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Os mapas mudam, a paisagem permanece

há 13 minutos
4 min de leitura

Por David Gertner, Ph.D.
Por David Gertner, Ph.D.

À memória de minha mãe, nascida numa pequena cidade dos Cárpatos que permaneceu no mesmo lugar enquanto cinco países passaram por ela.


A cadeia dos Cárpatos, a segunda maior cordilheira da Europa, desenha um arco de cerca de 1.500 quilômetros através de oito países: Áustria, República Tcheca, Eslováquia, Polônia, Hungria, Ucrânia, Romênia e Sérvia.


É o que dizem os mapas. As montanhas nada sabem disso.


Não sabem onde termina a Polônia e começa a Eslováquia. Não percebem quando deixam a Ucrânia e entram na Romênia. Não reconhecem bandeiras, hinos ou soberanias. Uma encosta não se transforma em outra porque alguém traçou sobre ela uma linha.


Talvez, então, seja impreciso dizer que os Cárpatos atravessam oito países.


Os países é que atravessam os Cárpatos.


E nem sempre foram esses. Ao redor dessas montanhas houve reinos, impérios e países que pareciam destinados a durar. O Império Austro-Húngaro desapareceu. A Tchecoslováquia nasceu e depois se dividiu em República Tcheca e Eslováquia. A Iugoslávia deixou de existir; em seu território surgiram Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia do Norte, Sérvia e Montenegro.


Foi preciso redesenhar os mapas. Não foi preciso redesenhar as montanhas.


Sobre elas, a neve continuou caindo sem nacionalidade. O vento continuou atravessando os vales sem passaporte. Os rios continuaram descendo pelas encostas sem saber quantas fronteiras encontrariam antes do mar.


Só nós conhecemos as linhas. Nós as desenhamos. E talvez esse seja um dos nossos mais antigos hábitos: desenhar linhas e, depois de algum tempo, esquecer que fomos nós que as desenhamos.


Fazemos isso com territórios. Fazemos também com pessoas.


Há fronteiras que começam com uma palavra que não conseguimos perdoar. Outras nascem de uma ausência, de uma diferença, de uma antiga decepção. Algumas separam famílias. Outras transformam amigos em estranhos. Quase nunca aparecem de uma vez. Primeiro surge uma distância. Depois, um silêncio. Um dia descobrimos que entre duas pessoas que já foram próximas existe um país inteiro que nenhuma das duas sabe mais como atravessar.


Também dividimos o mundo entre os que pensam como nós e os que pensam diferente. Às vezes, a linha se torna tão rígida que conversar com quem está do outro lado parece uma concessão; compreendê-lo, uma fraqueza; atravessar a fronteira, quase uma traição.


E assim construímos pequenas soberanias: este é o meu lado, aquele é o seu; aqui estão os meus, ali estão os outros. Com o tempo, talvez já nem nos lembremos do que havia antes da fronteira.


As montanhas conhecem outro tempo. Viram impérios desaparecerem, exércitos atravessarem seus vales, povos serem separados e reunidos, vencedores tornarem-se derrotados e linhas consideradas definitivas sobreviverem apenas em mapas antigos.


Não porque sejam eternas. Também elas mudam. O vento desgasta suas pedras. A água escava suas encostas. As florestas avançam e recuam. A neve chega e desaparece.


Permanecer não é permanecer igual.


Talvez seja continuar reconhecível através das mudanças.


Também nós passamos a vida redesenhando nossos mapas. Pessoas chegam e partem. Algumas que pareciam indispensáveis tornam-se distantes. Outras, que um dia foram estranhas, acabam ocupando lugares que não sabíamos estar vazios. Mudamos de casa, de cidade, de país, de ideias, de certezas. Mudamos até a maneira como contamos nossa própria história.


E há fronteiras que um dia descobrimos que já não precisamos defender. Outras permanecem tanto tempo que esquecemos por que foram erguidas. Talvez amadurecer seja também olhar para algumas dessas linhas e perguntar se ainda sabemos o que existe do outro lado.


Os Cárpatos não responderiam. Continuariam onde sempre estiveram, com suas pedras, suas florestas, seus vales, enquanto, lá embaixo, continuamos desenhando mapas.


Talvez porque precisemos deles. Talvez porque tenhamos medo de não saber quem somos sem as linhas que nos separam.


E, sobre todas elas, a neve continua caindo.


Dos dois lados.




David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. Obteve seu Ph.D. pela Northwestern University. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, ética, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com


Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.



 

 

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