Coisas da roça
- Luiz Inglês

- 8 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de dez. de 2025

Morando há décadas na roça (mas com idas frequentes ao Rio e São Paulo para me por a par do que acontece e rever amigos), acabei me habituando ao jeito do interior se expressar. Fiquei tão familiarizado que me adaptei, assim como nos habituamos a ouvir expressões como as de um dialeto. E estou a menos de três horas dos grandes centros que mencionei. Nosso país é imenso e tão diverso.
No início, de fato, me causou estranheza ouvir alguém dizer que está com um “nó nas tripas” por conta de “vento virado”. O sentido até que dá para entender (cólicas por conta de uma má digestão). Mas não deixa de ser curioso que o mesmoidioma provenha diversas formas de explicar a mesma coisa.
Um amigo médico me relatou que, de certa feita, um sinhozinho veio ao seu consultório com dor no “suã”. Que raios seria “suã”? Espertamente e com elegância, não só para não exibir sua ignorância local como a não deixar o sinhozinho sem jeito, dirigiu-se à sua assistente, uma senhora da terra e indagou quase num sussurro. Soube então que é um corte de carne de porco, que é a união da parte final do lombo com as costas. O paciente estava com dores lombares! Nunca mais esqueceu. De outra feita, ao chegar ao consultório leu na ficha da médica, que atendia a população na parte da manhã, que “a doutora não sabia como cuidar de sangue estoporado”.
Foi novamente à assistente e soube que a paciente em questão havia contraído “dor no cangote” e ficou com “peito fechado”. “Sangue estoporado” é quando o indivíduo sai de ambiente quente e se aventura no frio. O sangue fica “estoporado”. E por isso a paciente pegou um baita de um torcicolo e encheu o pulmão de catarro.
Muitos termos vêm do trato com animais. Senão vejamos:
- Ventas : narinas
- Barrigueira : abdome
- Quarto : musculatura da coxa
- Bucho : estômago
- Cobreiro : herpes
- Olho de peixe : verruga
- Pé choco : pé torto
- Pataquada : entorse
- Tripas : intestino
Outras curiosidades aparecem quando trocamos ideias com gente da terra. Com um “pito nos beiços” (cigarro na boca) ficamos “acocorados” (agachados) tomando um “goró” (pinga/cachaça) e o papo segue por um longo tempo. Causos e mais causos são relatados. Mal estar do corpo são assuntos corriqueiros. Quem tiver mais problemas é respeitado. Aí surgem a “quentura” (febre) que obrigou a patroa de um a ficar de cama. Ou a “batedeira” (taquicardia) que atacou um tio e teve de ser internado. Um sinhozinho (seria o mesmo do “suã”?) teve uma “tontura no vazio”(queda de pressão ao levantar). Mas disse que foi um “quebranto” (mau-olhado). O sobrinho, poeta apaixonado, disse que estava “rodado do juízo” (confuso) porque estava meio “troncho” (desalinhado), “desbeiçado” (abatido) já que sua paixão não lhe dava atenção.
De qualquer “papo” (estômago, mas aqui usado como prosa) surgem frases inesquecíveis. Amphilóphio (com PH mesmo) amigo local de muitos anos, certa vez me disse que sua garganta estava tão seca que parecia “estrada de terra ao meio-dia”.
Caetano, um funcionário que ficou comigo mais de 25 anos, era mestre em ideias e convicções da roça, bastante curiosas. Nascido na roça, na roça morreu com mais de 90 anos. Dizia ele que quando um ratinho morre, vira morcego. Tambémafirmava categoricamente que cobra tem pernas. “Sôluiz, (era assim que me chamava) o senhor pega suco de limão e pimenta e passa na barriga da cobra (não me disse como segurar a cobra) e aí nascem as perninhas. Mas quem faz isso fica ruim da cabeça, desanda do juízo”.
Num churrasco que dei, ele comeu demais. Percebi e levei-o para casa (dentro da propriedade) após dar-lhe um antiácido. No caminho me disse: ...”tô com o bucho cheio, empachado que nem bode no milho”.
As estórias na roça são muitas. Fala-se muito do tempo. Cito novamente Caetano, com quem convivi por muito tempo. Analfabeto que era, tinha a cabeça repleta de conhecimento adquirido pela prática do dia a dia. Na falta de uma culturacomo nós a conhecemos, aprendi muito com ele com sua sabedoria na lida da experiência. Criava expressões para definir seu pensamento.
Quando armava temporal dizia que o “tempo fechou que nem tampa de chaleira”, ou olhava para cima e dizia “tem cheiro de chuva no ar, vem chuva grossa”. Afirmava que tinham dois tipos de chuva. A Matadeira que a tudo destrói, e a Criadeira, que ajuda as plantas e a mata.
E, ao contrário, quando fazia muito calor, dizia que o sol “torrava os calangos” ou que estava tão quente “que até o vento já vinha quente”.
Saudades do Caetano. De sua ingenuidade e sabedoria. Voa passarinho.
Luiz Inglês
Novembro 2025
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