O Silêncio
- Luiz Inglês

- 24 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Estou começando a ler “Pape Satan Aleppe” de Umberto Eco, seu livropóstumo de crônicas. E como sempre faço – e acho que todos – leio a capa, as orelhas e contra-capa, antes de mergulhar na leitura propriamente dita. E na contra-capa encontrei referências ao siléncio. Diz parte do texto: “o silêncio está prestes a se tornar um bem caríssimo... e, de fato, só está ficando à disposição de pessoas abastadas que podem pagar mansões em meio ao verde ou de místicos da montanha com mochilas nas costas”...
Exageros à parte, percebemos que realmente o silêncio está rareando. O texto também sugere (futuramente) a compra de pacotes de silêncio. Seja em quartos abrigados de ruídos ou simplesmente o desligar do audio de aparelhos sonoros.
Sem dúvida a agressão sonora está ficando insuportável. É um desgaste físico e mental. Afeta a saúde, altera o comportamento e modifica a qualidade de vida. São buzinas e motores, está nas obras e construções, nas sirenes, nas músicas que explodem o tímpano nos bares que ocupam calçadas, nos aparelhos domésticos, nas campainhas que tocam nas portas das garagens, etc.
Nas grandes cidades não existe pausa. À noite quando aparentemente decaem os ruídos, qualquer caminhão de recolhimento de caçambas nos desperta com sua correntes chacoalhando criando mais uma investida na pretensa calada da noite. Sem comentar a campainha intermitente que é acionada quando estes veículos pesados dão marcha-ré.
O cérebro humano não foi feito para processar ruídos contínuos. Precisamos do silêncio para nossa recuperação cognitiva. O sistema nervoso ativa hormônios de alerta como a adrenalina. O sono também é prejudicado. O estresse sonoro eleva a ansiedade e reduz a tolerância. Nossa saúde vai pro brejo.
Trouxe o assunto à baila, pois, apesar de não ser milionário e nem ser místico com mochilas nas costas, vivo no interior e recebo esta dádiva dos ruídos naturais. Em alguns momentos os pássaros preenchem o silêncio com seus gorjeios. E, ao invés de trazer estresse, carrega em seus sons a percepção do belo. O vento farfalhando as folhas das árvores traduz uma sensação de pertencimento. Os sapos coaxando na beira dos córregos nos conecta talvez com nossa infância. São ruídos naturais que compõem a paisagem sonora. Sons que não invadem, que não estressam, que não nos deixam em alerta. Esses sons criam uma impressão ancestral de segurança e acolhimento.
E de repente, o silêncio propriamente dito, surge. Parece que o tempo para. Tudo queda imóvel. Nos conectamos conosco, o nosso eu interior. É a acústica do bem-estar. Do auto-reconhecimento. A natureza restaura. O silêncio revela tanto ausência como presença. Os pensamentos fluem na falta do som. Sua existência acentua nosso entendimento como uma meditação. Nosso corpo sincroniza-se com o todo. Talvez a sonoridade de água corrente distante de um riacho próximo, oxigenando a água na passagem pelas pedras que contornam, nos traz uma paz inalcançável na cidade. Então vem a contemplação e o entendimento de estar vivo, respirando ar puro e integrado ao ambiente.
Mas verdade seja dita. Minha experiência recente me aponta dois desequilíbrios sonoros, aqui na roça. Como outubro e novembro é tempo de jaboticabas, tenho anualmente, neste época, a chegada das maritacas, minhas sócias nas frutas. É um estardalhaço inominável. E nesta mesma época, conversas são interrompidas com o canto das cigarras cujos machos procuram a fêmea através de suas cantorias. E como disse La Fontaine em sua fábula, elas cantam a primavera toda.
A grande diferença destes dois exemplo de barulho ensurdecedor, é que não trazem estresse. São naturais. Entendemos que a natureza segue seu curso, e com isso sabemos que já já o silêncio volta e com ele, nossa paz.
Luiz Inglês
Novembro 2025
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