A Antessala da Partida
- Marcio Ferreira

- 2 de dez. de 2024
- 3 min de leitura

Não é raro passarmos pela vida sem dedicar pensamentos à morte. A nossa, a dos outros, a de quem amamos. A morte parece sempre estar num horizonte distante, feito algo que, ainda que se aproxime, jamais nos alcançará de verdade. Ou preferimos acreditar nisso. E assim, vestimos a mortalidade com uma camada de invisibilidade conveniente, que nos permite viver como se o amanhã fosse garantia perpétua. Mas, o que fazer quando ela se revela em sua nudez, colocando-se como fato concreto, impossível de ignorar?
Há aqueles que encaram a morte com uma lucidez surpreendente, como Antônio Cícero, que fez da escolha consciente uma espécie de poesia final. Uma carta. Uma despedida. Algo que não apenas eterniza sua presença, mas provoca quem fica, questionando o quanto de nós somos feitos dessa resistência em não aceitar o fim.
A carta de Cícero nos faz pensar se a morte, com toda a sua complexidade e ambiguidade, poderia ser, afinal, algo que requer também uma espécie de preparação — não daquelas práticas e burocráticas, mas da alma, do espírito.
Nesse sentido, talvez devêssemos olhar para o costume sueco conhecido como döstädning, ou "limpeza da morte". Popularizado por Margareta Magnusson em seu livro O Que Deixamos para Trás, döstädning não é apenas uma prática de organizar e simplificar os pertences em vida. É um convite para uma despedida gradual, uma reflexão sobre o que realmente importa e o que, no fim, deve ser deixado para trás.
A cada peça escolhida, a cada objeto descartado, vamos deixando também um pouco de nós — ou, quem sabe, nos preparamos para a possibilidade de partir mais leves, sem sobrecarregar quem ficará com o peso do que fomos.
Por outro lado, a antecipação, o constante aviso de que temos um prazo, gera uma angústia única. Sofremos pela certeza de que, de alguma forma, seremos esquecidos, de que as palavras podem não ser lidas, de que o carinho que hoje dispensamos amanhã será apenas memória em corações que continuarão batendo. É essa dor da antecipação que, talvez, seja ainda mais cruel. Ela nos empurra para um lugar de dor diluída, feita da consciência de que somos finitos e frágeis. De repente, as horas tornam-se pesadas, cada encontro é um adeus em potencial, e cada gesto carrega em si a esperança de permanecer.
E como fica a dor de quem é deixado? Aqueles que ficam lidam com as ruínas de uma ausência que se espalha como incêndio. Sentem que faltam pedaços em cada canto, fragmentos de uma presença que o tempo tenta apagar, mas que a memória insiste em acender. Para eles, a morte também é essa antessala interminável onde a ausência paira feito sombra.
Vivemos como se a morte fosse uma questão exclusiva de quem parte. Mas, na verdade, é um drama repartido, cuja dor se espalha por quem vai e por quem fica. No fim, a pergunta que resta é se um dia aprenderemos, de fato, a nos despedir — de uma maneira em que a partida não deixe essa antessala vazia, sem ecos, apenas com o silêncio do que não foi dito.
Márcio Ferreira é jornalista, doutorando e mestre em sociologia pelo Iuperj, assessor político, sócio da Brotar Comunicação, acumula coisa e pede desculpas antecipadas a quem tiver que se desfazer da bagunça que vai deixar aqui quando partir
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