O Tempo Não Coloca Molduras

Há momentos preciosos que só reconhecemos depois que passaram a se chamar memória.
Por David Gertner, Ph.D.
Quanto tempo dura um instante?
Menos do que uma lembrança. Às vezes, mais do que uma vida. Pode ser apenas o intervalo entre duas batidas do coração, um segundo que chega, passa e desaparece sem deixar vestígios. Ou pode dividir uma existência inteira entre antes e depois.
Num instante, alguém nasce e alguém morre. Uma criança abre os olhos pela primeira vez enquanto, em algum lugar, uma mãe fecha os seus pela última. Uma mão encontra outra mão. Um olhar se demora um pouco mais do que deveria. Duas pessoas que até aquele momento ignoravam a existência uma da outra começam uma história. Talvez dure uma noite. Talvez uma vida.
Basta um instante.
A maioria passa sem que percebamos. São milhares, milhões: uma porta que se abriu, um pássaro que cruzou a janela, uma palavra ouvida pela metade, um rosto desconhecido numa estação. Existiram e depois desapareceram.
Mas alguns ficam.
O telefone toca. Alguém diz uma frase. Chega uma notícia. Um médico faz uma pausa antes de continuar. Uma pessoa diz sim. Outra diz não. E o mundo, que um segundo antes parecia intacto, já é outro.
Talvez a vida não mude aos poucos. Talvez apenas gostemos de acreditar nisso. É mais confortável imaginar o tempo como um rio contínuo, previsível, correndo sempre na mesma direção. Mas às vezes basta uma pedra: um encontro, uma palavra, um acidente, um beijo, uma despedida. E o rio muda de curso.
David Gertner, Ph.D.
Nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de dois novos livros com lançamento previsto para 2026.
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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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