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Entre tornozeleiras e vistos: o "algoritmo da revolta" cria guerra simbólica sobre o judiciário brasileiro


Por Marcelo Camargo - Agência Brasil, Wikpedia
Por Marcelo Camargo - Agência Brasil, Wikpedia

Para pesquisadora da FGV, interações nas redes escancaram o novo palco da política brasileira: likes, memes e ressentimento coletivo



A internet brasileira transformou os últimos capítulos da política nacional em um verdadeiro teatro digital de indignação e espetáculo. Uma nova pesquisa do Centro de Estudos em Marketing Digital da FGV/EAESP revela como o engajamento massivo dos usuários sobre disputas ideológicas está intensificando a cultura de espetacularização judicial no país, tornando cada vez mais distante qualquer possibilidade de consenso ou debates construtivos.


Os números são reveladores: na última semana, foram registradas mais de 78 mil menções à decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou o uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, contra apenas 21 mil menções à revogação do visto americano de Alexandre de Moraes e outros ministros do STF.

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O triunfo da lógica algorítmica

"O que presenciamos é o triunfo da lógica algorítmica sobre o debate público. Assim como nos conflitos internacionais, episódios envolvendo figuras públicas e decisões institucionais se tornam matéria-prima para narrativas de pertencimento, ressentimento e vigilância moral", analisa Lilian Carvalho, PhD em Marketing Digital e responsável pelo levantamento.

A pesquisadora destaca um aspecto crucial: "Nem toda menção negativa esconde repulsa; nem toda positividade significa apoio. Nessa arena, a percepção pública é, ela própria, objeto de uma guerra simbólica."


A complexidade por trás dos números

Contrariando interpretações superficiais, Carvalho observa que o tom dominante nas dezenas de milhares de publicações sobre a tornozeleira de Bolsonaro não representa uma rejeição massiva à decisão judicial nem uma defesa incondicional do ex-presidente.

"Há, evidentemente, postagens que ironizam, lamentam ou questionam o rigor da decisão. Mas a tônica principal é de inquietação com o papel do Judiciário e, sobretudo, com a projeção internacional do que se decide dentro de nossas fronteiras", explica a especialista.

Segundo ela, internautas inflamados pelos algoritmos da viralização projetam no episódio "expectativas e frustrações sobre liderança e a própria ideia de justiça que, para muitos, já transborda as instituições."

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O caso Moraes: geopolítica em trending topic

Do outro lado da equação digital, a mobilização sobre a revogação do visto americano de Alexandre de Moraes apresenta características distintas. Apesar do número expressivo de menções, ficou modesto diante da "avalanche bolsonarista".

"Não há, nas entrelinhas, um aplauso explícito à decisão dos EUA", observa Carvalho. "A sensação recorrente é de reconhecimento de que, para muitos usuários, o gesto do governo americano soa como retaliação direta às escolhas e investigações conduzidas pela Suprema Corte brasileira contra Bolsonaro."


A positividade identificada nas redes não nasce da empatia com um suposto revés para Moraes, mas de uma "leitura estratégica de relações internacionais como palco de recados cifrados e respostas simbólicas."


Decifrando a assimetria digital

A diferença brutal no volume de engajamento tem explicações específicas. Para Lilian Carvalho, o caso da tornozeleira mobiliza "paixões mais primitivas e trincheiras políticas já sedimentadas". Bolsonaro, como figura naturalmente maximalista, catalisa tanto repúdio quanto romantização, fazendo com que "o episódio sirva de espelho para disputas identitárias e polarizações que transcendem o fato jurídico."


Já a situação envolvendo o visto de Alexandre de Moraes, mesmo sendo impactante no xadrez diplomático, mantém-se mais abstrata. Seu efeito sobre a rotina nacional é menos palpável, e a narrativa dominante não é de antagonismo direto, mas de reconhecimento do tabuleiro geopolítico — "menos ataque, mais leitura de cenário", como define a pesquisadora.



O sequestro algorítmico do debate público

A conclusão de Lilian Carvalho é contundente: "A lógica algorítmica sequestrou o debate público. A opinião virou performance. E a política, uma batalha de trending topics."

Esta transformação digital da política brasileira revela como as plataformas de redes sociais se tornaram o principal palco onde se desenrolam os embates ideológicos contemporâneos, moldando não apenas como consumimos informação, mas como construímos nossa percepção sobre justiça, poder e democracia no Brasil de 2025.



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