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A TERCEIRA MARGEM DO RIO, UMA INTERPRETAÇÃO POLÍTICA

José Luiz Alquéres, Editor.
José Luiz Alquéres, Editor.

 

Um dos mais belos e enigmáticos contos de Guimarães Rosa é a “A Terceira Margem do Rio”. Dele existem dezenas de interpretações psicológicas, filosóficas, sociais, existenciais e muitas outras onde estes componentes são misturados, ora concentrando o foco da crítica no narrador do conto, ora no personagem, ora no barco ou mesmo no próprio rio.

 

Para os que não conhecem, uma síntese do conto é a seguinte:

 

O narrador descreve o personagem, seu pai, como um homem correto e sem extravagâncias. De modo inesperado, o pai encomenda uma canoa resistente e, quando fica pronta, entra nela e passa a viver no rio, afastado da margem, sem retornar. Não há briga, despedida dramática nem explicação. Ele simplesmente parte — mas não vai embora: permanece sempre visível à distância, no curso do rio.

 

A família entra em choque. A mãe se desespera, os irmãos seguem a vida e acabam se afastando, mas o narrador permanece emocionalmente ligado ao pai. Com o tempo, torna-se uma espécie de guardião silencioso daquela escolha inexplicável. Ele passa a levar comida escondido e deixá-la na margem para que o pai a recolha. É como se sustentasse secretamente a sobrevivência daquele gesto radical.

 

Os anos passam. A mãe morre, os irmãos partem, a casa se esvazia. O pai continua no rio. O narrador envelhece carregando culpa, dever e fascínio. Em determinado momento, já adulto, ele grita ao pai oferecendo-se para substituí-lo na canoa. Pela primeira vez, o pai parece aceitar e se aproxima. Diante disso, porém, o narrador entra em pânico e foge. Nunca mais o pai é visto.

 

O conto termina com o narrador idoso, doente e tomado por remorso, pedindo que, quando morrer, coloquem seu corpo numa canoa e o deixem seguir rio abaixo — numa tentativa tardia de cumprir o destino que não conseguiu assumir em vida.

 

O conto é misterioso mesmo. Como disse Einstein, mistério é a coisa mais bela da existência, pois ele alimenta a arte e a ciência. Em minha interpretação, o rio é aquele de Heráclito: sempre igual, mas nunca é o mesmo, pois é fluxo, assim como o Brasil. No conto, o pai nele prefere viver sem optar pela margem esquerda ou margem direita. Podemos imaginar este permanente cenário de “não realização” que caracteriza o nosso projeto nacional. Ele não precisa chegar a uma das margens para se concretizar, pois o projeto nacional, de pai para filho, é a embarcação precária que garante a sobrevivência, mas não o progresso. O projeto ideal seria a forte embarcação que enfrentando as águas vai escolhendo o seu caminho, fazendo suas pescarias, aportando e comercializando com os portos de ambas as margens, mas guardando a sua independência.

 

Esta metáfora de uma terceira via política é mais do que nunca uma aspiração nacional nesse momento de polarização que parece nos condenar à permanência por mais 4 anos de estagnação no meio de um fluxo de tempo que marcha inexoravelmente para um futuro do qual nós estamos alijados. A receita para o Brasil neste momento de incertezas internacionais e nacionais é seguir o conselho de Paulinho da Viola na música “Argumento”:

 

“Faça como um velho marinheiro

que durante o nevoeiro

Leva o barco devagar”.

 

Em outras palavras, procure uma terceira via política, como defendeu Gilberto Kassab em recente entrevista no programa Roda Viva.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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