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O Tatu – Elizabeth Bishop , tradução de Jorge Pontual



O Tatu


Estamos na estação

de toda noite ver

subir um frágil e ilegal balão.


Alto, até se perder,

voando atrás de um santo

que aqui tem devoção,

o papel pulsa e se enche de luz

igual a um coração.


Contra o céu é difícil

separá-lo dos astros —

ou melhor, planetas — coloridos:


Vênus se pondo, ou Marte,


ou o pálido verde.

Com o vento,

arde e vacila, treme inteiro,

e navega entre os braços

em forma de pipa do Cruzeiro,

fugindo, sumindo, solene

e firme nos deixando,ou,

numa lufada contrária,

súbito perigo se tornando.


Ontem à noite caiu um grande.

Explodiu como um ovo de fogo

no morro atrás da casa. As chamas desceram.


Vimos o casal

de corujas voar mais e mais alto,

um remoinho preto e branco

manchado de rosa embaixo,

até gritarem longe do barranco.


O antigo ninho de corujas deve ter queimado.

Com muita pressa, sozinho,

um tatu brilhante deixou a cena,

tingido de rosa, cabeça baixa, rabo baixo,

e aí um bebê coelho pulou pra fora,

orelhas curtas, para nossa surpresa.


Tão fofo! — um punhado de cinza intangível

com olhos fixos, incandescentes.

Beleza demais, enganadora!

Ó fogo cadente, lancinante grito

e uma fraca manopla fechada

ignorante contra o céu infinito!


Elizabeth Bishop Tradução: Jorge Pontual


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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