Só
- Leo Viana

- há 10 horas
- 6 min de leitura

Enquanto esperava o motoboy do aplicativo entregar os remédios que tinha comprado na farmácia virtual, o Edson aproveitou e pediu um sanduíche na rede de fast-food. Estava com fome; a noite tinha sido mais longa, animada e etílica do que o previsto. Jogos online são maravilhosos!
Os remédios chegaram logo. Tomou o anti-ressaca, o analgésico e guardou o do ácido úrico. Os últimos exames tinham sido bons. Aliás, já era época de pedir nova coleta domiciliar. Ia agendar o clínico geral que atende na telessaúde do plano.
A amiga, que conheceu no aplicativo de relacionamento, era uma boa alternativa de conversa virtual, já que fisicamente não havia chance para a relação. Podia começar uma chamada com ela agora, pensou. Mas repensou e resolveu maratonar, sozinho, a série indicada por um outro grupo. Chegou o hambúrguer. Comeu com voracidade. Bebeu o refrigerante por cima. Lembrou-se de agendar os boletos do mês. Desde que sofrera com uma das empresas de telefonia por lançar ligações que nunca tinha feito e ter pago por débito automático, desistira dessa facilidade.
A partir de então programaria todos os boletos para o mesmo dia do mês e, na véspera, conferia um por um e os agendava: internet, água, luz, gás, telefone e cartões de crédito.
A série ficaria para depois. Precisava fazer exercícios. Ligou o monitor e o personal trainer apareceu. A série de exercícios gravada tinha de ser seguida à risca, mais ainda depois de comer um sandubão daquele calibre. A consciência pesou por um instante. Almoçaria mais tarde um japonês com bastante salada.
Lembrava-se, com certo estranhamento, do tempo em que saía de casa. Muito esquisito ter que ir aos lugares, olhar para as pessoas, ouvir suas vozes diretamente, sem os filtros da tecnologia. E estar sujeito a seus fluidos, seus sentimentos instáveis, suas idiossincrasias.
Por um instante, chegou a lembrar do tempo em que fazia análise presencialmente. Conversou por anos com uma terapeuta freudiana muito interessante, que o fez redirecionar a vida para um caminho melhor. Tinha se tornado uma pessoa bem resolvida e sociável, mas veio a pandemia de Covid-19. Nunca mais saiu de casa.
O mundo lá fora é pleno de ameaças.
Nunca fora de muitos amigos. Criança estranha, de brincar sozinho mesmo. Gostava da mãe, que o obrigava a tomar três banhos por dia. Nunca reclamou disso; ao contrário dos poucos colegas e primos, esperava a ordem, mas ia feliz pegar a toalha e o sabonete. O mundo era sujo.
Não se interessou por meninas fisicamente até a adolescência. De maneira geral, só as achava interessantes porque eram mais limpas que os meninos. Depois de crescido, até passou a sentir algo mais que isso, mas compartilhar fluidos era um pouco demais. Com homens, nem pensar. Com mulheres, era menos assustador, mas não atraente.
Passava algum tempo pensando nisso. Mas seu analista agora era um pool de chats de inteligência artificial. Escrevia algumas inquietações pessoais e as submetia à análise de dois ou três chatbots, tirava uma espécie de média e tentava incorporá-la à sua rotina.
Jornais. Tinha na memória o formato e, eventualmente, até o cheiro da tinta. Aquela cor branco-sujo do papel. Havia um que era cor-de-rosa, lembra bem. Estranho. Traziam notícias do dia anterior. Se não houvesse como lê-los de manhã, à noite já estariam ultrapassados pelos acontecimentos, mas a informação era assim. Não imaginava mais como viver sem a atual simultaneidade entre fato e notícia. Amanhã será tarde demais.
De repente, lembrou que estava efetivamente ficando tarde para trocar seu smartphone principal. Os secundários eram menos usados e podiam resistir por mais tempo. A plataforma de vendas já anunciara o novo modelo e a empresa de telefonia oferecia um bom desconto. Estava pensando no caso. Não ia mais ao exterior comprar, mas encomendava de lá. Compensava.
Tinha sido uma boa ideia a pintura artística das paredes internas do apartamento. O quarto convertido em sala que usava para jogar tinha pinturas realistas do mar. Duas paredes de ondas e duas do fundo do mar, com a biodiversidade típica dos grandes recifes de coral. A sala principal mimetizava a Amazônia profunda. Os olhos dos jacarés e das onças, inclusive, brilhavam no escuro. O sistema de som, a um comando, soltava sons que davam ainda mais realismo. Sapos e pássaros faziam a base da trilha sonora, eventualmente cortada pelos gritos dos macacos ou pelo rugido das grandes onças-pintadas.
O grande corredor do estranho apartamento era equipado com aparelhos de ginástica, e as caixas de som emitiam sons de aeroporto, que davam densidade às pinturas de aviões, grandes cidades estrangeiras e paisagens icônicas do exterior.
O mundo construído por Edson tinha algumas poucas falhas. Interagia com poucas pessoas, sempre virtualmente, mas havia vizinhos, e eles eram imprevisíveis. A vizinha do 703, imediatamente acima de seu refúgio, tinha um casal de filhos gêmeos, de oito ou nove anos. A curiosidade das crianças às vezes as levava a bater de porta em porta. Nada podia incomodar mais Edson. Normalmente, ele olhava pelo visor, constatava o incômodo, via de quem se tratava e seguia sem dizer nada ou tomar qualquer atitude. Até porque não fazia ideia do que fazer. Ia ter de interagir com aqueles pequenos seres? Não faria isso.
Não sabia por que tinha pensado nisso agora. Já havia tempos as crianças não incomodavam. Não havia com o que se preocupar.
Já se preparava para finalmente iniciar a maratona da série quando a campainha tocou. Forte e repetida. A primeira reação foi lembrar que devia ter trocado aquele alarme havia muito tempo. Quem seria? As crianças tinham um toque característico, rápido, em deslocamento para a próxima porta. Era um toque adulto e de evidente desespero.
Continuava, como se soubesse que havia gente lá dentro. O toque alto e estridente o incomodava tanto quanto a hipótese de interação com a vizinhança. Agora, batidas fortes na porta também se somavam ao soar nervoso da campainha. Aproximou-se da porta, calçando as pantufas que sempre usava em casa, como um felino. Na dúvida entre a câmera e o visor da porta, optou pela câmera. Voltou a se afastar da porta, que seguia sendo esmurrada com força, em simultâneo com a campainha.
O sistema de câmeras revelou algo que Edson não tinha incluído em sua equação existencial. Dois homens vestidos com o uniforme do Corpo de Bombeiros eram os responsáveis pela importunação.
O recebimento de encomendas, correspondências, remédios e comida era negociado com os porteiros, que silenciosamente colocavam os objetos na porta de Edson e lhe davam um pequeno toque pelo WhatsApp. Aqueles homens tinham sido autorizados a subir? Via-os pela câmera, mas não via perigo aparente, fogo ou outra coisa que o fizesse acreditar numa catástrofe iminente.
A insegurança o afligia. Não sabia se devia abrir a porta e subverter sua lógica de isolamento ou ignorar, mesmo diante da insistência nervosa dos bombeiros.
Não conseguia enxergar motivo para se expor. Eles não pareciam dispostos a arrombar a porta. Talvez se convencessem de que definitivamente não havia ninguém do lado de dentro.
Viu pelas câmeras quando eles saíram, aparentemente aliviados, mas com pressa. Trancou-se na sala de jogos eletrônicos. Todos os equipamentos tinham baterias e nobreaks que garantiam o funcionamento mesmo no caso de falta de energia.
O fogo chegou ao sétimo andar pela área de serviço. Quando notou o cheiro e o calor, era tarde demais. Os caminhos de descida estavam todos bloqueados.
Ninguém reclamou as cinzas. Nem os companheiros de jogos eletrônicos. Nem a amiga virtual.
Os parentes souberam da tragédia alguns dias depois. Só um primo tinha o endereço e ligou uma coisa à outra.
Rio de Janeiro, julho de 2026.
Estou ouvindo A Dança da Porta Bandeira, com EVANDRO LIMA. Parceria com LAIS AMARAL. Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
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