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 Vale uma nação, vale um grande enredo, em Niterói o amor venceu o medo 

 

         Quando a pastora e senadora pelo Republicanos, a senhora Damares Alves (aquela do Cristo na goiabeira, lembram?), disse que entraria na Justiça contra a Acadêmicos de Niterói, por fazer, na visão dela, propaganda eleitoral antecipada para o Presidente Lula, eu não tive mais dúvidas: a Escola merece aplausos. Confesso que até então eu ainda tinha uma leve, na verdade, minúscula apreensão. Temia pelo desgaste que pudesse contribuir com a vitória da extrema-direita no próximo pleito (vade retro). Eu jamais ficaria do mesmo lado que a senhora Damares (na briga dela com Silas Malafaia eu torço pela briga).


Assistindo dia desses o ‘Sem Censura’, da Cissa Guimarães - que a cada dia destaca uma Escola de Samba do grupo especial, gostei do pessoal da novata de Niterói. O presidente, Wallace Palhares, responsável pela escolha do enredo, disse que tinha na mesa três ou quatro temas. Todos bons, mas que seria mais um desfile de uma agremiação que ascendeu ao grupo especial e poderia fazer um bom papel, mas que apenas, passaria. A história de Lula, era algo forte, “para marcar”. Indagado se não temia vaias ou manifestações negativas por parte do púbico, Wallace disse que a Escola responderia com alegria e sublinhou com um verso do samba ‘Tendência’ de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão: Não me comove o pranto de quem é ruim”. Falou na boa, sem arrogância. Senti firmeza.


         Muka, o comentarista que ajuda a Ciça, falou algo que certamente arrepiou a turma que sofre do complexo de vira-latas: “Com a história de vida que tem, se Lula tivesse nascido nos Estados Unidos, Hollywood já o teria espalhado mundo afora, em vários filmes”. É isso. E nossas Escolas de Samba já falaram de Getúlio, de Juscelino, o próprio Lula já foi enredo da Gaviões em 2012. Reis, rainhas, imperadores são temas de enredos, e as referências são diversas, tem Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Zaquia Jorge e tantos outros. Em 1974 a Beija-Flor exaltou a ditadura militar (credo!) com o Grande Decênio, lembram? Qual o grande pecado de uma reverência ao filho de dona Lindu?


         E sobre o samba, como não admirar essa lindeza de composição que tem como autores, Teresa Cristina, Paulo César Feital, Arlindinho, André Diniz, Fred Camacho e outros bambas? Samba-enredo bom, forte e em nenhum trecho associa a saga de Luiz Inácio à campanha eleitoral. Mesmo a passagem poética “por ironia, treze noites, treze dias, nos guiou Santa Luzia, São José alumiou”, é referência clara ao número do partido de Lula. Coincidentemente foi tempo que a família gastou viajando de ‘pau de arara’ de Garanhuns a São Paulo, como consta das biografias publicadas.     

 

         Dia desses, ouvi próximo de onde trabalho, um cidadão comentar que um presidente da república, analfabeto e cachaceiro, virou enredo pra desfile de Carnaval. Ouvi e sorri intimamente. Um analfabeto que se destacou por serviços preciosos prestados à sociedade nas áreas da ciência, da cultura e das artes, e por isso foi condecorado por universidades, daqui e de fora, com 42 títulos de Doutor Honoris Causa. Um recorde. “Será que aquele cidadão sabe o que é isso?” 


        Claro, que ninguém é ingênuo ou hipócrita ao extremo para não achar que o desfile pode ajudar a aumentar a simpatia por Lula. Mas também, dependendo da atmosfera, arranhões produzidos por Fake News, por maus pastores evangélicos, Deepfakes, o uso ruim da I.A. e sacanagens habituais da extrema direita, podem ajudar a forjar a versão mentirosa de que a Acadêmicos de Niterói está fazendo campanha para reeleição do homem. Vivemos tempos estranhos.


         Mas vamos pensar positivamente, afinal, Escolas de Samba também devem refletir nossa realidade em forma de arte. É política sim, mas não política partidária. Outras manifestações artísticas vêm fazendo isso sob muitos aplausos, como o nosso cinema, ganhando pencas de prêmios internacionais. A novata agremiação tem pedigree, é afilhada da Unidos do Viradouro e da Acadêmicos do Cubango. Chega com força e coragem na avenida. Eu, embora portelense, adoraria ver essa, também azul e branco, vencer o Carnaval.         



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Roda de Samba pra Churrasco.


 

 



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