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ESTRADAS

 



Terceira geração de caminhoneiros da família, o Joãozinho era vocacionado para o negócio. O avô e o pai entraram na boleia por falta de outras opções, mas acabaram construindo um significativo patrimônio depois de tantos quilômetros rodados Brasil afora. O Joãozinho teve a possibilidade de escolher carreira diferente. Gostava muito de futebol, podia ter ido por aquele caminho. Era bom aluno nas séries iniciais e poderia também ter continuado os estudos.


Com a separação dos pais, teve a chance de ir morar com a mãe na capital praiana. Foi, mas ficou pouco. Quando estava quase se tornando um playboy urbano, o sangue estradeiro falou mais alto e o fez voltar para o interior, onde o pai lhe esperava com uma enorme carreta própria, mas associada a um grande frigorífico, que levava carne de aves e suínos para o Brasil todo.


Joãozinho, aliás, é personagem interessante. Com quase dois metros de altura, o apelido era uma ironia desde sempre. Já nasceu maior do que o normal e foi sempre assim.

Chegou a viajar com o avô num velho Fenemê com duas alavancas de marchas. Ainda não entendia nada, mas gostava da viagem e das novidades.


Cresceu ouvindo que os caminhoneiros — profissão particularmente comum no Sul do Brasil — eram os herdeiros dos antigos tropeiros que subiam o mapa carregando produtos nos lombos de mulas.


O pai do Joãozinho dirigiu carretas mais modernas, Scania e Volvo. Joãozinho lembrava com saudade da grande Volvo branca e azul e da Scania laranja. Nunca acompanhou o pai, mas contava os dias até sua volta e, desde muito criança, evitava as despedidas.


Quando chegou a sua hora, Joãozinho ganhou as estradas por conta própria. Já em suas primeiras viagens, deixava claro que não tinha compromissos com a volta. Chegava a ficar seis ou mais meses sem voltar ao Sul, transportando cargas entre diferentes destinos no Brasil.


Inteligente e articulado, um pouco mais que a maioria dos colegas de profissão, em geral entusiastas de longos períodos de solidão, o Joãozinho montou uma impressionante rede de amigos por onde passava. Era esperado com festa em postos distantes após a primeira visita. Ajudou a tirar da monotonia locais remotos, onde os caminhoneiros se encontravam para viver um tipo de "solidão acompanhada".


A maioria dos motoristas de carga deixa a família numa cidade qualquer e passa grandes temporadas cumprindo a sua função logística na economia brasileira. Alguns, como o Joãozinho, fazem dessas jornadas um misto de trabalho e hedonismo. Não raro, próximo aos necessários postos de abastecimento, existem casas onde garotas de variadas origens atendem a caminhoneiros sedentos por carinhos e calor humano. O calor simples e inclemente eles geralmente conhecem nas estradas. As casas são ambientes normalmente obscuros, onde mulheres frequentemente empregam-se na chamada "mais antiga das profissões" não por opção, mas, em geral, trazendo consigo algum tipo de desilusão ou mesmo perseguição ou violência anterior.


Joãozinho era um frequentador. Nem sempre com a intenção primária de obter sexo pago. Muitas vezes ia pelo prazer de beber alguma coisa num local festivo, ainda que fosse uma alegria remunerada. Com as passagens frequentes, também em alguns desses lugares o caminhoneiro festeiro e alto começou a ser aguardado com entusiasmo e ansiedade. Camas de alta rotatividade e mulheres com passado variado foram visitadas pelo Joãozinho, que provocou paixões, ciúmes, mais desalento e até algumas alegrias em cada uma das visitas. O elemento comum era só o pagamento generoso e sem reclamações.


Na medida em que foi conhecendo lugares que considerava interessantes, Joãozinho passou até a desviar a viagem ou rejeitar cargas, de modo a direcionar seus caminhos e visitar os locais que queria.


Num desses lugares, após uma parada inclusive imprevista (um pneu furado pela segunda vez, após a pane no sistema conhecido como "Rodoar"), Joãozinho conheceu a Zildinha. Aliás, não há qualquer evidência de que seja mesmo esse o nome dela, por razões quase óbvias.

As colegas de profissão e infortúnio de Zildinha normalmente utilizam nomes "de guerra" para esconder suas verdadeiras identidades.


Numa viagem do sertão para o sudoeste da Bahia, Joãozinho teve o problema e encostou no primeiro posto à frente, após ter rodado alguns quilômetros com o pneu furado e o sistema de autocalibração (Rodoar) em pane.


Já conhecia o posto, mas não era de seus preferidos e não conhecia bem os arredores. Como o fim da tarde já estava próximo e o reparo do sistema demandava uma peça a ser comprada na cidade, que ficava a pelo menos 10 km do posto, deixou o caminhão no local e saiu com outro motorista em busca de alguma diversão antes de dormir.


Levado a um pequeno e aconchegante bar na borda da cidade, não custou a entender que ele era apenas a fachada de um estabelecimento de sexo pago. Estava decidido a apenas beber uma ou duas cervejas, porque a carga de carne vinda de um grande frigorífico baiano tinha data para ser entregue.


Sacou a carteira para pagar antecipadamente as duas cervejas quando viu a Zildinha. Por um instante, o grandalhão sentiu algum tipo de instabilidade. Duvidou do que via e achou que a luz vermelha e embaçada do local pudesse falsear a imagem que se formava nas retinas acostumadas à estrada.


Joãozinho não tinha problemas de autoestima. Tinha alto apreço por si mesmo, um tipo de reconhecimento da própria experiência. Não se gabava, mas internamente tinha um certo orgulho de conhecer mais da vida fora da estrada do que seus colegas. Tinha vivido na cidade, conhecia as modelos, naturais ou moldadas em academias ou procedimentos estéticos, gente que tinha vida absolutamente diferente daquela. E fez toda essa reflexão porque não acreditava direito no que via agora. Zildinha era inacreditável. Duvidou de si naquela hora.


Sua passagem criava uma espécie de redemoinho na casa. Homens e mulheres fingiam naturalidade, mas não deixavam de notar.

Zildinha tinha um passado, mas não compartilhava com ninguém. Histórias não confirmadas circulavam, mas Joãozinho não teve acesso a nenhuma delas.


O amigo estranhou o jeito dele. Não conviviam muito, mas conhecia a fama. Joãozinho deixava um amor em cada posto. E algum ciúme. Não costumava deixar desafetos. Era querido além do normal. E era experiente, apesar de não ser mais velho que a maioria.


Ainda estava meio boquiaberto com a Zildinha quando ela veio em sua direção. O sangue parecia ter gelado, os olhos tremiam, a fala embolou diante do boa-noite que ela deu a ele. Enquanto ela vinha, imaginou, em sua própria defesa, que talvez se tratasse de uma mulher trans. O Joãozinho era, no fundo, um caminhoneiro comum, com seus preconceitos e idiossincrasias. Não conceberia achar tão linda e atraente uma trans, um "homem modificado", em sua imaginação binária. Mas a Zildinha chegou até ele. E as dúvidas acabaram.


Diante da incapacidade momentânea de dizer algo que fizesse sentido, ofereceu à bela um copo de cerveja, que ela aceitou sem cerimônia. Disse que já tinha ouvido falar dele, o "famoso Joãozinho", e que estava ansiosa por conhecê-lo. Foi o suficiente para que ele se aprumasse e, a partir dali, conseguisse entabular alguma conversa.


Zildinha era bonita, falava certinho, conhecia muita coisa. Hipnótica, para ele.


Não demorou até que subissem aos aposentos dela, substancialmente melhores que todos os outros por onde ele já tinha passado. E a noite foi como nunca para os dois. Zildinha nunca tinha sentido daquele jeito. E, com a experiência que tinha, devia conhecer o ofício. Joãozinho também não, mesmo trocando sempre de cama e companhia.


O colega voltou ao hotel do posto e Joãozinho ficou lá no reduto da Zildinha até o limite do tempo que não comprometeria a entrega da carga.

Tinha muito compromisso já afiançado e isso impediu que ele voltasse na semana seguinte. Não tinha anotado o contato dela. Nem o da casa. Do posto, que era dos menos frequentados por ele, nunca teve. Só conseguiu um jeito de passar por ali novamente um mês depois.


Não havia mais Zildinha.


Tinha voltado, disseram, à cidade natal, num ponto distante do sertão, mas ninguém sabia qual era a cidade ou o estado.


Dizem que Joãozinho vagou algum tempo à procura dela.

Numa praia do Sul, um ex-caminhoneiro, quase sempre bêbado, sonha seguidamente com uma mulher linda e repete a história para outros bêbados.


Numa pequena cidade do sertão, uma mulher maltratada pela vida vive sozinha e carrega água de um açude distante para dar de beber a cabras e galinhas enquanto lembra de uma noite só, dentre as tantas que viveu.


Rio de Janeiro, julho de 2026.

Estou ouvindo a playlist Música de Bar e Boteco, na Cedro Rosa.



 

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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade

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