Relatório revela impacto devastador da IA generativa no setor criativo
- Redação

- há 16 horas
- 4 min de leitura

A ascensão da Inteligência Artificial Generativa tem sido vendida globalmente como o motor de uma nova revolução industrial. No entanto, para quem está na linha de frente da produção cultural, o cenário assemelha-se mais a uma distopia de exploração.
O relatório "Brave New World? Justice for creators in the age of GenAI", publicado pela Independent Society of Musicians (ISM) em conjunto com outras quatro grandes organizações do Reino Unido, traz dados alarmantes sobre a erosão dos meios de subsistência de músicos, escritores e artistas visuais.
Baseado no depoimento de mais de 10.000 profissionais, o estudo é uma das análises mais profundas já realizadas sobre como a falta de regulamentação está permitindo o que os autores chamam de "roubo em escala industrial" das riquezas culturais.
O Diagnóstico: Crise de Emprego e Renda
Os números apresentados pela ISM e seus parceiros (Society of Authors, Equity, AOI e AOP) revelam um setor sob ataque direto:
Extração sem Consentimento: 99% dos criadores afirmam que seus trabalhos foram coletados (scraped) para treinamento de modelos de IA sem autorização prévia ou pagamento.
Risco de Extinção: Um em cada três empregos criativos já é considerado em risco devido à automação por IA.
Perda de Receita: Entre os músicos, 73% declaram que a IA não regulamentada ameaça sua capacidade de ganhar a vida. Fotógrafos relatam perdas anuais médias de £14.000, enquanto ilustradores veem reduções de quase £10.000 em seus rendimentos.
Clonagem de Identidade: 83% dos dubladores e artistas de voz já convivem com clones digitais e avatares criados por IA que circulam sem controle.
O Framework CLEAR: Uma Proposta de Justiça
O relatório não prega o fim da tecnologia, mas exige que a inovação não ocorra às custas da propriedade privada dos cidadãos. O grupo propõe a implementação imediata do framework CLEAR, um conjunto de cinco diretrizes fundamentais:
C - Consent (Consentimento): Garantir que obras protegidas por direitos autorais não possam ser usadas para treinar modelos de IA sem autorização explícita e prévia.
L - Licensing (Licenciamento): Substituir a raspagem de dados por esquemas de licenciamento estatutário, criando rotas legais e transparentes para desenvolvedores.
E - Ethical use (Uso Ético): Estabelecer padrões éticos rigorosos para a curadoria e aplicação dos dados de treinamento.
A - Accountability (Responsabilidade): Exigir transparência total sobre quais obras foram usadas e como influenciaram os resultados da IA.
R - Remuneration (Remuneração): Assegurar que os criadores recebam pagamentos justos e atribuição de crédito por sua contribuição indireta aos sistemas de IA.
Defesa da Cultura como Patrimônio Econômico
O Portal CRIATIVOS! observa que esta discussão ultrapassa a esfera estética. No Reino Unido, as indústrias criativas valem £124,6 bilhões para a economia. Ao permitir que grandes corporações de tecnologia operem em um vácuo regulatório, os governos arriscam desmantelar um ecossistema que sustenta milhões de empregos em troca de algoritmos que mimetizam a originalidade humana.
A fonte primária, o relatório da ISM, reforça que os criadores não são um "acessório" da cultura, mas o seu coração pulsante. Sem justiça e proteção aos direitos autorais, o "admirável mundo novo" da tecnologia pode resultar em um empobrecimento cultural sem precedentes.
No Reino Unido, as indústrias criativas possuem um peso econômico significativamente maior do que a média global, consolidando-se como um dos pilares estratégicos do país. De acordo com os dados mais recentes do Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS) e reforçados pelo relatório "Brave New World" da ISM, o setor contribui com aproximadamente 6% do Valor Agregado Bruto (GVA) da economia britânica.
Para efeito de comparação direta com os 3,6% do PIB brasileiro apontados pela FIRJAN em 2025, os números britânicos revelam uma indústria mais madura e integrada à cadeia de exportação de serviços.
Desempenho Econômico no Reino Unido:
Valor Nominal: O setor gera cerca de £125 bilhões (aproximadamente R$ 800 bilhões) anualmente para a economia do Reino Unido.
Crescimento: Antes da pandemia e na retomada subsequente, o setor criativo britânico cresceu a uma taxa mais de duas vezes superior à média do restante da economia nacional.
Empregabilidade: É responsável por mais de 2,4 milhões de empregos, o que representa cerca de 1 em cada 14 postos de trabalho no país.
O Alerta do Relatório ISM
Embora o percentual de participação no PIB seja elevado, o relatório da ISM destaca uma fragilidade: essa riqueza está concentrada nas camadas de distribuição e tecnologia, enquanto a base da pirâmide (músicos, escritores e artistas visuais) enfrenta uma erosão de renda.
Enquanto o Brasil busca consolidar seus 3,6% através de políticas de fomento e novos marcos legais, o Reino Unido luta para manter seus 6% diante da ameaça da IA generativa, que utiliza o acervo intelectual britânico sem a devida compensação financeira aos criadores originais.
Fontes: Department for Culture, Media and Sport (DCMS) e Independent Society of Musicians (ISM).
Fonte primária: ISM - Brave New World? Justice for creators in the age of GenAI
Este vídeo apresenta uma breve discussão entre a CEO da ISM e a autora do relatório sobre a necessidade crítica de aderir às leis de direitos autorais para proteger os músicos.
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