EM RETROSPECTIVA…

Saiu de casa para a manifestação meio descrente. A camiseta vermelha, a bandeira que tinha resistido a tantas eleições anteriores, uma velha calça jeans de muito tempo atrás.
Novo, só o tênis recém-comprado quando o médico a ameaçou caso não fizesse algum tipo de exercício físico. Tinha se matriculado na academia, no Pilates e resolveu caminhar também em volta do Maracanã. Aposentada, teria tempo pra dedicar a si.
Pretendia chegar ao local da concentração e procurar os amigos. Viam-se nas manifestações desde as Diretas Já, em 1984. A emenda caiu. Foi a primeira grande frustração da vida depois da Copa de 1982. Acompanhou o passo a passo da abertura política ainda sem entender direito, desde a queda do AI-5, em outubro de 1978. Não sabia do que se tratava, mas a família tinha comemorado e parecia ser importante. Tinha só 10 anos quando aconteceu.
Exatamente o tempo de duração da vigência do tal AI-5. Aos 13 para 14 anos, no tempo das Diretas, foi com a turma da escola, incluindo professores. As aulas foram suspensas; foi uma festa da democracia. As aulas de História passaram a fazer sentido. Sentia-se mergulhada num filme ao ver toda aquela multidão e todos aqueles personagens dos quais ouvia falar e nem sempre prestava a devida atenção na televisão.
Foi lá que encontrou uma turma de outra escola numa fila pra comprar cachorro-quente. Comunicativa sempre foi. Fez as duas turmas se integrarem, trocou endereço e telefone com diversos adolescentes como ela.
Não sabia, mas era o início de um grupo de amizades que iria além daquele momento histórico. Bem antes que houvesse internet.
Na universidade, reencontrou alguns no movimento estudantil. Dividiu com eles cervejas em passeatas e alojamentos em congressos. Na eleição de 1989, chegaram a se dividir entre Lula e Brizola. Lembra da apuração, na Cinelândia, em meio a chopes no Amarelinho. Quando se definiu que Lula iria para o segundo turno, a parte brizolista do grupo ensaiou vaias, mas, diante da reação exacerbada de alguns, outros decidiram apaziguar e trabalhar para construir a unidade contra Collor. Saíram dali, muitos chopes depois, ainda mais amigos.
No impeachment de Collor, quando a maioria nem era mais estudante, atenderam ao chamado da garotada das universidades e pintaram a cara num carnaval cívico.
Adriana caminha com a bandeira rumo ao metrô e abre um sorriso quando lembra da turma toda na Rio Branco, cercada de estudantes por todos os lados. Alguns secundaristas achavam que eles eram professores. Recém-formada, alguém a chamou de tia.
Lula perdeu mais algumas eleições. Não foi o suficiente para desarticular o grupo. Pequenas vitórias aqui e ali mantiveram aceso o sonho de uma democracia madura.
A velha bandeira foi comprada na eleição de 1994, a primeira de Fernando Henrique. As coligações dele eram feias, mas, ao menos, FFHH, como o chamava o Veríssimo, era um intelectual que tinha algumas boas ideias sobre o Brasil. Foi durante aquela campanha que Adriana conheceu Donato. Casaram-se antes da reeleição de FH. Em 1998, Lula tentou com Brizola de vice, numa coligação tida como impensável em 1989.
A filha, Nara, nasceu quando as coisas começaram a mudar de verdade, em janeiro de 2003, alvorecer do primeiro governo Lula, após derrotar José Serra, que tinha feito uma grande gestão no Ministério da Saúde de Fernando Henrique. Assim acreditavam Adriana e Donato. O início de uma nova era sem retrocessos.
O Brasil passou a ser visto de modo diferente. De dentro pra fora e de fora pra dentro. A turma, já bem situada no mercado de trabalho como médicas/os, engenheiras/os, professores/as, geógrafas/os, agrônomas/os, veterinárias/os e diversas outras profissões, viajava, profissionalmente ou não, Brasil adentro e mundo afora. Todos traziam as impressões de onde iam. E elas eram as melhores aos olhos de quem contava.
Davi era da Glória, Joaquim era do Catete e Adriana de Botafogo. Quando casou com Donato, que veio de Santa Cruz, o casal conseguiu comprar um apartamento no Bairro de Fátima. Tinham assim a Lapa perto e os hospitais da Cruz Vermelha, onde trabalhavam, ao lado de casa. Obrigação e diversão ao alcance da mão.
Entre 2003 e 2006, com uma criança pequena em casa, Donato e Adriana sediaram alguns dos encontros do grupo. Cantavam e contavam histórias. Também se assustaram com a denúncia do mensalão. Todos sabiam que uma parte do Legislativo recebia dinheiro para votar com o governo. O baixo clero, parlamentares sem escrúpulos, historicamente vinculados a currais eleitorais e, por alguma razão histórica, normalmente ligados aos partidos de direita, sempre cobraram seu apoio em espécie. Mas o escândalo revelado abalou o governo. Rendeu discussões acaloradas no grupo. Alguns saíram revoltados com a condescendência de outros. Era só o início.
Tempos depois, Nara já crescida, veio coisa mais feia. A Operação Lava-Jato, comandada pela elite judiciária do Paraná — depois desmascarada como parcial e corrupta —, levou Lula à cadeia. A mobilização nacional deu antes no impeachment de Dilma Rousseff, na ascensão nacional de um pensamento radicalizado de direita, ilustrado por homenagens a notórios torturadores. Com Lula fora de combate, o mundo inteiro se assustou com a elevação do baixo clero protofascista ao poder. A impressionante admiração que o mundo tinha passado a nutrir pelo Brasil, para além da cultura e do futebol, sofreu rápida erosão.
A política externa, tida como das melhores do mundo, passou a se basear em princípios pouco claros; houve perda de mercados e desconfiança geral. O desmonte do sistema interno de controle ambiental colocou o mundo em alerta. O avanço dos garimpos ilegais e do desmatamento fez com que diversos mercados se fechassem para o Brasil. E ainda houve a pandemia de Covid, que levou alguns amigos próximos e teve no governo de então o seu principal aliado, quando negava sua responsabilidade sobre as medidas de proteção. Tempos sombrios para o grupo de amigos.
Na caminhada para a estação do metrô, encontrou grupos mais animados que ela. Jovens, gente da sua idade também. O primeiro turno tinha sido traumático. A ameaça de retroceder, a estética nazifascista, o discurso abertamente armamentista.
Mas via caras novas e antigas. Reconheceu uma colega que tinha ido com ela ao comício das Diretas, mas não tinha se integrado ao grupo que durava até agora. Era professora de uma universidade estrangeira, estava de passagem e iria à manifestação. Juntas, seguiram. Muita lembrança, alguns desencontros amorosos pela vida, algumas decepções. Encontraria Donato e Nara num ponto previamente combinado na saída do metrô, mas a conversa as levou para outro lugar de memória. Pararam para um chope antes do metrô. As lembranças exigiam.
A amiga contou que, quando Lula saiu da prisão e toda a trama da Lava-Jato foi esclarecida, fizeram uma grande festa na cidade em que vivia, no interior do Canadá. Adriana se emocionou com a informação. Um sentimento de que o passado dava lastro para o presente, uma sensação de que o futuro seria melhor do que o primeiro turno fez parecer.
Uma chuva fina resolveu cair na hora em que desceram juntas do metrô e encontraram Donato, Nara e a multidão. O desânimo de Adriana tinha passado. Ela acreditava como sempre
acreditou. Votaria no segundo turno como votou em todos os turnos desde sua primeira eleição.
Queria um Brasil livre, soberano, forte, desenvolvido, exportador de tecnologia e manufaturados, além das commodities de sempre. Queria — e acreditava — que só havia um caminho para a redução das desigualdades, para o aumento da escolarização, para o acesso de mais e mais jovens ao ensino superior e a consequente qualificação da nossa mão de obra e dos nossos cérebros do futuro.
Adriana desenrolou a velha bandeira e a agitou entusiasmada.
Aposentou-se do trabalho. Foram mais de 30 anos de plantões dramáticos, mas estimulantes.
Ainda não se aposentou da vida.
Quer encontrar os amigos, rir, ver e brincar com os netos dela e dos outros. Quer um bom futuro pra eles. Quer viver.
E, pra viver, vota Lula em 2026.
Mas antes, assim que a manifestação se dispersar, faz questão de um chope com os amigos e amigas.
Como nos velhos tempos.
Rio de Janeiro, outubro de 2026.
Estou ouvindo a playlist Thiago Kobe e seu fabuloso mundo instrumental.
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Estou ouvindo a playlist Luis Pimentel, um compositor primoroso.
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