O passado retorna para trazer confiança
- Luiz Inglês

- há 9 horas
- 3 min de leitura

Outro dia li uma notícia alvissareira! Nestes tempos horrorosos que vivemos, fiquei sabendo que os países nórdicos chegaram a uma conclusão inesperada.
Após anos de forte digitalização das escolas, revelaram-se resultados considerados decepcionantes. Suécia lidera este movimento embora Finlândia também esteja adotando movimento semelhante.
A partir do início do novo século XXI, a Suécia foi o país que mais digitalizou a educação. Tablets, laptops, notebooks, redução do uso do livro impresso, etc, foram adotados em todo o país. E o resultado foi impiedoso: queda na compreensão de leitura por conta do uso da imagem eletrônica.
Mudanças radicais trouxeram então a educação a um novo rumo. Livros
impressos, escrita à mão, professor/a presencial, restrição do uso de celular nas escolas, etc. Estas já estão redistribuindo livros depois de décadas com laptops. Não é um abandono da tecnologia mas um novo olhar.
Tecnologia não substitui leitura profunda, escrita manual e interação
direta com professoras e professores. Telas excessivas reduzem a concentração e compreensão textual. A neurociência já diz que escrever à mão e ler em papel gera melhor compreensão que telas.
É o passado retornando com atitudes de eficácia comprovada. Certas situações exigem um olhar mais eficiente. Quantas coisas não estamos deixando para trás porque são consideradas antiquadas. O novo deve sempre prevalecer. Deve mesmo?
Vou citar outro exemplo e desta vez aconteceu comigo. Saio de uma Europa nórdica para vir para o interior de São Paulo na serra da Bocaina. Moro na roça e tenho, entre minha casa e o asfalto, três quilômetros de estrada de chão, uma subida de terra batida como sempre foram as estradas de interior. Longe de grandes centros urbanos, a cidade mais próxima – a dez quilômetros de distância – tem dez mil habitantes. Eu e meus vizinhos do vale, estamos muito próximos à natureza ainda com presença de animais silvestres e muita mata. Viemos para cá, justamente para fugir do concreto armado, da violência, do estresse, dos decibéis altíssimos, da insegurança, da falta de solidariedade, da poluição...
Eis que, certo dia (há poucos anos atrás), fomos procurados pela prefeitura local que nos apresentou um projeto de obra rodoviária, no qual intervenções seriam implementadas para a modernização de nossa singela estrada. Seria toda asfaltada com oito metros de largura (a nossa não chega nem à metade), teria guard-railem toda sua extensão com placas indicativas e pintura de faixas no centro.
Agora percebam o seguinte: normalmente uma estrada de chão batido,antiga como a nossa, provém de caminho de tropas de burros. Este caminho foi alargado para, décadas depois, passar carroça. O tempo foi passando e um fusquinha se atreveu a percorrer a estrada. Um trator então melhorou a passagem e pequenosveículos se aventuravam a ir e vir por estas paragens. Se fecharmos os olhos até vemos o raio de uma curva em qualquer estradinha de interior. Curvas sempre bem fechadas pois era o bastante. Para se implementar asfalto com oito metros de largura, o raio das curvas deve ser muito maior, especialmente em caminhos em aclive como é nosso caso.
Imaginem a obra que teria de ser feita para transformar uma estradinha de chão numa rodovia moderna. E temos apenas três quilômetros pois nosso vale é pequeno, termina numa porteira da última propriedade.
Com o tempo meus vizinhos foram chegando. Todos a procura de silêncio, paz e de proximidade com a natureza. Hoje somos treze. O vale é modesto, mas lindo, e todos se conhecem. Temos grupo de Whatsapp para qualquer emergência ou noticias referentes a própria estrada. Fazemos mutirões mensais para reabrir e aprofundar as valetas, cortar o mato lateral e tapar algum buraco.
Agora imaginem nossa reação ao conhecer o projeto da prefeitura. Fizemos uma reunião e as obras foram sumariamente rejeitadas. Nosso silêncio iria acabar. Carros e motos viriam poluir nosso paraíso, irresistivelmente atraídos pelo asfalto. Escrevemos um ofício para a prefeitura e agradecemos muito a intenção mas que recusaríamos a proposta pedindo que outro local mais necessitado fosse atendido.
Talvez localidade onde crianças precisem de melhor passagem para ônibus escolar. Ou talvez contribuir para melhoria de passagem para uma ambulância em caso de emergência ou escoamento de produção local como o leite. Insistimos que gostaríamos muito de uma reforma – e apenas isso – mas sempre mantendo a natureza rural do nosso caminho. E assim estamos felizes com nossa estrada de barro que faz lama nas chuvas e poeira na seca.
Mais uma vez o passado se impõe!
Luiz Inglês
Março 2026
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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