GUERRA

GUERRA
O Nelton era um cara complexo. Não bastasse o nome, escolhido num surto de criatividade dos pais, Nelma e Milton (se nascesse menina, seria Milma, a coitada), ainda era perseguido pelos amigos, todos ávidos por nadar na maré de sorte que historicamente favorecia os negócios nos quais se aventurava.
E o Nelton era, por natureza, empreendedor.Vítima constante de bullying dos colegas de escola por sua inapetência para os esportes, decidiu bem cedo que viveria à margem de campos e quadras, mas forneceria o material esportivo.
De ataduras e coletes de treino, comprados com as mesadas e alugados pros colegas, passando por aplicações de spray para alívio de dores, gelo para contusões pontuais ou mesmo água e energéticos para quem precisasse. Preço módico, serviço eficiente e disponível! Tinha menos de 15 anos quando começou a empregar outros colegas, de modo a aumentar a capilaridade dos serviços e atender a mais de um evento esportivo por vez.A capacidade de gerir o que começou como brincadeira fez aumentar a confiança em si mesmo. O garoto que sofria bullying era o maioral entre os outros agora. Era o que atraía as meninas.
Todo mundo queria ser amigo dele. Aos vinte, abriu a primeira loja. Aos 25, tinha sua própria marca de material esportivo e, aos 30, vendeu a empresa por uma quantidade indecente de dinheiro para uma grande marca internacional.
Os investimentos em fundos, criptomoedas, massas à beira da falência, empresas emergentes e outros ativos o tornaram um bilionário jovem, aparentemente sem limites para o crescimento da fortuna.Com a fortuna e o sucesso vieram os relacionamentos, as redes, o network. O poder que tem o jato particular na conquista de amigos importantes nunca foi suficientemente explicado pela ciência. O Nelton seguiu à risca a cartilha. Era competente e tinha sorte, mas também tinha uma ambição que foi aumentando à medida que conquistava mais.O casamento com a Kelly foi uma espécie de coroação.
Kelly tinha participado de um reality show de televisão e não tinha feito grande sucesso, mas conquistou o público por sua ingenuidade e simpatia, hospedadas num corpo escultural e emolduradas por uma beleza estonteante, acima de qualquer padrão preestabelecido. Humilde, aceitou posar para uma revista masculina com a intenção de ajudar os pais e, na entrevista, revelou ter sido educada para se tornar uma dona de casa exemplar e fazer as vontades do marido. O encontro com o Nelton foi intermediado por um de seus amigos influentes, ex-jogador de futebol e então atuante no mercado das apostas. Nunca mais se largaram, e Nelton apresentou à Kelly um mundo de sonhos. O gigantesco laçarote rosa embalando a mansão nos Jardins no dia do aniversário dela foi só uma pequena mostra do que poderia ainda acontecer. Kelly adorou o presente e se declarou para o recém-namorado.Juízes, ministros, influencers, grandes empresários e celebridades diversas testemunharam a festa.
O Jumbo da Emirates que levou os 350 convidados até São Paulo partiu com todos do aeroporto internacional do Rio. Mesmo os que moravam na cidade da festa. Protocolo é protocolo. E o casamento era a coroação da vida de Nelton até ali. Ocupava, proporcionalmente, um grande espaço em sua vida dedicada aos negócios extremamente bem-sucedidos.Algum embaraço na distribuição das pessoas pelo avião, em função da importância dos convidados, mas nada que a fartura de champanhe e vinhos franceses, cerveja belga, uísque escocês, água mineral dos Alpes e acepipes de chefs famosos não compensasse.
Um show ainda no avião reuniu uma famosa cantora pop internacional e um ascendente astro nacional, recém-patrocinado pelo Nelton, de modo a aliviar a consciência e a carga tributária pessoal. Padres e pastores responsáveis pela cerimônia religiosa também estavam no avião, emprestando alguma solenidade àquela extravagância.Tudo correu exatamente como planejado, o que aumentava o mérito da equipe coordenada diretamente a partir dos dois celulares do Nelton, que não se desgrudava deles e, em verdade, pouco falava, limitando-se a dar ok em checklists ou, muito eventualmente, escrever ou gravar uma pequena mensagem. Era objetivo, o Nelton.
Os helicópteros levaram os convidados para a mansão, a festa aconteceu e foi notícia em jornais e revistas de celebridades por diversas semanas, com especial destaque para o terno do Nelton, encomendado a um costureiro japonês e transportado na primeira classe de um voo da mesma Emirates, com escala em Dubai, acompanhado de um artesão responsável por eventuais ajustes. O vestido da Kelly veio de Miami, também acompanhado de uma estilista brasileira radicada lá, num voo de carreira da American Airlines. Era muito modesta, a Kelly.
Desembaraçadas com facilidade na alfândega, as roupas tiveram o destaque merecido nos festejos. Ricos e ricas desconhecidos esforçaram-se para ser fotografados junto aos noivos e seus modelos exclusivos.Nada parecia incomodar o sucesso das bodas de Nelton e Kelly. Um dos helicópteros permaneceu na mansão, de onde levaria os noivos, às 7h da manhã do dia seguinte, para o aeroporto mais próximo, de onde partiram, no próprio jatinho, para uma ilha deserta no Pacífico, descoberta num catálogo exclusivo de destinos só acessíveis a dez ou vinte famílias no mundo.
Mas, numa inocente ida ao banheiro, mais para verificar a aparência nos espelhos belgas do que para eventuais necessidades fisiológicas, foi abordado por um anônimo, igualmente rico, por óbvio, mas aparentemente um pouco desconfortável. Iniciou uma conversa pouco convincente sobre a situação econômica do país, a violência urbana e outras mazelas, assuntos que não atraíam a atenção do noivo, mais preocupado com o andamento da festa. Mas a abordagem tinha um quê de preocupação, o que ativou a curiosidade do Nelton.Não tardou e veio a verdadeira intenção. O desconhecido, mas rico, provavelmente era resultado da curadoria de convidados feita pela assessoria direta do Nelton, visto que nem ele nem a Kelly tinham uma carteira de amigos capaz de preencher as 350 vagas de convidados.A intenção era o financiamento conjunto, por diversos ricos, de uma revolução cultural capaz de alterar o gosto geral.Pensou pouco antes de responder.
Era mesmo objetivo, o Nelton. Ideia tão revolucionária quanto estapafúrdia!Tinha construído um império com a cultura vigente, gostava de futebol, samba, cultura popular. Estava se relacionando com a alta cúpula e, com dinheiro, tinha conseguido coisas inacreditáveis, inclusive as roupas viajantes.
Era um empresário. Não era banqueiro, não era mafioso e não tinha afinidade com a extrema direita e seu projeto de guerra cultural. O projeto começava com um filme, e o personagem proposto era controverso, envolvido em falcatruas notórias e sem a menor afinidade com a cultura.Se fosse pra fazer filme com gente rica, preferiria fazer com o Walter Salles.— Tô fora! — disse, ajeitando o colarinho bordado com fios de ouro.Era rico, tinha amigos influentes, gastava muito dinheiro com coisas fúteis e tinha acabado de se casar com uma candidata a celebridade.Mas tinha vindo de baixo e não era um filho da puta. Tinha consciência disso!Talvez daqui a mais um tempo.
Agora, estava mais preocupado em sair para a lua de mel.
– Talvez algum banqueiro aceite, recomendou sem muita convicção.
São Paulo, setembro de 2026.
Estou ouvindo a playlist Mariozinho Lago, um craque da música.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.
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