Fraude no streaming, Fazenda de bets, Sequestro de perfil e Certificação musical
- Redação
- há 27 minutos
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O mercado global de streaming de música atingiu um patamar financeiro monumental, movimentando cerca de R$ 114 bilhões em 2025, de acordo com dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).
No entanto, a mesma infraestrutura digital que viabilizou a democratização do acesso à cultura transformou-se em um terreno fértil para arquiteturas criminosas altamente sofisticadas. Relatórios conjuntos da Deezer, Universal Music e da empresa de auditoria Beatdapp apontam que 10% de todas as reproduções mensais nas plataformas são artificiais.
O desvio decorrente dessas práticas drenou até R$ 11,4 bilhões do ecossistema fonográfico em um único ano. Traduzindo em métricas de consumo: 500 bilhões, dos cerca de 5 trilhões de streams globais daquele período, foram falsos. A crise se aprofunda com a emergência de duas novas modalidades operacionais: as "fazendas de bets" e o avanço sistêmico do sequestro de perfis artísticos.
Da Captura de Royalties à Especulação Externa: O Fenômeno das Bets
Historicamente, a manipulação de dados em plataformas de áudio digital concentrava-se no uso de fazendas de bots, estruturas rudimentares compostas por múltiplos celulares em ambientes precários, permanentemente programados para reproduzir faixas continuamente em contas gratuitas (freemium). O objetivo central era a retenção direta de frações de royalties distribuídos pelo Spotify e concorrentes. Todavia, os mecanismos internos de segurança das plataformas aprimoraram a identificação de picos atípicos de audiência, resultando no bloqueio ágil desses pagamentos e na exclusão dos catálogos fraudulentos, deixando os infratores sem a receita esperada.
A disrupção do modelo criminoso ocorreu quando os fraudadores desvincularam o lucro direto do pagamento de royalties, migrando a monetização para o mercado especulativo externo. Conforme investigações reveladas pelo Financial Times e pela agência Bloomberg, redes criminosas passaram a utilizar plataformas de apostas financeiras e preditivas, como a Kalshi, para lucrar com a oscilação artificial de posições nos rankings de reprodução.
O caso emblemático envolveu o cantor norte-americano Malcolm Todd, que detém uma média regular de 30 milhões de audições mensais. Sem qualquer indício de envolvimento do artista com o esquema, apostadores cravaram na plataforma Kalshi que a faixa “Earrings” — lançada originalmente em 2024 e sem motivos para novos picos de execução — alcançaria o topo do ranking Top 50 americano.
Utilizando cliques automatizados e coordenados por um alerta de movimentação suspeita detectado por usuários da própria página de apostas, o grupo gerou 500 mil reproduções em apenas 24 horas. A operação foi suficiente para que um grupo de infratores dividisse US$ 3 milhões (aproximadamente R$ 15,5 milhões) na Kalshi, antes que o Spotify detectasse a atividade artificial e removesse os streams.
A analista de mercado Chris Farias ressalta que o bloqueio rápido de receitas dentro dos serviços de áudio empurrou as organizações criminosas para fora do ecossistema de streaming, gerando fraudes de velocidade vertiginosa que põem em xeque as notas oficiais das plataformas sobre a eficácia de seus sistemas avançados de varredura.
O Sequestro de Identidade Artística via Inteligência Artificial
A segunda vertente de vulnerabilidade envolve a integridade da propriedade intelectual e o gerenciamento de metadados. O "sequestro de perfil" caracteriza-se pela invasão ou inserção não autorizada de fonogramas nas páginas oficiais de criadores legítimos, explorando falhas nos processos de verificação de distribuidores digitais de nicho e selos mal-intencionados.
O portal Digital Music News reportou o caso do pianista de jazz Jason Moran, detentor de cerca de 18 mil plays mensais. Ao checar rotineiramente sua conta do Spotify for Artists, Moran identificou um EP inteiro de indie-pop que nunca havia publicado, gerado integralmente por ferramentas de Inteligência Artificial para capturar a atenção de seus seguidores e desviar dividendos legítimos. O padrão repetiu-se com o grupo psicodélico australiano King Gizzard and the Lizard Wizard e com a cantora britânica Emily Portman, cujos fãs chegaram a parabenizá-la nas redes sociais por lançamentos sintéticos falsos.
De acordo com o jornalista musical australiano Alex Blair, o crime persiste mesmo após o Spotify disponibilizar ferramentas recentes de veto a lançamentos associados aos nomes dos artistas, uma vez que as brechas nas distribuidoras intermediárias permitem reter receitas temporárias antes da exclusão definitiva das faixas.
No cenário brasileiro, a exploração atingiu o catálogo histórico de Elis Regina. Um usuário sob o pseudônimo "Sashet", identificando-se como DJ e produtor, disponibilizou remixes não autorizados e releituras de clássicos como “Águas de Março”, “Elis, Essa Mulher” e “O Bêbado e a Equilibrista”. Em certas faixas, o conteúdo limitava-se a ruídos brancos e chiados, estruturados unicamente para atrair desavisados e ultrapassar a linha de corte de mil transmissões do Spotify, patamar mínimo para a elegibilidade de remuneração. O perfil atingiu a marca de 40 mil ouvintes mensais e permaneceu no ar por semanas.
O núcleo do debate reside na transferência do encargo de fiscalização. Em depoimento à União Brasileira de Compositores (UBC), que constatou a inexistência real do suposto DJ em canais digitais, João Marcello Bôscoli, produtor musical e filho de Elis, criticou a postura reativa das plataformas baseada no mecanismo de takedown tardio. Bôscoli comparou a fragilidade do sistema de distribuição musical à rigidez de segurança do setor bancário, apontando que as ferramentas de publicação lucram com a tração do catálogo global, mas delegam o ônus da denúncia e o prejuízo institucional aos artistas e espólios familiares.
®CertCon - Instrumento de Certificação como Linha de Defesa, com tecnologia brasileira
A proliferação de conteúdos sintéticos — que, segundo dados da Deezer, compõem até 85% das reproduções fraudulentas em um universo onde até 60 mil das 150 mil canções enviadas diariamente contam com o uso de IA — impõe uma reformulação estrutural nos mecanismos de governança do setor fonográfico. Diante do colapso regulatório provocado pelo volume de uploads automáticos sem checagem robusta, o mercado começa a integrar tecnologias de rastreabilidade de ponta na origem da cadeia para asfixiar a atuação de distribuidoras mal-intencionadas.
Uma das alternativas tecnológicas desenvolvidas para mitigar essas falsificações, o uso indevido de inteligência artificial generativa e o gargalo das chamadas obras órfãs é o CertCon.
A infraestrutura, projetada pela empresa brasileira Cedro Rosa Digital em cooperação técnica com pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), atua como um ecossistema de governança de ativos musicais voltado a sanar a opacidade crônica dos dados de distribuição.
O músico e produtor Tuninho Galante, criador do CertCon e CEO da Cedro Rosa afirma que "essa infraestrutura visa ampliar a participação do maior número de criadores musicais em todo o mundo, gerando renda e inclusão, além de gerar novas camadas de metadados, permitindo o reconhecimento de ativos musicais certificados, oficiais". Conclui que "tanto os criadores quanto os usuários profissionais de música, como produtoras de TV, cinema, publicidade e games ganham uma camada de proteção e garantia de uso certificado, onde as partes envolvidas serão corretamente remuneradas".
O funcionamento do sistema baseia-se em um protocolo proprietário estruturado em 12 etapas de metadados, divididas operacionalmente entre os módulos Certifica Som e Conecta Som. Essa arquitetura executa a validação e a amarração jurídica e técnica das informações de autoria e direitos conexos antes do processo de distribuição global. Ao garantir que os metadados vinculados ao fonograma sejam blindados, legíveis e auditáveis de ponta a ponta, a tecnologia cria uma barreira contra o upload de faixas clonadas ou ruídos manipulados que alimentam tanto o sequestro de perfis médios quanto os picos artificiais utilizados nas fraudes de apostas externas.
A transição de um modelo meramente reativo para um ecossistema de verificação prévia e responsabilidade solidária desponta como o caminho indispensável para restabelecer a segurança financeira dos criadores e investidores, preservando a sustentabilidade de longo prazo de toda a economia criativa digital.
Estou ouvindo SILENT WISHES, com Steve k também autor.
Repertório ®CertCon, disponível para licenciamento e download na Cedro Rosa.
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