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Bolivarianismo e União Latino-Americana: Anti-Imperialismo x Populismo



De visões bolivarianas da integração da Grã-Colômbia a tentativas da onda rosa socialista de combater o anti-imperialismo, a história latino-americana revela uma tendência recorrente: nenhuma nação consegue desmantelar os legados estruturais do colonialismo e neocolonialismo de forma individual.


Enquanto líderes populistas implementam programas de benefícios de assistência social, suas agendas domésticas famintas por poder frequentemente exacerbam vulnerabilidades econômicas através de irresponsabilidades fiscais e impedem a cooperação econômica pan-americana.


Cartéis de serviços, como as “redes de prata” da Zona do Canal do Panamá, reformas trabalhistas internacionalmente sincronizadas como a redução da semana de trabalho de 48 horas, e coalizões continentais como a Aliança Social Continental e a Jornada Continental pela Democracia e Contra o Neoliberalismo, demonstram como a união latino-americana é vital para confrontar o neoliberalismo.


O cartaz “Unidad Latinoamericana. Habla Chávez.” foi uma tentativa de fazer o mesmo. Publicado pelo Centro de Estudos Marxistas Pedro Milesi na Universidade de Buenos Aires, é um chamado para estudantes comparecerem a uma palestra sobre unidade latino-americana em 26 de maio de 2008, no grande auditório da UBA dentro da faculdade de direito. O nome da comissão organizadora, eVet-Cimarrones, referencia o nome histórico dos quilombolas argentinos, buscando liberdade do neoliberalismo no século XXI assim como a abolição da escravatura foi buscada por Cimarrones no período colonial. Associado à organização está também o selo “M-31”, que provavelmente referencia um movimento socialista eclodido no dia 31 de um mês específico, tal como o M-26 de Cuba liderado por Fidel Castro na alvorada da revolução cubana.



 Centro de Estudos Marxistas Pedro Milesi na Universidade de Buenos Aires - palestra sobre unidade latino-americana em 26 de maio de 2008, no grande auditório da UBA dentro da faculdade de direito
 Centro de Estudos Marxistas Pedro Milesi na Universidade de Buenos Aires - palestra sobre unidade latino-americana em 26 de maio de 2008, no grande auditório da UBA dentro da faculdade de direito


O rosto do herói da independência Simón Bolívar é visto no fundo em frente a um mapa da América do Sul e atrás do presidente venezuelano Hugo Chávez, que veste uma boina com seu punho esquerdo erguido no primeiro plano. Seu propósito era simples — promover e disseminar o sonho bolivariano de união latino-americana.


O chavismo era intimamente ligado à tentativa de Bolívar de unificar países latinos, saudando suas campanhas de independência bem-sucedidas na Colômbia, Venezuela, Panamá, Bolívia e Peru, e sua proclamação da Grã-Colômbia durante o Congresso de Angostura em 1819.


Por volta de 2008, Chávez já havia sido reeleito duas vezes, com sua vitória na eleição presidencial de 1998 marcando o início da “onda rosa” — as eleições de presidentes socialistas por toda a América Latina. Lula no Brasil e Gutiérrez no Equador em 2002, Kirchner na Argentina em 2003, Evo Morales na Bolívia em 2005, Vázquez e Mujica no Uruguai em 2005 e 2009, Ortega na Nicarágua em 2006, Funes em El Salvador em 2009, todos prometeram aumento de gastos em assistência social, estatização e desenvolvimento de setores econômicos estratégicos, e carregando uma postura anti-imperialista em relação aos Estados Unidos e suas intervenções pela América Latino através do século XX.


O artigo “La unidad latinoamericana es un sueño prácticamente imposible”, publicado pelo jornal La Nación de Buenos Aires em 2009, foi escrito por Martín Dinatale após uma entrevista com o intelectual mexicano Jorge Volpi sobre o sonho de união hispano-americana bolivariana. Ele alega que Cristina Kirchner, da Argentina, apenas buscava perpetuar-se no poder — algo que também poderia ser dito sobre Chávez. Volpi argumenta que as democracias latino-americanas por muito tempo desejadas e sonhadas provocaram um desencanto, o qual causa uma desconfiança e decepção nas instituições que auxiliam o apoio a autocratas que sabotam a democracia.


Hugo Chávez, novamente, serve como um exemplo disso: no mesmo ano de 2009, ele realizou um referendo para permitir reeleições indefinidas, falando em governar além de 2030, de acordo com o The Guardian. Volpi também cita o México como um caso onde o nacionalismo frequentemente reforçado e os laços econômicos com o NAFTA levam à divisão latino-americana e resistência à “onda rosa”.


Prevalece a clássica frase de Porfirio Díaz, presidente do México no príncipio do século XX: “Pobre México! Tão longe de Deus, e tão perto dos Estados Unidos!” . E não é por acaso — as centenas de anos da América Latina sob domínio colonial e neocolonial, coagida por nações imperialistas estrangeiras a basear suas economias na exportação de matérias-primas e importação de bens manufaturados, tendo suas soberanias violadas por golpes militares financiados pelos EUA contra administrações não-submissas aos EUA, está fadada a acumular dívidas econômicas agravadas por uma ideologia recém-descoberta.


O neoliberalismo deriva da crise capitalista global dos anos 1970, quando a superprodução de capital levou à racionalização e corte de custos em empresas americanas, que por sua vez provocou o offshoring de fábricas transnacionais para países latino-americanos com baixa mão-de-obra — como as maquiladoras em Ciudad Juárez, México. A concentração e centralização de capital dentro de cada vez menos empresas cria monopólios não regulados pelo Estado que facilmente superam esforços coletivos, familiares, e indígenas através de acordos de livre comércio como o NAFTA.


 Entre o Populismo e a Base: Os Desafios da Unidade Latino-Americana contra o Neoliberalismo


“Eu vejo o futuro repetir o passado”, já diria Cazuza em “O Tempo Não Para”. É o boom da exportação que antecedeu a primeira guerra mundial voltando à cena. E não há melhor remédio do que olhar atrás para as instâncias em que a classe trabalhadora negociou sua relação com o empresariado para garantir maior controle sobre suas condições de seu trabalho. Um exemplo microcósmico é o desenvolvimento das redes “Silver” e as práticas empreendedoras forjadas por mulheres negras na Zona do Canal do Panamá durante o neocolonialismo (Flores-Villalobos 2022).


Ao frequentar rios como redes de sociabilidades e trabalho, lavadeiras das Índias Ocidentais se uniram em lugares onde americanos brancos não podiam penetrar ou entender. Isso permitiu que elas regulassem preços fixos de cartel para serviços, a serem realizados em um ritmo mais cadenciado, e até desafiaram a discriminação de renda racial do “roll system” exigindo pagamentos em moedas de ouro ao invés das limitantes moedas de prata.


Esforços contemporâneos deveriam ecoar este impulso em coordenação. O plano de reforma trabalhista de Claudia Sheinbaum para reduzir a semana de trabalho do México de 48 para 40 horas até 2030 vem 30 anos depois que o Equador o fez. No entanto, o programa de assistência social Oportunidades do México de 2002 foi rapidamente acompanhado no ano seguinte pelo Bolsa Família do Brasil e pelo Bônus de Desenvolvimento Humano do Equador como benefícios financeiros para famílias abaixo da linha da pobreza.


Em paralelo a estas tentativas nacionais de suavizar os custos sociais do neoliberalismo, a América Latina também construiu poderosas coalizões regionais comprometidas em confrontar agendas neoliberais continentalmente. O levante zapatista de 1994 em Chiapas primeiro sinalizou uma recusa em aceitar as desigualdades crescentes ligadas ao efeito do NAFTA, tendo sucesso ao provocar sua revisão pelo governo mexicano.


Em breve sucessão, a Aliança Social Continental (ASC), formada em 1997, coordenou sindicatos, movimentos camponeses e organizações comunitárias através da América Latina para resistir à Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), ultimamente contribuindo para sua derrota em 2005 através de cúpulas paralelas e mobilizações populares.


Continuando esta trajetória, a Jornada Continental pela Democracia e Contra o Neoliberalismo reúne movimentos sociais latino-americanos como o MST do Brasil para lutar pela reforma agrária e contra os agro-monopólios. Trançadas juntas, estas redes continentais demonstram que mobilizações transnacionais são necessárias para impor as novas “regras do jogo” na América Latina.


No entanto, tais coalizões são limitadas quando chefes de estado nacionalistas e autocráticos priorizam agendas domésticas sobre a cooperação regional. Enquanto o chavismo inicialmente distribuía receitas do petróleo para financiar programas de saúde, educação e bem-estar, a economia tornou-se fortemente dependente do preço flutuante do petróleo (mais de 90% da receita de exportação), deixando-a extremamente vulnerável a choques de mercado externos.


Expropriações de empresas privadas e regulamentações cambiais estritas sufocaram a produção doméstica, desencorajaram o investimento e geraram severa escassez de bens básicos. A inflação, combinada com a fuga de capitais, corroeu os padrões de vida e enfraqueceu os próprios programas sociais destinados a empoderar a classe trabalhadora. Desta forma, uma abordagem nacionalista e populista pode minar tanto a estabilidade doméstica quanto a possibilidade de unidade latino-americana, uma vez que controles cambiais unilaterais priorizam a economia de uma nação sobre esforços cooperativos de alianças coletivas como a ASC ou a Jornada Continental.


Portanto, não seria mais representativo da unidade latino-americana disseminar cartazes com uma diversidade de trabalhadores de todo o continente no primeiro plano? Há de se perceber quão pouca visibilidade movimentos anti-neoliberais recebem em comparação a presidentes populistas como Chávez e Lula em cartazes como o apresentado acima.


O desequilíbrio arquivístico — um no qual líderes estatais dominam a propaganda visual enquanto movimentos continentais permanecem amplamente ausentes da memória pública — molda a memória latinoamericana. Rastrear como jornais e cartazes políticos representavam a unidade revelou não apenas tentativas de integrar a região, mas também obstáculos consistentes postos pelo nacionalismo e populismo carismático.


Até que ponto projetos de união latino-americana centrados no Estado, tais como o bolivarianismo do chavismo, deslocaram ou ofuscaram movimentos transnacionais de base como a ASC e a Jornada Continental, e como isso afetou a capacidade da região de resistir ao neoliberalismo?

Referências


Bibliography

Almeida, Paul, and Amalia Martin. Resistencia Colectiva al Neoliberalismo.

      eScholarship, University of California, 2023.

Cazuza. “O Tempo Não Para.” Track on Ideologia. BMG Ariola, 1988. CD.

Dinatale, Martín. “'La unidad latinoamericana es un sueño prácticamente imposible'.”

         La Nación (Buenos Aires, Argentina), 2009. NewsBank: Access World News.

Flores‑Villalobos, Joan. The Silver Women: How Black Women’s Labor Made the Panama Canal.

      Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2022.

Glickhouse, Rachel. “Explainer: Conditional Cash Transfer Programs in Latin America.”

      AS/COA Online, 2013.

Habla Chávez. Unidad Latinoamericana.

      Argentina: Centro de Estudios Marxistas Pedro Milesi, 2008.

Hausmann, Ricardo, and Francisco Rodríguez, eds. Venezuela before Chávez: Anatomy of an

Economic Collapse. University Park, PA: The Pennsylvania State University Press, 2014.

Jiménez, Luis. Tan Lejos de Dios; Tan Cerca de los Estados Unidos. 2001. Lithograph.

      Minneapolis Institute of Art, object no. 2011.76.3.

Urrutia, Alonso, and Alma Muñoz. “President Sheinbaum Proposes Her Timeline for Mexico to

 Reach 40 Hour Workweek by 2030.” Mexico Solidarity Media, December 3, 2025.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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Regiões subvalorizadas dentro dos próprios países latino-americanos reproduzem, em escala local, as mesmas assimetrias estruturais analisadas neste ensaio.

A Baixada Fluminense, região do Rio de Janeiro, com pouca visibilidade política mas alta importância eleitoral, tem alta representatividade artística.


Escute essa playlit de artistas com ligações com a Baixada na playlist Spotify / Cedro Rosa.




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