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FATOS E NARRATIVAS

José Luiz Alquéres, Vice-presidente do IHGB-Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
José Luiz Alquéres, Vice-presidente do IHGB-Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

A partir dos anos 1940, com o sucesso da revista Life, lançada nos Estados Unidos, consolidou-se progressivamente no mundo ocidental a ideia de que a fotografia representava uma prova quase absoluta da realidade.


A imagem publicada em jornais e revistas passou a ser vista como um testemunho objetivo dos fatos, especialmente quando associada a grandes veículos de circulação e a jornalistas de renome.


Ao longo de décadas, essa credibilidade da imagem fortaleceu enormemente os meios de comunicação tradicionais. Criou-se uma espécie de confiança automática segundo a qual aquilo que era mostrado pelos jornais, revistas ou pela televisão possuía uma garantia de origem e autenticidade. Essa confiança, evidentemente, nunca foi absoluta, mas existia como referência social dominante.


Entretanto, esta credibilidade não é mais a característica das matérias publicadas em parte expressiva dos órgãos de comunicação do Brasil. Em inúmeros casos, não se trata mais apenas da simples exposição dos fatos, mas de conjecturas estruturadas sob a forma de narrativas elaboradas por competentes jornalistas ou empresários da comunicação. Essas narrativas passam a costurar fatos, interpretações, recortes e omissões de maneira a produzir no público a impressão de que determinadas situações não são exatamente aquilo que parecem ser — ou, em outros casos, de que são exatamente aquilo que se deseja que aparentem ser.


Forma-se, assim, um grande exercício de imaginação e de falsificação da realidade. E essa deformação narrativa não permanece limitada apenas ao público comum. Ela acaba contaminando progressivamente pessoas dos três Poderes da República, inclusive as mais altas autoridades do país, que passam também a operar, decidir e reagir dentro dessas construções narrativas continuamente reproduzidas pelos meios de comunicação e pelos novos ambientes digitais.


Paralelamente, ocorreu outro fenômeno decisivo: a necessária cessão de espaço e protagonismo dos jornais, revistas e emissoras de televisão para as chamadas redes sociais. O antigo monopólio da produção e circulação da informação foi rompido. Hoje, qualquer pessoa pode publicar imagens próprias, fotografias tiradas por si mesma, imagens recebidas de terceiros ou até fotografias completamente inventadas e criadas por sistemas de inteligência artificial, colocando tudo isso em circulação como se se tratasse de situações verdadeiras e efetivamente ocorridas.


Com isso, a matéria-prima utilizada para as mais sensacionalistas narrativas perdeu totalmente a garantia de origem que antigamente estava associada aos grandes veículos de circulação e aos jornalistas de prestígio. Ainda que tais veículos jamais tenham sido infalíveis, havia anteriormente algum tipo de filtro editorial, hierarquia profissional e responsabilidade institucional minimamente reconhecida pela sociedade.


Em contraposição a isso, existia antigamente aquilo que se convencionou chamar de “imprensa marrom”, expressão utilizada para designar jornalistas ou publicações que recorriam à chantagem, à intimidação e à manipulação para publicar — ou deixar de publicar — determinadas matérias. Em muitos casos, publicavam aquilo que efetivamente sabiam; em outros, publicavam simplesmente aquilo que inventavam.


A grande diferença contemporânea é que os instrumentos de produção, manipulação e circulação de versões alternativas da realidade deixaram de ser monopólio de pequenos grupos especializados e passaram a estar disponíveis de maneira praticamente universal. O que antes se restringia a segmentos específicos da chamada imprensa marrom hoje encontra nas redes sociais, nos mecanismos digitais de difusão instantânea e nas ferramentas de inteligência artificial uma capacidade de alcance, velocidade e multiplicação jamais vista anteriormente.


Não estamos aqui, evidentemente, defendendo qualquer forma de censura prévia ou limitação arbitrária da liberdade de expressão, sem a qual não existe sociedade democrática. Devemos apenas reconhecer que as novas tecnologias de comunicação adquiriram dimensão e poder suficientes para exigir formas modernas de responsabilização, transparência de origem e identificação de manipulações deliberadas, especialmente quando utilizadas para fraudes, campanhas de desinformação ou destruição reputacional organizada.


Assim como, ao longo do século XX, os grandes veículos de imprensa foram gradualmente submetidos a padrões profissionais, responsabilidades jurídicas e critérios públicos de credibilidade, também o universo das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial provavelmente caminhará para mecanismos institucionais que permitam distinguir com maior clareza o fato verdadeiro, a interpretação legítima e a fabricação intencional de versões falsas da realidade.


Trata-se menos de restringir opiniões e mais de preservar as próprias condições mínimas de confiança sobre as quais toda convivência civilizada inevitavelmente se apoia. A inteligência artificial poderá, assim, vir a ser a grande parceira na melhoria da veracidade dos conteúdos divulgados.

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