que não conseguem ser explicados pela ciência econômica clássica, ainda que, segundo eles, tenham lastro na economia. A defesa flagrante da acumulação em oposição à distribuição de renda.


A defesa feroz das jornadas exaustivas de trabalho frente a um projeto de flexibilização com mais estímulo ao trabalhador. A defesa explícita de um projeto de Estado a serviço do enriquecimento de seus gestores, com o esvaziamento de qualquer viés de bem-estar social. A aceitação tranquila de um projeto de segurança que prefere — e também pretere — as pessoas isoladas em algum tipo de gueto, como se fez no passado em Varsóvia e em outras cidades do norte da Europa, deixando-as sujeitas à própria sorte e a eventuais ações violentas da polícia. De repente, as pessoas beneficiadas por projetos sociais voltam-se contra si mesmas e fazem opção por um projeto que as desprotege em definitivo. Sem saúde, sem educação, sem moradia, sem crédito. Tudo reservado para quem pode pagar por isso.


A maldade deixa de ser exercida do opressor para o oprimido e passa a ser horizontal, entre oprimidos que desconhecem a sua condição e oprimidos conscientes.

* * *

O Andrezinho estava refletindo sozinho e já tinha escrito todas estas linhas caóticas quando, me disse ele, a mãe o chamou a atenção porque era hora de retomar o trabalho. O Andrezinho trabalhava em casa, depois de ter conseguido um emprego numa empresa de importação e exportação. Após a conclusão do curso de Relações Internacionais, o concurso para o Ministério das Relações Exteriores tinha sido adiado, e ele aproveitou para exercitar o francês e o inglês na empresa, que comercializa peças de máquinas industriais para o mundo todo. Com alguma frequência, era obrigado a defender o capitalismo internacional em discussões sobre preços, prazos ou formas de pagamento.


Quando ele me entregou o texto, num dia em que passei lá para um café com a mãe dele, vizinha minha de adolescência que abandonou os estudos para se casar e criar os filhos, percebi que ela não entendia direito o trabalho do André, mas admirava a disciplina do filho, que se empenhava muito e dedicava muitas horas por dia ao ofício.


André, por sua vez, sabia que estava inserido na economia internacional, a mesma que muitas vezes foi a catalisadora da maldade humana que ele tentava entender e sobre a qual vinha refletindo e escrevendo. Sofria ao dizer para mim que a classe média, que ele desejava alcançar como projeto de vida, detestava profundamente a sua classe de origem, os pobres. Não entendia a oposição radical, a não ser como um medo da ascensão de toda aquela gente, que passaria a gozar de algum conforto. Em sua formulação, os ricos desprezavam a classe média por suas falsas aspirações de riqueza.


Foi ele quem começou a conversa:

— Tio, de um momento para o outro, o mundo adotou uma flexibilização de conceitos éticos e morais básicos. O que era corrupção quando aplicado a alguns personagens deixa de ser quando aplicado a outros, especialmente aqueles em situação de maior vulnerabilidade ou adversários ideológicos. Defensores de costumes conservadores deixam de ser críticos de desvios morais claros, especialmente sexuais e financeiros, tão criticados antes, se os mesmos desvios forem praticados por gente identificada com o seu campo político.


Devolvi o papel a ele com pequenas observações, rabiscos de pé de página, indicando excessos, imprecisões históricas ou de interpretação. Não sei se um dia ele vai entender que nem tudo é pura maldade humana. Não sei se vai admitir os erros na reflexão que fez. Já fui jovem e já fui assim, igualzinho. O tempo e os estudos amainaram meus arroubos teóricos, mas não minha indignação. Entendo cada vez mais o André, coitado.


E lamento muito o risco que corre o futuro dele.


A humanidade, e eu concordo com a tese geral, às vezes faz aflorar o pior de si.

Mas nem sempre, André.


Vamos aproveitar os intervalos.

Você ainda tem mais tempo que eu para isso.

Rio de Janeiro, outubro de 2026.

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