CONSTRUCTO
- Jorge Cardozo

- 4 de mai. de 2025
- 2 min de leitura

Saudades daquele eu que se movia bem rápido, andava de motocicleta, passava noites em claro. Lembranças caras, pinçadas das épocas de ouro: adolescência, juventude e início da idade adulta.
Saudades do batimento acelerado do pulso por uma paixão momentânea, válida por toda a vida. A claustrofobia da entrega: corpos enroscados num quarto, numa esquina, no banco de trás de um carro. E os vazios dos dias seguintes com a vontade solitária de refazer o gozo.
Da agilidade das pernas a saltar desvãos de pedras; beiras de pequenos abismos. Após o mergulho preciso, lentos minutos debaixo d’água – a respiração contida – um impulso e o corpo, feito torpedo, a emergir.
De atravessar correndo as pistas do Aterro do Flamengo. Os carros, meteoros que passam sem nunca atingir o alvo. Na mesma época, a meditação e a canabis fazendo da mente o mais pacífico campo de batalha.
Da insegurança pelo não vivido: das projeções fantasmas sobre o futuro ao destemor à morte, possivelmente próxima. E mais; o desejo de tanta vida que nem cabe no tempo, a vontade de tantas viagens que nem cabem numa vida. Os primeiros rascunhos de poemas e contos como forma de sobrevivência.
De todo o escrito fora das margens do caderno aramado, na capa a foto da garota ruiva; sorriso e sardas cativantes.
De tudo o que foi rabiscado em agendas abandonadas nas escrivaninhas dos quitinetes na Baixada, das casas na Barra, dos ateliês em Santa, dos módulos no Alojamento, do apê no Leme, de todas as moradias com os amores provisórios.
E das palavras não ditas, afundadas no medo, naufragadas no fluxo do acontecido, pisoteadas pelo tropel das conversas sem prumo. De todas as teias possíveis e não tecidas, tramadas e não lançadas. De todas as presas fugidas da captura.
Até de cada paúra que não ousei encarar.
Saudades de mim mesmo ou de um outro que não vivi?
Jorge Cardozo
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