Memória importante a ser preservada: O Positivismo.

No cenário intelectual da França do século XIX, Auguste Comte destacou-se como um pensador que revolucionou as ciências sociais ao propor uma abordagem científica para os fenômenos da sociedade. Isto correspondeu à época em que as ciências exatas e naturais ganhavam extraordinário impulso, na esteira do Iluminismo e dos avanços científicos dos séculos anteriores.
Comte foi uma personalidade complexa. Viveu períodos de extrema produtividade intelectual e outros de grave crise pessoal, chegando a ser internado. Homem de sólida formação matemática, estudou na prestigiosa École Polytechnique de Paris e posteriormente lecionou matemática. Essa formação contribuiu decisivamente para sua tentativa de aplicar ao estudo da sociedade o rigor e os métodos que caracterizavam as ciências.
Dessa concepção nasceu a sociologia — termo que o próprio Comte consagrou — e, de maneira mais ampla, o movimento filosófico conhecido como positivismo. A ambição era estender uma abordagem científica não apenas à compreensão da sociedade, mas também à política e à organização do Estado.
Para Comte, o Estado deveria desempenhar papel relevante na promoção do progresso, sem prescindir da ordem. Sua concepção de sociedade era bastante estruturada, inclusive em classes e funções, embora admitisse mobilidade baseada no mérito e no conhecimento. Daí a importância atribuída à educação, à ciência e à formação intelectual.
Na fase final da vida, seu pensamento assumiu dimensão fortemente espiritual. Comte desenvolveu a chamada Religião da Humanidade, uma religião sem Deus no sentido tradicional, mas dotada de ritos, calendário, celebrações e personalidades reverenciadas por suas contribuições à humanidade. A própria Humanidade tornava-se o “Grande Ser”e a “Razão” sua deusa.
Essa evolução contribuiu para uma divisão entre os seguidores de Comte. De um lado, aqueles que enfatizavam sobretudo sua filosofia científica, social e política; de outro, os que aderiram também à dimensão religiosa de sua obra.
Por sua ligação com a École Polytechnique e pelo prestígio alcançado nos meios intelectuais, o pensamento de Comte encontrou público altamente qualificado. Seus discípulos e leitores contribuíram para disseminá-lo muito além das fronteiras francesas.
No Brasil, o positivismo chegou por diferentes caminhos, civis e militares. Encontrou ambiente particularmente fértil nas escolas de engenharia e no ensino militar, instituições fortemente influenciadas pela tradição científica francesa. Entre seus principais divulgadores estiveram Benjamin Constant, Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes.
Benjamin Constant, professor e militar, desempenhou papel importante na difusão dessas ideias entre oficiais que participariam da implantação da República, da qual foi o primeiro Ministro da Guerra e, em seguida, da Instrução Pública. Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto não podem ser classificados simplesmente como positivistas ortodoxos, mas o ambiente intelectual e militar em que se formou a República estava profundamente marcado por conceitos associados à nova corrente.
O positivismo também adquiriu expressão regional. No Rio Grande do Sul, por exemplo, influenciou decisivamente Júlio de Castilhos e uma tradição política que deixaria marcas duradouras na história local, misturando no chamado Castilhismo traços do positivismo e do tradicional caudilhismo sulista.
No caso brasileiro, parte dessa herança traduziu-se em forte nacionalismo, valorização do Estado como promotor do desenvolvimento, presença de empresas e instituições estatais em setores considerados estratégicos e ênfase na meritocracia e na formação técnica dos dirigentes. Essa concepção nem sempre caminhou em perfeita sintonia com o princípio democrático segundo o qual cada cidadão possui igual peso político expresso pelo voto.
A influência positivista sobre a República brasileira deixou também uma marca extraordinariamente visível: a bandeira nacional. O lema “Ordem e Progresso” deriva diretamente do pensamento de Comte e de sua conhecida fórmula: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. Raimundo Teixeira Mendes teve papel central na concepção da bandeira republicana, com a colaboração de Miguel Lemos, Manuel Pereira Reis e do artista Décio Villares.
A vertente religiosa do positivismo também floresceu no Brasil. Em 1881, Miguel Lemos e Teixeira Mendes fundaram a Igreja Positivista do Brasil. Anos depois seria erguido, na atual Rua Benjamin Constant, nº 74, na Glória, no Rio de Janeiro, o Templo da Humanidade. Sua pedra fundamental foi lançada em 1891 e o edifício inaugurado em 1º de janeiro de 1897.
O templo tornou-se um dos mais importantes testemunhos materiais da presença do positivismo na formação política, intelectual e institucional brasileira. Ali se encontram não apenas referências à Religião da Humanidade, mas a memória de personagens e acontecimentos intimamente relacionados à construção da República.
A ligação entre os positivistas brasileiros e a França permaneceu intensa. Os brasileirosEdmundo e Paulo Bittencourt participaram da preservação da memória de Comte em Paris, enquanto, no Brasil, a Igreja Positivista manteve viva uma tradição que em poucos países alcançou expressão comparável.
O Positivismo deve também ser compreendido em meio às grandes inquietações do século XIX que geraram os movimentos utilitaristas, socialistas, comunistas, anarquistas, todos procurando reformar ou eliminar o capitalismo.
É impossível compreender plenamente a formação da República brasileira sem conhecer a influência exercida pelo positivismo. Por isso, a preservação do Templo da Humanidade, na Rua Benjamin Constant, não interessa apenas aos seguidores de uma corrente filosófica ou religiosa. Trata-se da conservação da memória de um movimento que interferiu profundamente nos rumos da nação brasileira e deixou suas marcas na política, nas instituições, na formação de gerações de civis e militares e até no mais conhecido de nossos símbolos nacionais.
Preservar o Templo da Humanidade e seu acervo é, portanto, preservar uma parte da história do Brasil. Conhecer essa história não exige aderir ao positivismo. Exige apenas reconhecer que compreender o Brasil passa também por compreender as ideias que ajudaram a formá-lo.
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