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Quando dados viram renda: tecnologia brasileira e a nova infraestrutura da economia criativa


Durante décadas, a economia criativa brasileira conviveu com um paradoxo estrutural: enorme diversidade cultural, reconhecimento simbólico internacional e, ao mesmo tempo, baixa capacidade de transformar criação em renda recorrente, formalizada e distribuída. O problema nunca foi apenas artístico. Foi — e ainda é — de infraestrutura.


A consolidação da economia criativa como setor econômico depende menos da produção de obras e mais da existência de sistemas confiáveis de identificação, certificação, circulação e remuneração dos ativos intangíveis. Sem essa base, a criatividade permanece vulnerável à informalidade, à opacidade e à captura por intermediários globais.


Com a expansão do streaming, do audiovisual sob demanda, dos games e da publicidade digital, esse gargalo tornou-se ainda mais visível. Obras circulam globalmente, mas informações essenciais — autoria, titularidade e participação nos direitos — seguem fragmentadas, incompletas ou contraditórias. O resultado é um sistema marcado por black boxes internacionais, perdas de royalties e insegurança jurídica para criadores e usuários comerciais.

É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser acessória e passa a ser determinante.


O desafio estrutural da renda criativa

Para que a economia criativa gere emprego, renda e desenvolvimento sustentável, três problemas precisam ser resolvidos de forma integrada: certificação precisa dos ativos, conexão com mercados e transparência com segurança jurídica. Sem esses pilares, a criatividade cresce em valor simbólico, mas não se converte em valor econômico distribuído.


Um estudo de caso brasileiro

Um exemplo concreto de enfrentamento desse desafio é o desenvolvimento dos sistemas Certifica Som e Conecta Som, voltados à organização da gestão de direitos autorais musicais e à conexão direta entre obras certificadas e mercados de licenciamento.


Os sistemas foram criados pela Cedro Rosa e desenvolvidos pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com apoio institucional da EMBRAPII e do SEBRAE RJ, operando como uma infraestrutura digital aplicada à economia criativa.


Atualmente, a Cedro Rosa Digital administra cerca de 5 mil ativos musicais distribuídos em cinco continentes, permitindo observar, em escala real, os efeitos da certificação correta, da organização de metadados e da conexão estruturada entre obras culturais e usos comerciais legítimos.


Identificação correta e segurança jurídica

O principal diferencial dessa infraestrutura é a identificação precisa dos ativos musicais, baseada em múltiplas camadas tecnológicas. A combinação de inteligência artificial, blockchain e processos de certificação garante consistência entre obra, fonograma, autores, intérpretes e titulares de direitos.


Esse modelo oferece segurança jurídica tanto para criadores quanto para grandes empresas de streaming, produtoras audiovisuais, agências de publicidade, indústria do entretenimento e desenvolvedores de games, que passam a operar com informações certificadas, reduzindo riscos legais, disputas de titularidade e pagamentos indevidos.


Ao enfrentar problemas recorrentes como desencontro de dados, metadados incompletos e opacidade internacional, essa arquitetura contribui para reorganizar os elos da cadeia produtiva cultural.


Microlicenciamento, micropagamentos e baixo carbono

Outro efeito central dessa infraestrutura é a viabilização de microlicenciamentos e micropagamentos, permitindo que obras gerem renda a partir de múltiplos usos específicos, distribuídos no tempo e no território.


Trata-se de uma economia de baixo carbono, baseada em conhecimento, dados e circulação simbólica, que amplia inclusão produtiva ao permitir que criadores sejam remunerados internacionalmente sem necessidade de deslocamento físico, além de impulsionar empregos indiretos em tecnologia, audiovisual, publicidade, games e educação cultural.


Infraestrutura cultural como política econômica

O estudo de caso evidencia uma mudança de paradigma: cultura deixa de ser apenas expressão simbólica e passa a ser reconhecida como infraestrutura econômica estratégica.


Em um cenário global de disputa por ativos intangíveis — dados, direitos, algoritmos e reputação —, países que dominam sistemas de certificação e gestão de direitos ampliam sua soberania cultural e econômica. O Brasil reúne condições singulares para isso: diversidade criativa, escala cultural e capacidade tecnológica instalada em universidades públicas.


Um campo em consolidação

A economia criativa brasileira já responde por cerca de 3,6% do PIB nacional. Avançar além desse patamar exige menos retórica e mais infraestrutura. Sistemas como Certifica Som e Conecta Som indicam um caminho possível: tecnologia aplicada à cultura com foco em

transparência, segurança jurídica e geração de renda.


Mais do que um caso isolado, trata-se de um sinal de maturidade institucional: a economia criativa só se consolida quando seus ativos intangíveis passam a ser tratados com o mesmo rigor técnico e econômico que qualquer outro ativo.


Classificação editorial: Study case — Infraestrutura da Cultura

Objeto de análise: sistemas Certifica Som e Conecta Som (Cedro Rosa Digital)

Desenvolvimento tecnológico: Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Apoio institucional: EMBRAPII · SEBRAE RJ



Este texto integra o pilar Direito Autoral e Propriedade Intelectual e a editoria Infraestrutura da Cultura do Portal CRIATIVOS!.




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