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Carpe Diem

há 11 horas
4 min de leitura



Há frutos que precisam de tempo para amadurecer. E há aqueles que perdemos porque esperamos demais.


Por David Gertner, Ph.D.


Há mais de dois mil anos, Horácio escreveu duas palavras que atravessariam os séculos: carpe diem. Costumamos traduzi-las como “aproveite o dia”. Mas talvez a imagem original seja mais bonita.


Carpe diem também pode ser entendido como “colha o dia”.


Colher é diferente de aproveitar.


Há um momento em que o fruto ainda está verde. Depois amadurece. Durante algum tempo permanece no galho, pronto para ser colhido. Até que um dia cai.


Talvez a vida se pareça mais com isso do que gostaríamos de admitir.


Ninguém sabe, ao fechar uma porta, que talvez não volte a atravessá-la. Despedimo-nos como sempre, prometemos telefonar, deixamos uma conversa pela metade. Há um copo sobre a mesa, uma cadeira fora do lugar, alguma coisa banal que não merece ser guardada na memória. Só muito depois descobrimos que aquela tarde tinha uma importância que, enquanto acontecia, ninguém poderia reconhecer.


Durante alguns anos, uma criança estende a mão para atravessar a rua. Faz isso tantas vezes que ninguém pensa em guardar o momento. Até que um dia atravessa sozinha. Não há despedida, fotografia ou cerimônia. Apenas muito mais tarde percebemos que, em algum cruzamento que já esquecemos, uma mão pequena procurou a nossa pela última vez.


As últimas vezes raramente chegam identificadas como últimas.


O tempo não coloca placas sobre os momentos importantes. Não nos avisa para prestar atenção porque aquilo não acontecerá novamente. As coisas simplesmente acontecem como sempre aconteceram, até deixarem de acontecer.


Há também perguntas que acreditamos poder fazer depois. Aos pais, aos avós, às pessoas que chegaram antes de nós. Queremos saber como eram quando jovens, de que tinham medo, o que sonhavam, por que fizeram determinadas escolhas, quem eram aquelas pessoas nas fotografias antigas. Durante anos, as respostas estão ao alcance de uma conversa. Mas não perguntamos. Talvez porque imaginemos que haverá outra oportunidade. Até que um dia as perguntas permanecem e aqueles que poderiam respondê-las já não estão aqui.


Então descobrimos uma forma particularmente dolorosa de silêncio: ter finalmente a pergunta quando já não existe quem possa dar a resposta.


Restam fotografias. Olhamos para rostos que conhecemos e para outros cujos nomes já ninguém sabe. Há histórias escondidas naquelas imagens que alguém poderia ter contado, detalhes que pareciam insignificantes e que agora gostaríamos de conhecer. A fotografia preservou o rosto, mas não preservou a resposta.


É impossível, porém, viver tratando cada encontro como uma despedida ou cada manhã como se nenhuma outra fosse chegar. Precisamos fazer planos, começar projetos, marcar encontros para a semana seguinte. Precisamos confiar no amanhã.


O problema talvez comece quando confundimos confiança com garantia.


O futuro é uma promessa que o tempo nunca fez.


Ainda assim, adiamos. O telefone está sobre a mesa. Pensamos em alguém. Poderíamos ligar agora, mas amanhã haverá mais tempo. Há uma conversa para quando encontrarmos as palavras certas, um lugar ao qual pretendemos voltar, um agradecimento que imaginamos poder deixar para outra ocasião.


Amanhã parece um lugar enorme. Cabe quase tudo dentro dele. Por isso continuamos colocando coisas lá.


Quase tudo pode esperar. Até o dia em que não pode mais.


Mas Horácio escolheu a imagem da colheita, e talvez nela exista também uma advertência contra a pressa. Nem todo fruto deve ser arrancado assim que aparece. Alguns precisam permanecer no galho. Há decisões que pedem tempo, palavras que ainda precisam amadurecer, caminhos cuja direção ainda não conseguimos enxergar.


Não basta colher. É preciso perceber quando chegou a hora.


Talvez seja essa a dificuldade de carpe diem. Passamos pela vida sem conhecer inteiramente as estações. Algumas coisas ainda estão verdes quando nossa impaciência tenta arrancá-las. Outras amadurecem silenciosamente diante de nós enquanto esperamos uma ocasião melhor.


Não podemos impedir que as pessoas partam, que as crianças cresçam ou que determinados dias jamais se repitam. Tampouco podemos viver tentando transformar cada instante em extraordinário. Podemos apenas estar presentes enquanto aquilo que amamos ainda está conosco.


Talvez colher o dia seja isso: não possuir o tempo nem tentar vencê-lo, mas prestar atenção.


Porque há dias comuns que um dia desejaríamos poder viver outra vez. Há vozes às quais gostaríamos de ter prestado mais atenção, mãos que gostaríamos de ter segurado por alguns segundos a mais e portas que fecharíamos mais devagar se soubéssemos o que sabemos hoje. Mas não sabíamos, porque quase nunca sabemos enquanto ainda há tempo.


Talvez por isso atravessemos a vida como quem caminha por um pomar sem conhecer a duração das estações. Alguns frutos ainda precisam de tempo. Outros estão maduros diante de nós e parecem tão seguros no galho que acreditamos poder voltar amanhã.


Às vezes podemos voltar e encontrá-los exatamente onde estavam.


Outras vezes, quando voltamos, encontramos apenas o galho.




David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. Obteve seu Ph.D. pela Northwestern University. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, ética, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com



Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.


 


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