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DIÁLOGO METATEMPORAL



Por José Luiz Alqueres


Naquela tarde de domingo, em meados de janeiro de 2026, após devorar três lagostas à Thermidor, regadas a um Chardonnay da Stag’s Leap, o presidente Trump refugiou-se em um closet da Casa Branca, onde estava instalado seu equipamento eletrônico à prova de qualquer tipo de interferência ou gravação espúria.


Era a obra-prima da tecnologia digital, de onde ele emitia seus contundentes tweets. Um tanto sonolento, ligou o equipamento e, para sua surpresa, na tela de 80 polegadas apareceu a imagem de uma figura que ele sabia já ter visto em livros de história, mas cujo nome — e mesmo quem era — não conseguia lembrar.


Surpreso, clicou o mouse várias vezes, sem que o personagem desaparecesse. Até que, falando um inglês perfeito, ele se dirigiu a Trump com estas palavras:


— Não adianta, Donald. Aqui estou, enviado por um poder mais alto do que o seu atual ou do que eu pensei possuir nos meus tempos aqui na Terra.


As palavras do espectro na tela desencadearam um frio na espinha de Trump, um peso no peito, um ataque de sudorese, que provocaram uma resposta balbuciada, ainda que guardasse um tom desafiador:


— Quem é você, que se mete nesse meu sistema à prova de tudo e de todos?


A partir daí, travou-se um diálogo entre Trump e o Espectro que, com base em anotações posteriores, pode ser resumido da forma seguinte. O espectro falou:


— Entro e circulo por onde eu quiser, pois não pertenço ao seu mundo. No meu tempo, fui considerado o homem mais poderoso da Terra. Cheguei a ser chamado de Anticristo pelos mais poderosos reis da Europa, que tremeram sob os cascos da cavalaria do meu exército. Provoquei mais mortes no maior número de países do Velho Mundo do que qualquer soberano que me precedeu. Chamei o Papa para a cerimônia da minha coroação, mas não lhe permiti colocar a coroa em minha cabeça, pois eu a havia conquistado por meus próprios atos. Durante cerca de quinze anos, meu poder foi quase absoluto na Europa e se estendeu de Portugal até Moscou — embora eu não conseguisse dominar uma maldita ilha de lojistas, que se julgava uma reedição da falsa democracia da velha Atenas. Usando um discurso herdado dos Direitos Humanos e da Cidadania, fiel ao nepotismo tradicional dos regimes totalitários, distribuí principados e ducados entre os membros da minha família. Eu me considerava o máximo e não ouvi a sábia reflexão da minha mãe, camponesa da Córsega que, após assistir à cerimônia da minha coroação como Imperador, ao ser perguntada sobre como se sentia como mãe do todo-poderoso Imperador da Europa, respondeu simplesmente: “Só quero ver quanto tempo vai durar esta palhaçada”.


— Obtive permissão para invadir os seus sistemas eletrônicos por duas razões. A primeira é provar que toda criação humana é sujeita a defeitos e vulnerabilidades. A segunda é, sabendo o quanto você respeitava as opiniões de seu pai e de sua mãe e não mais os tendo a seu lado, lembrá-lo da sua própria falibilidade como ser humano.


— Seu avô era dono de saloons na Califórnia e assim enriqueceu o suficiente para que a família se estabelecesse na Costa Leste, onde você fez fortuna em Atlantic City, com cassinos, atividades e companheiros semelhantes aos que seu avô certamente cultivou. A truculência necessária para sobreviver nesses ambientes e neles se destacar, que você demonstrou, lembra muito a minha ascensão nos primeiros tempos da Revolução Francesa, quando, com artifícios semelhantes e ligações com mulheres ambiciosas, fiz o meu caminho.


— Meu ciclo de glória e poder durou cerca de vinte anos, e morri em total isolamento, com notícias esporádicas da decadência dos meus familiares.


Ao final do diálogo resumido nesta conversa, o espectro concluiu:


— Donald, o mundo mudou muito desde então, mas tenho sido lembrado mais pelo mal que produzi do que pelas eventuais coisas boas que resultaram da minha atuação, muitas delas involuntárias, como a independência dos países da América do Sul. Ainda está em tempo de você cair em si e usar o poder que herdou de gerações de homens e mulheres que construíram uma grande nação para mudar o mundo para melhor. Sei que é uma guinada difícil para você compreender, mas lembro-lhe a frase da minha mãe: “Esta patuscada não durará muito”.


Após desaparecer da tela, o presidente Trump foi procurar, em um livro de história de um dos netos, quem era aquele personagem, lembrando-se então de ter visto algumas imagens dele em uma viagem à França, realizada no passado. Passou a ter sonhos frequentes com esse episódio, que interpretava como efeito do exagerado consumo do Chardonnay, embora uma dúvida crucial sobre a existência de poderes sobrenaturais passasse a persegui-lo. O efeito, na história, desse devaneio presidencial ainda está por ser verificado.

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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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