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SEDE



Não fazia muito tempo que tinha bebido o último gole do cantil. Ou talvez fizesse. A percepção de tempo estava um pouco prejudicada. A de distância também. Podia ter caminhado alguns quilômetros ou apenas alguns metros. A paisagem monótona não ajudava a discernir. As modificações que a vista percebia pareciam ocorrer mais pela ação do vento quente sobre as dunas do que pela mudança de cenário e movimentação do observador.


Não havia companhia nem testemunha. Não havia sinal de comunicação e a bateria do celular era uma lembrança já distante.


Naquela estação do ano, dias e noites eram incertos. Os dias duravam demais, o calor era sufocante e a caminhada parecia não render. As noites começavam quentes e terminavam frias, mas o sol logo retomava o posto. Não sabia por que motivo não retrocedia ao ponto de partida. Lá havia água, comida, gente. Ali, sozinho, desafiava a si mesmo, a lógica e a razão, acreditando nas miragens que começavam a se repetir toda vez que olhava para o horizonte.


O mesmo vento quente que moldava a paisagem repetida agora trazia de longe uma terrível tempestade de areia, que se aproximava perigosamente. Sabia que devia se proteger, procurar abrigo, tentar escapar. Mas escapar para onde? Tinha equipamentos para sua própria proteção. Tinha máscara, óculos, touca, roupa confortável. Devia ser suficiente.


A tempestade chegou. Passou por ele por infinitos quarenta minutos. Ou talvez menos. Não conseguia precisar. Sobreviveu, mas não sabia até quando resistiria. A direção que a tempestade tomou era oposta à que ele seguia. Não precisamente. Nada era preciso naquela imensidão sem referências.


Era um explorador experiente. Trazia consigo, no corpo, as marcas e lembranças de quando subiu montanhas geladas, cruzou florestas quase impenetráveis e cheias de animais perigosos. Sobrevivera a situações extremas por aplicação, competência e sorte, muita sorte. Agora, muito depois de abandonar os riscos e optar por uma vida confortável, estava novamente envolvido num desafio extremo. Não tinha mais a mesma habilidade. Ou talvez tivesse. Mas estava particularmente vulnerável com o fim da água.


O resfriamento da segunda madrugada após o último gole no cantil fez brotar pequeninas gotas de orvalho no plástico estrategicamente estendido. Foram bebidas voluptuosamente, mas não resolveram o problema da sede. Não sabia quanto tempo resistiria. Não conhecia aquela sensação. O frio e o calor úmido eram assustadores, extremos, mas foram enfrentados com galhardia em aventuras passadas. A escassez absoluta de água era um elemento novo. A comida desidratada agora mais parecia feita de argila e lhe roubava a pouca umidade do corpo.


A razão lhe faltara quando mais precisava dela. O ímpeto de iniciar o novo desafio foi mais forte que os avisos de amigos e família. Era por natureza um desafiante. O conforto material era entediante. Amava as pessoas próximas, mas sabia que precisava se defender de algumas delas e tinha percebido, já há tempos, que a solidão era muitas vezes um bálsamo. Não a solidão pura, inerte. Ela, por si só, era outro peso. Melhor desafiar os sentidos, a razão, o físico. Começou aos poucos e acabou se tornando um aventureiro obsessivo.


Duas vezes por ano, ancorado no sucesso no mercado financeiro, ia para locais remotos do mundo desafiar a natureza e a si próprio. Sozinho. Sem amigos ou parentes. Nos povoados pobres que encontrava pelo caminho fazia ações pontuais de ajuda, auxiliava em alguma demanda, deixava dinheiro ou contatos com líderes locais. Talvez fosse uma forma de compensação. Afinal, gastava fortunas tentando vencer um problema profundamente individual: a monotonia.


Uma picada de cobra na savana o fez interromper, quase definitivamente, as aventuras. Agora, aos cinquenta anos, não conseguia racionalmente explicar por que estava ali, no deserto, com sede e ameaçado pelo ambiente hostil, colocando a vida em risco novamente.


A existência começou a passar por ele como um filme. Sabia que isso ocorria na iminência da morte. Não sabia se estava acordado ou sonhando. Um misto de calor e frio percorria o corpo, a sede era a pior das sensações. Os músculos esgotados pela caminhada, a pele frita pelo sol inclemente, os olhos vermelhos pela ação da claridade infinita e da areia fina.


Mas ainda resistiria. Tinha sobrevivido a Wall Street, a Chicago, à Bolsa de Valores de São Paulo. Aos escândalos próximos, aos políticos interessados em seu dinheiro. Viu carreiras serem destruídas por uma ganância infinita. Viu muita coisa. Conseguiu manter certa integridade. Partia para um novo desafio toda vez que as ameaças chegavam muito perto. O que era um leão perto de um político ambicioso? Que mal representaria um urso polar se comparado a um mafioso embrenhado num Parlamento? Comparadas a um grande empresário inescrupuloso, uma serpente venenosa ou uma avalanche eram apenas bibelôs de viagem.


Imagens fortes passavam por ele: risco de sequestro da família, ameaças de morte por segredos que conhecia. O filme se seguia.


E também seguia a sede. O desconforto máximo, a certeza de ter entrado em um caminho sem volta.


O corpo foi encontrado dias depois, meio dilacerado pelos animais silenciosos do deserto, meio encoberto pela areia que se movia ao vento quente.

A família não compreendeu. Os amigos ficaram atônitos. O mundo se surpreendeu muito.

Mas havia um estranho sorriso na face semidestruída.


Talvez fosse de alívio.

 

Rio de Janeiro, julho de 2026.

Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.




 

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