O Cordão Azul versus o Cordão Encarnado

Os mapas divulgados depois do primeiro turno das eleições de 4 de outubro voltaram a desenhar, com nitidez quase didática, a imagem de dois Brasis. Grandes manchas azuis aparecem no Sul, Sudeste e no Centro-Oeste, enquanto o vermelho predomina amplamente no Norte e Nordeste: parece haver uma fronteira política atravessando o país.
Outros mapas — de renda, arrecadação, dependência de transferências públicas ou presença do Bolsa Família — produzem desenho semelhante. A coincidência não deve ser tomada como explicação automática do voto, mas tampouco pode ser ignorada. Ela remete a uma questão antiga: até que ponto o Brasil é, de fato, um só país?
A ideia de um Brasil dividido é recorrente em nossa sociologia. Uma de suas formulações clássicas está em Os Dois Brasis, de Jacques Lambert, publicado no Brasil em 1959. Lambert descrevia a convivência entre um país urbano, industrializado e em acelerada modernização e outro ainda marcado por estruturas econômicas, sociais e políticas arcaicas.
Essa leitura dualista seria fortemente questionada em 1972 por Francisco de Oliveira, em Crítica à razão dualista. Para ele, o Brasil moderno e o Brasil atrasado não eram dois organismos independentes. Eram partes do mesmo processo. O setor atrasado garantiria a sobrevivência do setor moderno, fornecendo mão de obra e alimentos baratos e permitindo determinada forma de acumulação no setor urbano-industrial.
O debate se inseria no ambiente intelectual influenciado pela Cepal e pelas teorias estruturalistas e da dependência. Raúl Prebisch foi uma de suas figuras centrais; no Brasil, Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais dariam novas dimensões à discussão.
Em 1974, Edmar Bacha encontrou uma imagem que entraria definitivamente no vocabulário político brasileiro: Belíndia. O Brasil seria uma combinação imaginária de Bélgica e Índia — uma pequena parcela rica e moderna convivendo com uma enorme população pobre. Era uma caricatura, naturalmente, mas caricaturas funcionam quando exageram algo que todos reconhecem.
Essas discussões não ficaram confinadas à universidade. Décadas mais tarde, parte daquela geração teria participação decisiva na construção do Plano Real. No governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso reuniu nomes como Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Pedro Malan em torno de uma engenharia econômica que finalmente conseguiu derrotar uma inflação que atormentava o país havia décadas.
Curiosamente, o Partido dos Trabalhadores, então principal força de esquerda na oposição, combateu várias das medidas que formaram o Plano Real. Poucos anos antes, na Constituinte, a bancada do PT também votara contra o texto final da Constituição de 1988, embora seus parlamentares a tenham assinado. São episódios que lembram que até consensos nacionais muitas vezes começam como objeto de feroz controvérsia.
Essa divisão brasileira, porém, pode ser observada por outro prisma, talvez ainda mais revelador: a literatura.
Na virada dos anos 1940 para os 1950, O tempo e o vento, de Érico Verissimo, reconstrói a formação do Rio Grande do Sul por gerações marcadas por guerras e conflitos fratricidas. Em 1956, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, mergulha num Brasil interiorano de jagunços, lealdades, vinganças e códigos próprios, incorporando definitivamente aquele sertão tão diferente da vida urbana ao imaginário nacional.
Na década de 1960, Quarup, de Antonio Callado, transforma em literatura o idealismo reformista, as tensões sociais e a radicalização política que que sucederam ao golpe de 1964.
Então, em 1971, Ariano Suassuna publica O Romance d’A Pedra do Reino. É ali que talvez encontremos uma das mais divertidas e, ao mesmo tempo, profundas metáforas para a nossa dificuldade de escapar da polarização.
Quaderna, personagem principal, sonha ser reconhecido como um gênio da raça brasileira. Ao seu redor estão dois mestres que representam visões quase inconciliáveis do país. De um lado, Clemente, no livro referido como “mulato e pernóstico”, intelectual radical de esquerda, ligado ao Cordão Encarnado. Do outro, Samuel, louro, descendente de holandeses, monarquista de direita, aristocrático, ligado ao Cordão Azul. Entre ambos está Quaderna, absorvendo, misturando e incorporando em si a dupla influência.
O azul e o encarnado remetem às antigas cavalhadas, nas quais cristãos e mouros se enfrentavam em campos opostos. Suassuna transforma a disputa numa alegoria do próprio Brasil: dois lados que se combatem apaixonadamente, cada qual convencido de representar a verdadeira essência nacional.
É difícil olhar para os mapas eleitorais deste outubro de 2026 sem lembrar dessa imagem.
Mudaram os candidatos, os partidos, as circunstâncias históricas e os meios de comunicação. Permaneceram os cordões. Um Brasil veste azul; outro, encarnado. E cada lado parece convencido de que o outro não apenas está errado, mas representa uma ameaça à própria ideia de país.
O problema começa aí. A existência de visões diferentes é da essência da política. Nas democracias, a prevalência de uma ou de outra ocorre pelo voto e dentro de regras institucionalizadas. Nos regimes autocráticos, também acaba ocorrendo — apenas demora mais e costuma cobrar um preço social muito maior.
O Brasil irá agora ao segundo turno. Um dos cordões vencerá. O outro perderá. Mas nenhum deles desaparecerá no dia seguinte.
Esta é a principal lição que nossos mapas, sociólogos e romancistas podem nos oferecer. Depois da disputa, o país precisa voltar a se encontrar. Daqui a dois anos haverá novas eleições; depois, outras. As eleições sempre produzirão vencedores e derrotados.
O que não pode mudar a cada eleição é o rumo maior: construir um país mais culto, mais justo, economicamente mais sólido, capaz de formar capital, reduzir suas vulnerabilidades e enfrentar as transformações tecnológicas e climáticas que se aceleram no mundo.
Azul ou encarnado, o cordão vencedor deveria lembrar que governa também para o outro, porque, no final, o Brasil continua sendo – e sempre será – um só.
Estou ouvindo a playlist Lenine, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Monarco e Beth Carvalho cantam Mário Lago.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.
Leia outros artigos de José Luiz Alquéres no portal CRIATIVOS!
Chamada
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.
Estou ouvindo a playlist Rio Antigo, música.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.





















Comentários