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Joana e Maluz



Era um truque, uma armadilha ou um real abandono? O fato é que Joana não sabia. Tudo começara dez meses antes. Um sábado solitário depois do fim de um relacionamento complicado. George Washington era o nome do "falecido". Casado, mentiroso, manipulador. Entre idas e vindas, durou dois anos.


E ela mergulhou naquela rotina de mulher sozinha: trabalho, faculdade, visitas à mãe, postagens no Face e mensagens das poucas amigas, no zap.

Até o fatídico sábado. A prima Vera Lúcia, a mais clarinha de uma família de negras, mulheres a absoluta maioria, ligou.


Tomou um susto com o toque do celular. Tinha saído do banho e estava pronta para maratonar uma série na Netflix.

– Oi prima, tudo bem?

– Tudo.

– Vai fazer o que hoje?

– Tava me preparando pra ver série.

– Um sábado à noite de novembro, é mês da Consciência Negra, mulé!

– Você sabe que eu não tô no pique.

– Quem vive de passado é museu. Esquece aquele cara.

– Já esqueci.

– Não parece. Mas olha só. Tem um pagode hoje no Clube Heliopólis. Vai ter Bruninho de Morro Agudo e As Marvilhosas de Tinguá. Vamos!?


Foi. Mais do mesmo. Primos afim de ganhar alguém, baldes de puro malte no gelo, uma droguinha ou outra, coisa que ela não curtia.

Até tudo mudar. O ar ficou mais denso. O grupo que tocava mudou o ritmo. E Joana viu no meio do salão um anjo cor de jambo, flutuando num inacreditável vestido dourado, mandando ver na dança do passinho, combinando samba e funk.


Joana Baptista de Souza, nascida e criada em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, periferia do Rio de Janeiro, nunca tivera, até então, interesse amoroso por pessoas do mesmo sexo.

Tudo mudou nessa hora.


Há um momento nos bailes de periferia em que os grupos dão um tempo. Os artistas vão beber água. Comer uns petiscos. Descansar um pouco. Rola música mecânica. Às vezes um telão.

Foi neste momento que Joana chegou perto de quem – e ela nem desconfiava disso – seria o grande amor de sua vida.

E você sabe, caro leitor, o que ela disse?

Claro que não.

Disse simplesmente: oi.


Os olhos caramelo fitaram a menina por uma fração de tempo, que para Joana foi um infinito, e com um sorriso que desfaria guerras, ela disse: oi, eu sou Maria Luz, me chamam de Maluz e eu gosto de dançar.


A partir daí tudo aconteceu. Troca de números de telefones. Bares. Encontros em casa. Táxis. Hotéis. Praia. Pousada em Visconde de Mauá. Gosto musical parecido: MPB e samba, funk no fim de festa. Cervejinha na happy hour, tequila às vezes, com borda de limão e sal, é claro. Contas divididas ou não.E nas poucas ocasiões em que iam para a casa de uma ou outra, comidinha feita e louça lavada pela anfitriã.


Papo bom, toques carinhosos, sexo perfeito.

Até que de repente a amada some. Não atende as ligações. Nem responde às mensagens.

Joana ainda não sabe. A sua amada partiu.


Não para outra cidade, estado, país ou outro amor. Nem por vontade própria.

O soco no estômago veio por um programa de TV, que Joana via meio distraída, durante o intervalo de almoço, num dia de semana qualquer.


Maluz, Maria Luz de Almeida, dançarina, atriz, cantora, artista performática, foi assassinada pelo ex noivo, Lucair João de Oliveira Castro, sargento do Exército Brasileiro, num surto de ciúme, por acreditar que ela estava tendo um caso com outro homem.


Jorge Cardozo

 

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