O que une Freud e Machado de Assis?
- Lais Amaral Jr

- 3 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.

O pesquisador do narcisismo Adelmo Marcos Rossi revela em seu livro O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo, que diversos conceitos de Freud estão presentes nos escritos machadianos sob outros nomes. Sendo que a possibilidade de o grande autor nacional ter lido Freud, é zero. Nenhuma chance de o ‘Bruxo do Cosme Velho’ ter perambulado pela velha Viena de então.
A descoberta inédita de Adelmo Marcos Rossi, que é mestre em Filosofia, graduado em Psicologia vem depois do outro livro seu A Cruel Filosofia do Narcisismo (2021). Ao se debruçar sobre a extensa e diversificada obra machadiana, ele mostra, os conceitos nos quais o escritor se apoiou.
Adelmo Marcos Rossi é engenheiro civil (UFES, 1980), mestre em Ciência de Sistemas (Tóquio, 1990), psicólogo (UFES, 2010), mestre em Filosofia (UFES, 2015) e microempresário. Dedica cerca de 15 anos a estudar psicanálise. Fundador do Grupo de Pesquisa do Narcisismo.
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CRIATIVOS - O ineditismo da sua pesquisa até poderia abrir uma interessante e divertida discussão sobre o tema da psicanálise, seus conceitos etc. O senhor concorda, Mestre Adelmo?
ADELMO MARCOS ROSSI - Acontece que os conceitos da psicanálise são os mesmos com os quais vivemos cotidianamente, e nem poderia ser diferente, pois somos todos seres humanos igualmente imersos na cultura, por isso, esses conceitos passam despercebidos, em “O narcisismo”, de 1914, Freud escreveu “Mais uma vez teremos que descobrir, a partir dos exageros e distorções do patológico, o que é aparentemente simples no normal”, quer dizer, os conceitos da psicanálise são percebidos com mais agudeza quando o homem comum, imerso na cultura, se torna um paciente doente que saiu da norma. Era para esses casos que Machado de Assis tinha os olhos voltados, e justamente o Narcisismo, a vaidade humana, causa de sucesso e adoecimento, foi o ponto de partida dele. Em todos os contos são os desvios da norma, pelo Narcisismo, que incide o foco.
CRIATIVOS - O Narcisismo é essencialmente cruel?
ADELMO MARCOS ROSSI - Narcisismo é o amor e o cuidado por si mesmo e pelos próximos, e não poderia ser, a princípio, cruel. Acontece que “nem toda forma de amor vale à pena”, o amor é cego, perde a normal função do real, acontece as loucuras de amor, e, então, visto de fora, o amor pode vir a ser cruel, e é o que mais tem acontecendo ultimamente, com as denúncias de violência doméstica, personalidade narcísica: depois que alguém sai de uma relação, e se vê de fora dela, vai compreender que fazia coisas que, em outra situação, jamais faria. Não é o Narcisismo, nem o amor, em si mesmo, que é, portanto, cruel, mas o emprego que a gente termina fazendo dele e até onde a gente se deixa levar em função do amor.
CRIATIVOS - A objetividade da ciência e a subjetividade da arte se juntam aqui, unidas pelos geniais Freud e Machado. Na sua opinião, a Literatura se aproveita mais das conclusões da Psicologia ou esse jogo dá empate?
ADELMO MARCOS ROSSI - Particularmente, mais adiante na minha vida, optei pela literatura, por ser mais ampla do que todas as demais áreas: filosofia, religião, psicanálise, etc. A literatura é aberta, como escreveu Georges Bataille, “ela pode dizer tudo”. “Só a literatura podia desnudar o jogo da transgressão da lei – sem a qual a lei não teria fim – independentemente de uma ordem a criar. A literatura não pode assumir a tarefa de organizar a necessidade coletiva. Não cabe a ela concluir: ‘aquilo que eu disse nos obriga ao respeito fundamental pelas leis da cidade’; ou, como faz o cristianismo: ‘aquilo que eu disse (a tragédia do Evangelho) nos coloca na via do Bem’ (ou seja, na prática, da razão). A literatura é mesmo, como a transgressão da lei moral, um perigo. Sendo inorgânica, ela é irresponsável. Nada repousa sobre ela. Ela pode dizer tudo” (Geoges Bataille, A literatura e o mal, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 22). A literatura não significa nada, não obriga ao respeito a nenhuma lei, nem coloca na prática da razão. O louco pode escrever o que quiser. O neurótico também. A responsabilidade vai estar do lado do leitor.
CRIATIVOS - Mestre Adelmo, embora haja um ponto de interseção aparente entre o 'Bruxo do Cosme Velho' e o 'Mestre de Viena', eles foram geniais em áreas distintas. Na sua opinião, eles ocupam o mesmo nível destinado às grandes celebridades universais?
ADELMO MARCOS ROSSI - Em minha opinião pessoal, Machado é superior a Freud. Porque foi escritor literário, e a literatura é mais ampla do que a psicanálise. É arriscado afirmar, mas Machado poderia ser tido como o maior escritor, quando se considera que ele incluiu na sua literatura, além da fantasia, própria da arte literária, incluiu também os conceitos que governam a natureza humana, depois descobertos pelo médico Freud, e não me consta que nenhum outro escritor tenha feito isso, inclusive, é um desafio aos pesquisadores: procurarem qual outro.
CRIATIVOS - Fale algo que seja de seu interesse que não foi perguntado.
ADELMO MARCOS ROSSI - O que posso afirmar é que a compreensão diferenciada que alcancei se deve a um fator rudimentar: como engenheiro, empreendedor, venho do território da realidade, e não do mundo da fantasia, que é um mundo que fica fora da realidade, então, como engenheiro prático que investiu 20 anos no submundo da subjetividade atuando também dentro da psicanálise, e que, depois, saiu dela, e passou a vê-la de fora, e pôde vê-la como sendo o narcisismo de Freud, descoberto tardiamente em 1914, aos 58 anos de idade, quando o introduziu na psicanálise, quer dizer, não existia propriamente “o inconsciente”, mas o “inconsciente desejo de sucesso”, de Freud, então, a partir daí, com o conceito de Narcisismo em mãos, facilitou-me ver como foi mais fácil, e genial, a ideia de Machado de Assis, que, justamente, tomou o Narcisismo, o desejo de ser bem-sucedido e se destacar, como ponto de partida de seu pensamento, aos 20 anos, quando empregou a expressão “êmulo de Ovídio”, o autor de “Narciso e Eco”, quer dizer, Machado quis se ver com um novo Ovídio, que deixaria seus Ecos impressos nos livros, que foi o seu legado, e ainda dizendo que, no futuro, seria publicado um “pequeno livro” no qual se revelaria a “psicologia nova” que ele legou, e do qual ele diz “reúno em mim mesmo a teoria e a prática”.
Ficha técnica:
Título: O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo
Autor: Adelmo Marcos Rossi
ISBN: 978-65-5389-082-4
Páginas: 456Preço: R$ 120
Onde encontrar: Amazon
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
Evandro Lima com 2 de seus melhores parceiros: Lais Amaral Jr ( A Dança da Porta Bandeira e Sergio Fonseca ( O Verso que Nunca Fiz)
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