O que Insiste em Voltar
- David Gertner

- há 8 horas
- 3 min de leitura

Entre o que dói e o que ilumina, nossa memória escolhe caminhos que nem sempre escolhemos.
Há lembranças que entram sem bater.
Sentam-se à mesa da consciência como visitas indesejadas — e se recusam a sair.
Outras, que gostaríamos de manter vivas como fotografias na parede, desbotam.
Escorrem pelos dedos da memória como água que não se deixa segurar.
É um paradoxo silencioso da condição humana:
o que mais nos feriu parece gravado em pedra;
o que mais nos fez felizes, muitas vezes, foi escrito na areia.
Por quê?
Talvez porque o cérebro, esse guardião primitivo da sobrevivência, tenha aprendido que a dor precisa ser lembrada. A alegria, não.
A dor ensina onde não pisar.
A alegria apenas celebra onde já estivemos.
O trauma deixa cicatriz — e cicatrizes são inscrições permanentes no corpo e na alma.
A felicidade, ao contrário, é leve. Ela passa como vento.
E o vento não deixa marca.
Mas há algo ainda mais profundo:
as experiências dolorosas tocam nossa identidade.
Elas nos obrigam a responder perguntas que preferiríamos não fazer.
Quem sou eu depois disso?
O que isso diz sobre o mundo?
Posso confiar novamente?
A alegria nos expande.
O trauma nos redefine.
E aquilo que redefine tende a permanecer.
No entanto, não é verdade que as alegrias se perdem completamente.
Elas se transformam.
Às vezes não aparecem como lembrança nítida, mas como inclinação da alma.
Um gesto de ternura aprendido.
Uma confiança silenciosa no amor.
Uma capacidade de sorrir mesmo depois da queda.
Talvez não nos recordemos do riso exato, da conversa precisa, do abraço específico —
mas algo daquela luz permanece incorporado.
O problema é que o sofrimento fala alto.
A felicidade fala baixo.
A dor grita para ser reconhecida.
A alegria sussurra.
E somos naturalmente atraídos pelo que grita.
Mas há um risco em permitir que apenas o que doeu nos defina.
Porque, se não cuidarmos, passamos a contar nossa história apenas pelas feridas.
E não somos apenas as nossas cicatrizes.
Somos também os instantes de coragem que ninguém viu.
Os afetos que nos sustentaram.
As pequenas vitórias invisíveis.
Os momentos simples que, embora não tenham feito barulho, sustentaram a nossa permanência no mundo.
Esquecer totalmente talvez seja impossível.
E talvez nem seja desejável.
Nem tudo é escolha.
Alguns de nós nascem com um sistema de alerta mais sensível.
O cérebro grava com mais intensidade aquilo que ameaça.
A ansiedade amplia o que dói.
A depressão escurece o que já estava frágil.
Não escolhemos nossa herança emocional.
Não escolhemos o temperamento com que chegamos ao mundo.
Alguns já chegam atentos demais, vigilantes demais — como se a vida exigisse cautela constante.
A atenção seleciona o que examina.
E aquilo que examinamos com frequência ganha peso, ganha cor, ganha permanência.
Memória e atenção caminham juntas.
O que tememos recebe mais foco.
O que recebe mais foco deixa mais marca.
Esse ciclo nem sempre é voluntário.
Mas é aqui que começa a parte que nos pertence.
Não podemos impedir que certas lembranças retornem.
Não podemos desligar a sensibilidade que nos constitui.
Mas podemos, pouco a pouco, decidir quanto espaço conceder a cada voz interior.
A liberdade talvez não esteja em controlar o que surge.
Está em não permitir que apenas isso determine quem somos.
Não somos apenas o que nos marcou.
Somos também o modo como escolhemos nos relacionar com o que nos marcou.
Há memórias que voltam porque doeram.
Mas há forças que permanecem porque sustentaram.
No fim, maturidade talvez seja isso:
reconhecer a própria predisposição sem se render a ela.
Não negar a sombra.
Não absolutizá-la.
Porque lembrar não é apenas reviver.
É interpretar.
E interpretar é um ato de consciência.
Talvez não sejamos livres para escolher o que retorna.
Mas ainda somos livres para escolher o significado que continuará vivendo dentro de nós.
E é nessa tensão — entre o que herdamos e o que elaboramos —
que a verdadeira liberdade humana se revela.
David Gertner, Ph.D., nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado e doutor pela Northwestern University. Escritor e ensaísta, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo, silêncio e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e prepara dois novos livros com lançamento previsto para 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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