Tem receita pra samba?
- Lais Amaral Jr.

- há 4 horas
- 3 min de leitura

Estava dia desses no ponto do ônibus quando um amigo parou oferecendo carona. Eu que já estava meio atrasado, até me lembrei do grande Wilson das Neves e pensei intimamente: ‘Ô Sorte!’. Sentei atrás e fui apreciando a paisagem em silêncio, enquanto meu amigo ao volante conversava com seu carona do lado.
O caminho era familiar, mas até a paisagem costuma insinuar coisas diferentes, dependendo do estado de espírito do observador. Eu, certamente estava diferente nessa manhã. Paramos num sinal de trânsito (farol, para os leitores paulistas), e lá na frente uma cena também corriqueira, um sujeito fazendo malabarismos e depois indo até os automóveis pegar um trocado, antes que o sinal esverdeasse.
Não dei a mínima para os comentários críticos do amigo e do carona sobre a ação do malabarista. Senti uma simpatia, bem mais intensa que outras vezes, pelo artista de rua. Ele ali, se virando para conseguir um ‘qualquer’, exposto ao humor dos motoristas. E de repente, com a rapidez de uma estrela cadente, uns versos simples, foram vindos na mente acesa. E vieram prontos, até com uma musiquinha insipiente:
“Emílio Branco
Era um artista circense
Torcedor do Fluminense
Um sujeito bem legal”
Para decorar, fiquei a martelar aquela frágil cantoria. Coisa de compositor que não toca instrumento algum. Normalmente eu gravaria no celular, mas ali no carro, impossível. Enquanto eu cantarolava mentalmente aquela quadra, sentia que vinha mais coisa, mais versos queriam chegar e chegaram:
“Desde menino
Viveu debaixo da lona
Driblando a vida mandona
Um brasileiro normal”
- Tá bom aqui, Laís? A voz grave do amigo me tirou do transe. Agradeci e segui para o trabalho com a história do tal Emílio Branco ribombando na mente. Abri o computador e escrevi rapidinho aquelas duas quadras. E passei o dia, entre uma tarefa e outra, convivendo com o enredo do rapaz que abandonara o circo para buscar outra forma de vida na cidade.
Até chegar em casa e me sentar ao teclado, a história estava pronta na cabeça, e tinha um final triste. Mas diferente dos versos que chegaram de chofre e prontos, escrevi os demais baseados na métrica dessas duas quadras iniciais. E cantarolando. Quando dei conta, eram dez quadras, quarenta versos. E ainda acrescentei um refrão.
Em outros tempos eu ficaria intrigado com o caso. A história em versos, a melodia, tudo veio pronto. Até o nome do personagem. O gatilho, claro, fora a visão do malabarista no sinal de trânsito, fazendo lá sua arte em troca de uns caraminguás. Mas e aquele turbilhão de coisas?
Em outros tempos eu ficaria intrigado, repito, mas hoje compreendo um pouco melhor. Culpa do saudoso João Nogueira e dessa entidade chamada Paulo César Pinheiro, que naquele samba antológico, O Poder da Criação, deixaram claro que a inspiração não vem quando queremos. Não dá para fazer só o que se prefere, e nem se monta um cenário para contribuir com a criação. Não!
A gente nem precisa estar feliz ou aflito, ou refugiado num lugar mais bonito em busca da inspiração. A luz chega de repente. Até num carro num breve trajeto de casa para o trabalho. O verso vem, a melodia vem. É isso. Neste caso específico, pronta, foi pra gaveta. De todo jeito, obrigado João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro pela aula. A gente sempre aprende. O refrãozinho depois dos quarenta versos:
“Mas ele não percebeu
Que era mais um passageiro
E o que a vida ofereceu
Foi um outro picadeiro”
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