O Tatu – Elizabeth Bishop , tradução de Jorge Pontual
- Jorge Pontual

- 21 de jan.
- 1 min de leitura

O Tatu
Estamos na estação
de toda noite ver
subir um frágil e ilegal balão.
Alto, até se perder,
voando atrás de um santo
que aqui tem devoção,
o papel pulsa e se enche de luz
igual a um coração.
Contra o céu é difícil
separá-lo dos astros —
ou melhor, planetas — coloridos:
Vênus se pondo, ou Marte,
ou o pálido verde.
Com o vento,
arde e vacila, treme inteiro,
e navega entre os braços
em forma de pipa do Cruzeiro,
fugindo, sumindo, solene
e firme nos deixando,ou,
numa lufada contrária,
súbito perigo se tornando.
Ontem à noite caiu um grande.
Explodiu como um ovo de fogo
no morro atrás da casa. As chamas desceram.
Vimos o casal
de corujas voar mais e mais alto,
um remoinho preto e branco
manchado de rosa embaixo,
até gritarem longe do barranco.
O antigo ninho de corujas deve ter queimado.
Com muita pressa, sozinho,
um tatu brilhante deixou a cena,
tingido de rosa, cabeça baixa, rabo baixo,
e aí um bebê coelho pulou pra fora,
orelhas curtas, para nossa surpresa.
Tão fofo! — um punhado de cinza intangível
com olhos fixos, incandescentes.
Beleza demais, enganadora!
Ó fogo cadente, lancinante grito
e uma fraca manopla fechada
ignorante contra o céu infinito!
Elizabeth Bishop Tradução: Jorge Pontual
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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